Alguma Poesia
Poemas da série CARTAS

NOTURNA

O instável firmamento
brilhava sobre nós,
perdidos em perguntas.

Tantas estrelas juntas
e nenhuma resposta
ou esclarecimento.

Numa língua estrangeira
talvez nos surpreendesse
a grande explicação.

No entanto aquela esteira
de luz,sem interesse,
corria na amplidão.

Talvez nos caiba a só
beleza do espetáculo,
o cativo fervor.

E nada saiba ou sobre
à palavra do oráculo,
senão propor o amor.

Talvez.Mas nunca é finda
a busca original
de um claro entendimento.

Pesava,pesa ainda
a falta de um sinal
do instável firmamento.


SENHOR:

Há muito tempo venho te escrevendo.
De meu primeiro endereço,
desde o começo eu te escrevi.
Desde os muitos casarios
- nas alturas,frente ao mar,
de minha terra solar
e de lugares sombrios -
de toda parte venho te escrevendo.

Mesmo sem dizer teu nome
ou se obscuro e cifrado
meu bilhete,meu recado,
sei que sabes que te escrevo.

Gravei palavras nas pedras,
nas ondas e no papel
te celebrando.
Sabias,desde onde e desde quando,
se é quase um livro de horas
o que eu ando te escrevendo.

Entre os tropeços da crença
levantei meu questionário
e a contrapelo é que escrevo
esse espesso breviário.

Quando sozinho protesto
ou me queixo,se confuso
em teu silêncio te acuso,
te acusava,a quem, senão a ti
eu escrevia?

Tamanhas caligrafias,
tamanhas inadagações,
já não sei se me perdi
na própria língua
ou se esqueci tua extensa geografia.

Com tanto infinito assunto,
como posso interromper
essa escritura?


Poemas do livro MEMÓRIA DA GUERRA


GUERREIROS

não vês as mesmas coisas
como eu as vejo
não tens as mesmas crenças
as mesmas lendas
as mesmas leis
não és o mesmo que eu

é outra a roupa que me veste
é outra a cor de minha pele

eu falo eu canto eu rezo
em outra língua

em outra língua
eu amo e choro e calo

a outro deus
eu devo a minha vida

por esse deus
te levo a morte


MÁQUINA DE GUERRA

Na versão mais recente
o peso bruto médio
chega a cento e catorze
quilos,com vinte e cinco
de instrumentos diversos
para a sobrevivência
em âmbito adverso
e doze de armamentos,
especificamente,
conforme o diagrama
na figura do anexo.
Tem noventa e seis horas
de autonomia líquida
sob extrema pressão
e uso pleno de tiro.
Oitenta e dois por cento
são reutilizáveis
numa contra-ofensiva
ou noutro desembarque.
Sendo à prova de choque,
em condições normais
de bom funcionamento,
pode alcançar os cem
anos,ambos os sexos.
E é biodegradável.


REPORTAGEM

Ponho as mãos na cabeça
Ponho a boca no mundo
mas não basta

Cubro o rosto com meu lenço
e não passa
Cubro a cara,tenho máscara
e não passa

Debaixo da carapaça
cresce a casca
Debaixo da carapuça,
do capuz,do filtro,
cresce o medo do que penso
cresce o medo que esmiuça
minhas crenças

De pé nsta fronteira do universo
eu testemunho
De pé nesta fronteira eu observo
o que se passa
Nesta trincheira eu sobrevivo
mas não basta
Cravo na terra minhas unhas
nessa terra que pode ser a minha
que pode ser a última
e não morro

Ponho a voz num telefone
Ponho o olho numa câmera
e grito esse pedido de socorro
que não ouço


O PRISIONEIRO

A Convenção de Genebra
me protege se não morro,
se não corro, se me entrego.

A Convenção de Genebra
me defende do perigo
no que digo e silencio.
A Convenção dita as regras.

A Convenção de Genebra
alivia minha fome
se falo claro meu nome,
declaro número,posto
e data de nascimento
que confira com meu rosto.
À Convenção nada nego.

A Convenção de Genebra
me garante se eu não fujo
durante esse jogo sujo.
A Convenção me dá trégua.

Mas se outra força me obriga
à sujeição inimiga,
mas se a impostura me abala
e falseia minha fala,
mas se outra dor me devora,
quem me chora?
Que tratado se celebra?
Que lei de paz ou de guerra,
que estatuto sobre a Terra,
se essa Convenção se quebra?


TERRA SANTA

A terra é grande,o tempo é longo.
E por aqui passaram raças,
passaram exércitos,reis.

A terra é funda,o tempo extenso.
E por aqui passaram templos,
passaram profetas,palavras.

A terra esconde,o tempo rói
os corpos,utensílios,nomes
que por aqui passaram ontem.

A terra é sacra,o tempo muda
a lei,a lenda,a eternidade
aqui sonhada e prometida.

A terra é uma,o tempo é duplo.
E por aqui estão passando
as formas díspares de tudo.

A terra é pouca,o tempo é neutro.
E por aqui estão passando
as formas céleres da morte.


DESCONSTRUÇÃO

Não foi como sabíamos.

Não como a flor se abre
e lentamente arde
em seu aroma e forma.

Ou como um filho cresce
e velozmente sobe
as escadas das horas,
as que nos envelhecem.

Não foi como sabíamos,
segundo as velhas normas,
isso que todos vimos:

a dupla flor despetalar-se solta
em vendaval de estrondos,negra estrela
que desmantela a duração e cai
sobre o seu centro,avessa cratera
a dupla flor que se desmancha e tomba
desde os altos espaços que se fecham;

o assombro,o escombro,as sombras
sem paradeiro ou tumba .

Não,não como sabíamos,
isso que agora ronda
a nossa morte anônima e comum.


Poema do livro OCUPAÇÃO DOS SENTIDOS

À SOMBRA DA IMPERFEIÇÃO

1.

À sombra da imperfeição
acontecemos.Na falta
que nenhum silêncio cala,
na pressa consumindo as horas.
Na fúria,maior que a ternura
e a calma que há no amor.
Na distração contínua de viver
sem saber,talvez sabendo,
que trabalhamos sem trégua
à sombra da imperfeição.

2.

O que vemos e o que não vemos.
Os crepúsculos na chuva,
o mar batendo na distância,
constelações que se rompem
no vasto espaço da noite.
Mas nada aí é tão concreto
quanto esta veia pulsando na sombra,
quanto este olho atento,
sob a pálpebra gravando
o que vê e o que não vê.

3.

Cada manhã recolhemos
cristais de neve,mosaicos
de lembranças e desejos.
Cada manhã esquecemos
os fulgores e os fantasmas noturnos.
Mas destas sombras esparsas vivemos.
De sonhos,nosso alimento secreto.

4.

Imerso no teu beijo
que não me salva da morte eu sonho,
imerso no teu corpo.
Vou abraçando penumbras,
lampejos de matéria,
obscuros cortejos
de lentas abstrações.
Mas aprendo que somos o que fomos,
entre parcelas de luz,
no vasto império das sombras.

5.

Porque o tempo é imperfeito
e gasta o amor,
gasta a beleza,
porque os deuses imperfeitos
não protegem nossos sóis,
vivemos pela metade,
cantando a meia voz,
ardendo na pequena chama
do amor humano,
seu atrevido esplendor.

6.

Eis a maneira mais simples
de entender o desenho de uma sombra:
seguir as formas que ela vai tomando
ao longo do dia,
enquanto o corpo,imóvel,não muda.
E eis outro modo de entendê-la,
um modo a contraluz do tempo:
quando sozinha se alonga
na duração conseguida,
até apagar-se ilimitada.

7.

Sob a tensão da ordem,
sob a incerta clareza das medidas
a surpresa do engano,
a obra inacabada.
Entre os erros do rei,
entre as falhas da lei,
no espelho turvo da realidade
explode a imagem da imperfeição.

8.

Gastar o dia pensando
a perfeição da utopia?
Gastar a noite sonhando
o paraíso perdido?
Ganhar o dia no esforço
de alcançar o possível.
Ganhar a noite na graça
de entender o presente.
Conquistar a luz do dia,
festejar as sombras da noite.

9.

Será talvez perfeita alguma rosa,
a pureza de um branco imaginário.
Perfeito o lápis que desenha o círculo.
Mas vivo a natureza do imperfeito;
o desigual dos traços de teu rosto,
a tortuosa linha das marés,
a ambiguidade da palavra deus.
Será talvez perfeita a eternidade.
Mas vivo é de contentamentos breves,
da beleza fugaz da imperfeição.

10.

À sombra deste poema
escuro,tão imperfeito,
quero dizer a você
que sofro menos,muito menos
do que pareço sofrer.
Que não há crença em minha aceitação,
que não há pena ou medo entre estas sombras.
À luz da memória eu vivo,
à luz do que vou vendo e vou dizendo,
à sombra da imperfeição.


Poemas do livro ÁGUAS EMENDADAS

COLINA EM FLORENÇA

Restos de nuvens,devagar,
atardeceram no ar do inverno,
esboçando um céu de cenário,
de capela.Horizontal,
o sol deitou sua luz difusa
sobre o vale,delineando
torres,cúpulas,campanários.
Foi quando o ouro das janelas
esplendeu nas molduras tintas,
espelhando o final do dia.

UM CASAL NO DUOMO,MILÃO

A mão tocava a pedra das colunas.
Na penumbra dos passos de borracha
as centelhas chegavam pela voz
sussurrando miúda,os braços dados.
A bengala tocava o chão,a voz
mostrava o alto e ele via o que ouvia:
todo o fulgor do incêndio dos vitrais,
as auréolas raiando nos altares,
as altivas ogivas dessa nave,
mais gloriosa em seu olhar opaco.

BOLONHA

Material cidade
vermelha,alto campus:
no barro universal
da arcada sucessiva
e das torres oblíquas,
na praça entrecortada
pelos ventos e as chamas
dos mártires,nas placas
dos heróis partisanos,
nos crepúsculos rubros
queimando ainda mais
o ocre das fachadas,
na perene elegância
dos frascos de Morandi.

MORANDI

As cores dentro e fora
dos frascos,matizadas
marcando e esbatendo
contornos e limites.
Os olhos dentro e fora
dos frascos,luz segunda,
impregnada de sombra.
O mesmo é desigual,
o semelhante é outro,
o fugaz permanece.
Porque a mão,dentro e fora
dos frascos,vai compondo
terceiras superfícies,
memória da memória.

SANDRO BOTTICELLI

Longos,louros cabelos
de entrançada coroa
e simultâneo véu.
Mansos,meditativos
olhos,o brilho interno
eternizando a sala:
o que é vivo se cala,
o que se move pára.
A primavera dança
para que nasça Vênus.


Poema do livro DECLARAÇÃO DE BENS

CIDADE ANTIGA

1.

Aqui havia um trilho
agudo em cada curva
e sapotis,cigarras.
Na madeira e no ar,
aqui havia um brilho.
Havia uma cidade
viva sob este asfalto,
viva sob esta fórmica.
Aqui havia um sonho
fiel à realidade.

2.

Quando era festa ouvi-la.
Quando as janelas viam
quintais,pregões,vazios
de mistérios nas vilas.
Quando telhados e alturas
conviviam - igrejas,
Ministério, Relógio.
Quando medir as coisas
não era em quantidades.
Quando era tudo antes.

3.

A cidade era enorme
entre morros e águas,
longa de ruas tortas
entre o portão e o mundo.
A cidade era aberta
aos quatro ventos,era
um cais de sete mares.
Marinha,livre,ampla
de nascença e destino
a cidade era minha.

4.

Imaginei não ter
raiz em terra alguma:
a escolha sobre o acaso
e no acaso a certeza.
Imaginei igual
a sempre o meu lugar:
caderno interrompido,
retrato na carteira.
Mentiras que preciso
amar de outra maneira.

5.

Olha: o mar que bate
em tua perna e sobe
pela alma é teu sangue,
é teu metro e teu jogo.
O mar que não te deixa
partir e te desenha
no mapa da cidade,
olha: como em brazão
inscreve tua história
num campo verdeazul.

6.

Aí pela montanha
acima dos terraços,
no silêncio filtrado
acima das antenas
e do medo geral,
alguma coisa aí,
maior que o município,
ficou à tua espera:
uma espécie de paz
sem acerto de contas.

7.

Talvez não volte mais,
definitivamente.
Talvez não morra aqui,
onde as vogais se estreitam
e os dentes sopram brisas.
Mas sei que não fui longe
demais do litoral
de pedra e sol,que marca
a fala e o pensamento
desta cidade antiga.


Estrofes do livro DISCURSO URBANO

1.

Olhado de uma nave espacial
eis o planeta como tela abstrata
ou escultura móvil a girar:
manchas de cor na passagem solar,
na espessa noite as luminosidades
das vidas agrupadas em galáxias.
Somos as manchas e luzes,teatros
de uma aventura sem roteiro claro,
de medo e fé,de sonhos e trabalhos,
que podem ser um grito ou ser um salmo.

2.

Nas planas mesopotâmias,nos vales,
nas encostas dos morros,dos planaltos.
Junto a montanhas,florestas e lagos.
E nas ilhas,nos longos litorais.
Qualquer lugar propõe-se ao homem,dá-lhe
à escolha a terra pouca e necessária.
Qualquer cidade vem para ficar,
para fincar-se ao solo em propriedade.
Qualquer cidade em cada canto e data
é chão do homem, módulo e morada.

8.

Em todos nós há um sonho de cidade.
É preciso encontrá-la e desvendá-la.
Construi-la,talvez,bem planejada.
Se Lúcio Costa a riscou para Oscar,
já cresce do projeto o seu sinal
e a cruz da ocupação enche o cerrado.
Assim Brasília e no verso Paságada.
O sonho que foi mito é realidade.
O sopro do poema é só metáfora.
Em que papel ou chão há mais verdade?

16.

As cidades estão nas catedrais.
Rouen,Colônia,Cantuária,Chartes.
Na devoção exposta nos vitrais,
por onde a luz que passa é pura graça
de outro sol,que atravessa uma rosácea
e traz a fé, o consolo das almas.
Essa pedra de oferta consagrada,
essa pedra que sobe em espirais,
leva a esperança do "amoroso salto":
a de chegar ao deus, Sua Cidade.

19.

De história ela se faz e em seu cenário
às nossas vidas trama personagens.
São telões e cortinas que se alçam
para uma sobrevida que nos salva
do esquecimento,do tédio,do pasmo.
Leia a Lisboa de Eça,a Buenos Aires
de Borges entre estantes e fantasmas,
a paulicéia desvairada em Mário.
De amor e verbo,de mentira e fato,
de prosa e verso faz-se uma cidade.

22.

Vê-las por dentro e por fora,totais
como a Toledo de El Greco,nublada
no azul,no verde o Tejo a circundá-la.
Ou a esparsa Ouro Preto de Guignard,
igrejas despertando na celagem.
E os bastidores de um balé no ensaio
e os bailes de verão em Renoir.
Vê-las assim,inteiras,em detalhes,
e trazê-las nos olhos como tais:
eternas pelas mãos que as fazem,sábias

27.

Nela,nada é menor.Tudo é central.
Ilha de rocha no aberto estuário,
altiva proa,sobe vertical
e se enraíza em túneis e se enlaça
em pontes. Mas manteve um Central Park
em pleno coração,a conservar
entre os espelhos de esculpido aço
os caminhos do bosque inicial.
Mutante às pressas vai deixando a salvo
nos museus o que foi e o que será.

34.

São seu avesso,são os quase bairros,
pardas cidades que não são,esquálidas
favelas da fala de Drummond,fala
universal de arquiteturas trágicas.
São dolorosas danças num cenário
à mostra mas oculto em suas armas.
Sob as linhas das letras musicais
há uma verdade maior,a das máscaras
noturnas e sem cor,que nunca saem
nas fantasias de seus carnavais.

44.

Morre o que é vivo,morrem as cidades.
Algumas de repente,nos abalos
e avalanches,causas naturais.
Morrem também de abandono e desgaste,
se as deixamos em fuga ou devagar,
devolvidas à terra onde decaem.
Assim Alcântara,Tykal,a maia,
Roma,Pompéia.Mas as soterradas
nas ruínas regressam,escavadas,
porque é de nossa estirpe o resgatar.

47.

Há nas cidades dos mortos arcaicos,
feitas na crença numa vida igual
além do túmulo,na divindade
que concede ao fugaz eternidade,
a beleza que mostra nossa face
ao deus e à natureza nossa arma:
pode o tempo cortar a fundo a carne.
Não corta a duração da identidade
dessa espécie,que a morte muda em arte
e a vida mesma em esplendor a mais.


Trechos do livro A Conversação

1.

Abra os ouvidos para mim,Senhor,
e silencie a minha pobre dor.
Mal sei qual o pronome que vos dou,
se Vós,se Tu,Você,nem como expor
em versos que me sirvam onde vou,
pois vou sozinho,sem nenhum andor
de procissão,se digo sem pudor
maior meus medos e dúvidas,ou
se perco minha voz sem ouvidor
nessa conversação entre nós dois.
Não sei bem no que creio,se no amor
à vida,a Ti,ao que tenho,ao que sou.
Muito me doi,sem interlocutor,
falar sozinho,sem qualquer retorno.
Abra os ouvidos para mim,Senhor.

3.

Cantada já por muitos essa máquina,
obscuro e clro enigma,essa mágica
a ti atribuída é tão fantástica,

deslumbra tanto o escaso entendimento
humano e é tamanho o desconcerto
dos sentidos,que apenas conhecemos

o que ouvimos e lemos pelos sábios
e adivinhos do mundo e vossos astros.
Nada,jamais,de vós,de vossos lábios.

Tentai uma vez mais, como possível,
mostrar a máquina do mundo a mim,
a nós.Dizei se ela gira sozinha,

se é vossa mão que a conduz e regula,
ou se uma vez montada dissimula
Vossa presença assim tornada nula.

8.

Eu Vos procuro ainda em catedrais,
onde talvez o louvor que esperais
soe mais alto e Vos agrade mais.
São para Vós esses vitrais,rosáceas,
todo o esplendor brilhantes dessas naves?
Nesses sonoros túneis os corais
serão anjos e serafins e almas
de Vossa criação a celebrar
não só o Vosso Nome? Nos altares
o Filho é Tua face e é Tua imagem
mediadora? Por ele a que chegar-se
a Teus ouvidos? Seremos demais
a falar,a pedir,a perguntar
por Ti? Se há tantos santos e milagres!
Deste universo és o Senhor ou a Máquina?

12.

Quase todos queremos distinguir
teu rosto ou gesto visto ou pressentido
em oração,em sonho. Na Sistina
apareces inteiro,dás destino
à humanidade,bênçãos e castigos.
Teu pintor te mostrou como o divino
fazedor,como o Ser que tudo diz,
tudo viu e ouviu,tudo quis e decidiu.
Assim te vejo,assim te ouço,assim
te esqueço.Mais,és muito mais que o visto.
Não te vejo carnal,nem te imagino
como os gregos te viam,dividido
imperador celeste em desatinos
humanos e terrestres,um ser vivo
como nós.Não. Não deves ser assim.

17.

E assim pensando leio meus poetas.
Meu San Juan de la Cruz,quando vela
na noche oscura para sua entrega
ao Cristo,o esposo amado à sua espera,
ardente alma que não teme as feras;
cruzando prados de verdores reza
e canta um poderoso canto alegre.
Adentro en la espesura canta e segue,
possuido pelo amor divino rege
bichos e flores porque dele é o céu,
dele a terra,o alimento,dele a cela,
porque do Amado é tudo e a ele pede
em seu místico transe,mesmo breve,
a epifania do querer que o leve,
pois alma esposa,às alturas do Excelso.

28.

Chego a Florença,à porta de Ghiberti,
bronze de entrada para o Paraíso
eterno,dos que se livram do Inferno.

Na barca vou guiado por Virgílio
e Dante enquanto a Divina Comédia
desperta meus ouvidos neste exílio.

Mudam os tempos e os modos da fé,
mudam os meios e as formas da lira,
mudam os medos e os sonhos da espécie.

Permanece a beleza sem mentira
dada a poucos,a verdade dos versos
de horror e morte,de amores e vidas.

Tal era a cena de teu universo
temido e dito pleo florentino,
teu poeta de nome Alighieri,

que assim cantando viu nosso destino.

33.

Nesta procura vi mesas movendo-se,
ouvi meus mortos queridos sem ter
presentes suas vozes e dizeres

que bem lembrasse,mas interpretados,
traduzidos e roucos,num teatro
em outra língua mas sem dicionário.

Li garranchos que as mãos de seus intérpretes
deixavam desgarrados no papel,
meus olhos fixos nos médiuns,perplexo.

Mas nunca os vi diáfanos fantasamas,
aparições noturnas. Só sonhados
como foram vivendo,em nossas casas.

Estão à minha espera? Estão comigo
sem que os veja? Em que lugar se abrigam?
Penso neles e sinto que acredito.

37.

Será resposta o ofício do poema?
A máquina do verso,mais que tema
do mistério do Verbo,que me queima,
dará resposta à minha longa pena?
A engenharia do que sinto e penso
constrói a escada,a escala do sistema?
Pergunto e me pergunto se o mais denso
verso,se o mais intenso pensamento
ao Alto me conduz,se é estratagema
ou vício ou exercício,tola teima,
usar palavras pouco lidas. Tento,
pois não confio noutra via ou senda
ao fim do labirinto e do problema.
Se a máquina do mundo é mais que lenda,
talvez eu possa abri-la num poema.

43.

Surgirás sem aviso, "deus ex machina",
tal como aparecias nos teatros
de antigamente para apresentar
saídas,soluções,o grand finale,
e merecer de todos um aplauso?

Em nossa curta vida,em poucos atos,
teremos de esperar que o espetáculo
terrestre quase acabe para olharmos
tua entrada no palco,triunfal,
para sabermos enfim o que há

quando as cortinas se fecham,caladas?
Se a peça continua num cenário
mais claro,se nos bastidores cabe
encontrar-te persona,já sem máscara,
deus diário e veraz e não a Máquina?

45.

Senhor, a hora é Vossa,Vossa a vez
nesse jogo de palavra e silêncio,
nesse sentarmos frente a frente à mesa
para conversa,confronto ou xadrez.
Ou lado a lado para a nossa Ceia.

Se chegararm a mim vossas mensagens
e as confundi em meio à algazarra
geral dos hinos,cantos,pastorais,
que haja silêncio para Vossa Fala.
Tornai bem claro o som de Vossa Máquina.

Posso esperar porque não temo a morte
antecipada e sinto não ser hora
ainda de despir-me de ir-me embora.
Preparo a mesa, o vinho,a luz mais forte.
Falai-me,porque a vez e a voz são Vosas.


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