Biblioteca
Poemas de Amanda Berenguer  


Do livro "Identidad de ciertas fructas"

AS UVAS

Gostaria de beber as uvas
como um cabrito bebe seu leite
numa latada de espuma.

Mas o leite é morno
e as uvas são sombrias.
As uvas levam álcool
parecido ao da lua
no outono
quando ainda jovem.

AS PERAS

A forma das peras
não tem fechadura -
parece uma sequência de curvas lentas
ou de grávidas pombas amarelas.

A forma
é a madurez contida
em uma leve seda em tom narciso
-sua pele tão fina
à fímbria do sabor
quase polpa quase suco.

Quando usamos os dentes
abre-se
um espaço de água delicada
-sem resistência.

A fruta está exposta
aos maiores perigos e desmandos
mas os perigos passam
e os desmandos
mal a ferem
deixam ligeiros toques ou notícias
de insetos ou do ar.

A madurez,porém - desde o fundo -
espreita a forma tensa
e a extrema
e a adoça
- então as peras sabem
que estão a ponto de morrer.

A MELANCIA

Eu procurava sem saber ao certo
como seria repartir aquela extensa fruta.
Repartir a melancia - me disse -
e sacrificamos em talhadas
sua carnadura fresca.

Ficou aberta sobre a mesa mostrando o coração.
Da tarde? Da casa? Do silêncio?

Repartir a melancia - me disse -
é repartir uma sesta de verão
uma estação de vidraças vermelhas
e deserta
uma cova verde habitada pela sede.

A MAÇÃ

Pelas maçãs
- deliciosamente -
conheço o desejo
descubro a saúde
e essa larva de morte
que se leva em meio do esplendor.

Ser como a maçã
implica
todas as culpas
mas é proposta excitante.
A maçã é brilhante
e perigosa:
uma apenas
e se incendeia um horto.

Ser como a maçã
é estar - na alta festa do dia -
entre sedas vermelhas e diamantes
mas levando,no índice enluvado,
um anel de sombra.

UM BISSEXTO INÉDITO: GONZAGA DE MATOS  
O REI DA MÍDIA

1. Mausoléu.Inscrições

"Se um dia eu faltar..."

Digam no ar, escrevam no jornal:
embora fosse eterno era mortal.

De tudo o que se faz,um nada sobra.
E desse mínimo dá conta a história.

Do muito que se faz, pouco se cobra.
Mais que a promessa vale a promissória.

Do algo que se ganha e logo dobra,
meu dividendo é linha divisória.

Aplaudirão demais a mão-de-obra.
Mas creditem-me ao menos as manobras.


2. O cavalo e um cavaleiro

(Em louvor de Igor, alazão,
e Patrone, cavalariço.)

Não selvagem,não domado.
Mas armorial equestre.
Isto é,quase centauro:
de seu passo e salto o mestre,
mas raiz do cavaleiro.

Sob o peso da imperícia,
hipopótamo,hipogrifo
açoitado ante o obstáculo.
Peão no avesso espetáculo
esse cavalo marinho.


3. Discurso à irmandade

(Em off)

Companheiro,camarada,
(meu operário padrão):
no penhor desta igualdade
que é da humana condição,
passe o boi,passe a boiada
(passe o rei,o povo passa)
só não passe essa amizade
(que alimenta o cortezão).
(Não passe a cumplicidade
que sustenta o teu patrão.)


4. Estratégia

(Ex machina)

É preciso extrair do país nosso esplendor
É preciso estudar o país nas entrevistas
É preciso entender o país ns entrelinhas
É preciso entreter o país pelo estrelato
É preciso estocar o país nos intervalos
É preciso educar o país sem exagero
É preciso eleger no país sem extremismos
É preciso entregar o país ao estrangeiro.
É preciso explorar o país. Sem eufemismo.
(E é preciso esconder do país esse estribilho.)


5. Teoria da comunicação

"Ars gratia artis"

Se é mais linda a aquarela e a nota é triste,
jamais um dedo em riste na linguagem:
todos os números flutuem fáceis
no espaço lúdico da reportagem,
todas as cédulas das eleições.
O povo vota,a ave vôa e volta,
louve-se a lei em nossas redações.
Mostre-se a alma sensível sem revolta
em seu melhor encantamento e cor,
enquanto um pensamento pensa a dor.


6. Dez mandamentos

(Fundação)

Não falarás em meu nome
mas honrarás minha marca

Não sonharás com meu reino
mas somarás o meu lucro

Não gastarás meus haveres
mas cumprirás meus deveres

Não pedirás meus favores
nem lutarás contra mim

Só cantarás minha glória
Só amarás meu poder.


7. Abertura dos portos

(F.O.B.This side up)

mercadorias vão mercadorias
vêm são milhões de lares e lazeres
são mil milhões em cifras e afazeres

aeroportos internacionais
léguas de cais alfândegas fiscais

quanta sigla quanto procedimento
tantas guias tantos emolumentos
muitos dias muito aborrecimento

fica difícil mandar os sinais.
Dado o exposto libere-se do imposto.


8. Controle remoto

"Stand by"

Não se toca nas coisas,não se toca
nas pessoas.Dá-se consentimento.
Dá-se no rarefeito ar das trocas
ouro velho por cobre permanente.

Laboriosas estrelas cintilam
no etéreo firmamento da nação:
dá-se chancela,dá-se horário nobre.

As ordens,limpas,desfilam sem rastro.
Deixá-las ir por canais competentes.
Não é preciso exibi-las nos mastros.


9. Copirraite

(c)Todos os direitos reservados

Lei.Para todos os efeitos.
Lei.Para todas as receitas.

Toda suspeita confirmada
Todos os feitos publicados
Todos os textos assinados
Todos os peitos confessados
Todos os teipes copiados
Todos os teiques editados
Todos os jeitos arranjados
E todo sujeito implicado.


10. Mitolologia

"Teu é o reino"

Desdobrando o renome no fictício,
sob o fogo do céu o duro início.
Ramos dourados no alto jardim
a conquistar, raínha e torre e assim
a terra por haver,palavra a dar.
Entre os poderes do tempo ficar.
Mais,perdurar.Por ícones,por signos,
marcar a permanência dos desígnios.
Por concretas medidas da matéria
fazer império,luz sobre o mistério.


e-mail:higefe@uol.com.br