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Poemas da série CARTAS NOTURNA O instável firmamento brilhava sobre nós, perdidos em perguntas. Tantas estrelas juntas e nenhuma resposta ou esclarecimento. Numa língua estrangeira talvez nos surpreendesse a grande explicação. No entanto aquela esteira de luz,sem interesse, corria na amplidão. Talvez nos caiba a só beleza do espetáculo, o cativo fervor. E nada saiba ou sobre à palavra do oráculo, senão propor o amor. Talvez.Mas nunca é finda a busca original de um claro entendimento. Pesava,pesa ainda a falta de um sinal do instável firmamento. SENHOR: Há muito tempo venho te escrevendo. De meu primeiro endereço, desde o começo eu te escrevi. Desde os muitos casarios - nas alturas,frente ao mar, de minha terra solar e de lugares sombrios - de toda parte venho te escrevendo. Mesmo sem dizer teu nome ou se obscuro e cifrado meu bilhete,meu recado, sei que sabes que te escrevo. Gravei palavras nas pedras, nas ondas e no papel te celebrando. Sabias,desde onde e desde quando, se é quase um livro de horas o que eu ando te escrevendo. Entre os tropeços da crença levantei meu questionário e a contrapelo é que escrevo esse espesso breviário. Quando sozinho protesto ou me queixo,se confuso em teu silêncio te acuso, te acusava,a quem, senão a ti eu escrevia? Tamanhas caligrafias, tamanhas inadagações, já não sei se me perdi na própria língua ou se esqueci tua extensa geografia. Com tanto infinito assunto, como posso interromper essa escritura? Poemas do livro MEMÓRIA DA GUERRA GUERREIROS não vês as mesmas coisas como eu as vejo não tens as mesmas crenças as mesmas lendas as mesmas leis não és o mesmo que eu é outra a roupa que me veste é outra a cor de minha pele eu falo eu canto eu rezo em outra língua em outra língua eu amo e choro e calo a outro deus eu devo a minha vida por esse deus te levo a morte MÁQUINA DE GUERRA Na versão mais recente o peso bruto médio chega a cento e catorze quilos,com vinte e cinco de instrumentos diversos para a sobrevivência em âmbito adverso e doze de armamentos, especificamente, conforme o diagrama na figura do anexo. Tem noventa e seis horas de autonomia líquida sob extrema pressão e uso pleno de tiro. Oitenta e dois por cento são reutilizáveis numa contra-ofensiva ou noutro desembarque. Sendo à prova de choque, em condições normais de bom funcionamento, pode alcançar os cem anos,ambos os sexos. E é biodegradável. REPORTAGEM Ponho as mãos na cabeça Ponho a boca no mundo mas não basta Cubro o rosto com meu lenço e não passa Cubro a cara,tenho máscara e não passa Debaixo da carapaça cresce a casca Debaixo da carapuça, do capuz,do filtro, cresce o medo do que penso cresce o medo que esmiuça minhas crenças De pé nsta fronteira do universo eu testemunho De pé nesta fronteira eu observo o que se passa Nesta trincheira eu sobrevivo mas não basta Cravo na terra minhas unhas nessa terra que pode ser a minha que pode ser a última e não morro Ponho a voz num telefone Ponho o olho numa câmera e grito esse pedido de socorro que não ouço O PRISIONEIRO A Convenção de Genebra me protege se não morro, se não corro, se me entrego. A Convenção de Genebra me defende do perigo no que digo e silencio. A Convenção dita as regras. A Convenção de Genebra alivia minha fome se falo claro meu nome, declaro número,posto e data de nascimento que confira com meu rosto. À Convenção nada nego. A Convenção de Genebra me garante se eu não fujo durante esse jogo sujo. A Convenção me dá trégua. Mas se outra força me obriga à sujeição inimiga, mas se a impostura me abala e falseia minha fala, mas se outra dor me devora, quem me chora? Que tratado se celebra? Que lei de paz ou de guerra, que estatuto sobre a Terra, se essa Convenção se quebra? TERRA SANTA A terra é grande,o tempo é longo. E por aqui passaram raças, passaram exércitos,reis. A terra é funda,o tempo extenso. E por aqui passaram templos, passaram profetas,palavras. A terra esconde,o tempo rói os corpos,utensílios,nomes que por aqui passaram ontem. A terra é sacra,o tempo muda a lei,a lenda,a eternidade aqui sonhada e prometida. A terra é uma,o tempo é duplo. E por aqui estão passando as formas díspares de tudo. A terra é pouca,o tempo é neutro. E por aqui estão passando as formas céleres da morte. DESCONSTRUÇÃO Não foi como sabíamos. Não como a flor se abre e lentamente arde em seu aroma e forma. Ou como um filho cresce e velozmente sobe as escadas das horas, as que nos envelhecem. Não foi como sabíamos, segundo as velhas normas, isso que todos vimos: a dupla flor despetalar-se solta em vendaval de estrondos,negra estrela que desmantela a duração e cai sobre o seu centro,avessa cratera a dupla flor que se desmancha e tomba desde os altos espaços que se fecham; o assombro,o escombro,as sombras sem paradeiro ou tumba . Não,não como sabíamos, isso que agora ronda a nossa morte anônima e comum. Poema do livro OCUPAÇÃO DOS SENTIDOS À SOMBRA DA IMPERFEIÇÃO 1. À sombra da imperfeição acontecemos.Na falta que nenhum silêncio cala, na pressa consumindo as horas. Na fúria,maior que a ternura e a calma que há no amor. Na distração contínua de viver sem saber,talvez sabendo, que trabalhamos sem trégua à sombra da imperfeição. 2. O que vemos e o que não vemos. Os crepúsculos na chuva, o mar batendo na distância, constelações que se rompem no vasto espaço da noite. Mas nada aí é tão concreto quanto esta veia pulsando na sombra, quanto este olho atento, sob a pálpebra gravando o que vê e o que não vê. 3. Cada manhã recolhemos cristais de neve,mosaicos de lembranças e desejos. Cada manhã esquecemos os fulgores e os fantasmas noturnos. Mas destas sombras esparsas vivemos. De sonhos,nosso alimento secreto. 4. Imerso no teu beijo que não me salva da morte eu sonho, imerso no teu corpo. Vou abraçando penumbras, lampejos de matéria, obscuros cortejos de lentas abstrações. Mas aprendo que somos o que fomos, entre parcelas de luz, no vasto império das sombras. 5. Porque o tempo é imperfeito e gasta o amor, gasta a beleza, porque os deuses imperfeitos não protegem nossos sóis, vivemos pela metade, cantando a meia voz, ardendo na pequena chama do amor humano, seu atrevido esplendor. 6. Eis a maneira mais simples de entender o desenho de uma sombra: seguir as formas que ela vai tomando ao longo do dia, enquanto o corpo,imóvel,não muda. E eis outro modo de entendê-la, um modo a contraluz do tempo: quando sozinha se alonga na duração conseguida, até apagar-se ilimitada. 7. Sob a tensão da ordem, sob a incerta clareza das medidas a surpresa do engano, a obra inacabada. Entre os erros do rei, entre as falhas da lei, no espelho turvo da realidade explode a imagem da imperfeição. 8. Gastar o dia pensando a perfeição da utopia? Gastar a noite sonhando o paraíso perdido? Ganhar o dia no esforço de alcançar o possível. Ganhar a noite na graça de entender o presente. Conquistar a luz do dia, festejar as sombras da noite. 9. Será talvez perfeita alguma rosa, a pureza de um branco imaginário. Perfeito o lápis que desenha o círculo. Mas vivo a natureza do imperfeito; o desigual dos traços de teu rosto, a tortuosa linha das marés, a ambiguidade da palavra deus. Será talvez perfeita a eternidade. Mas vivo é de contentamentos breves, da beleza fugaz da imperfeição. 10. À sombra deste poema escuro,tão imperfeito, quero dizer a você que sofro menos,muito menos do que pareço sofrer. Que não há crença em minha aceitação, que não há pena ou medo entre estas sombras. À luz da memória eu vivo, à luz do que vou vendo e vou dizendo, à sombra da imperfeição. Poemas do livro ÁGUAS EMENDADAS COLINA EM FLORENÇA Restos de nuvens,devagar, atardeceram no ar do inverno, esboçando um céu de cenário, de capela.Horizontal, o sol deitou sua luz difusa sobre o vale,delineando torres,cúpulas,campanários. Foi quando o ouro das janelas esplendeu nas molduras tintas, espelhando o final do dia. UM CASAL NO DUOMO,MILÃO A mão tocava a pedra das colunas. Na penumbra dos passos de borracha as centelhas chegavam pela voz sussurrando miúda,os braços dados. A bengala tocava o chão,a voz mostrava o alto e ele via o que ouvia: todo o fulgor do incêndio dos vitrais, as auréolas raiando nos altares, as altivas ogivas dessa nave, mais gloriosa em seu olhar opaco. BOLONHA Material cidade vermelha,alto campus: no barro universal da arcada sucessiva e das torres oblíquas, na praça entrecortada pelos ventos e as chamas dos mártires,nas placas dos heróis partisanos, nos crepúsculos rubros queimando ainda mais o ocre das fachadas, na perene elegância dos frascos de Morandi. MORANDI As cores dentro e fora dos frascos,matizadas marcando e esbatendo contornos e limites. Os olhos dentro e fora dos frascos,luz segunda, impregnada de sombra. O mesmo é desigual, o semelhante é outro, o fugaz permanece. Porque a mão,dentro e fora dos frascos,vai compondo terceiras superfícies, memória da memória. SANDRO BOTTICELLI Longos,louros cabelos de entrançada coroa e simultâneo véu. Mansos,meditativos olhos,o brilho interno eternizando a sala: o que é vivo se cala, o que se move pára. A primavera dança para que nasça Vênus. Poema do livro DECLARAÇÃO DE BENS CIDADE ANTIGA 1. Aqui havia um trilho agudo em cada curva e sapotis,cigarras. Na madeira e no ar, aqui havia um brilho. Havia uma cidade viva sob este asfalto, viva sob esta fórmica. Aqui havia um sonho fiel à realidade. 2. Quando era festa ouvi-la. Quando as janelas viam quintais,pregões,vazios de mistérios nas vilas. Quando telhados e alturas conviviam - igrejas, Ministério, Relógio. Quando medir as coisas não era em quantidades. Quando era tudo antes. 3. A cidade era enorme entre morros e águas, longa de ruas tortas entre o portão e o mundo. A cidade era aberta aos quatro ventos,era um cais de sete mares. Marinha,livre,ampla de nascença e destino a cidade era minha. 4. Imaginei não ter raiz em terra alguma: a escolha sobre o acaso e no acaso a certeza. Imaginei igual a sempre o meu lugar: caderno interrompido, retrato na carteira. Mentiras que preciso amar de outra maneira. 5. Olha: o mar que bate em tua perna e sobe pela alma é teu sangue, é teu metro e teu jogo. O mar que não te deixa partir e te desenha no mapa da cidade, olha: como em brazão inscreve tua história num campo verdeazul. 6. Aí pela montanha acima dos terraços, no silêncio filtrado acima das antenas e do medo geral, alguma coisa aí, maior que o município, ficou à tua espera: uma espécie de paz sem acerto de contas. 7. Talvez não volte mais, definitivamente. Talvez não morra aqui, onde as vogais se estreitam e os dentes sopram brisas. Mas sei que não fui longe demais do litoral de pedra e sol,que marca a fala e o pensamento desta cidade antiga. Estrofes do livro DISCURSO URBANO 1. Olhado de uma nave espacial eis o planeta como tela abstrata ou escultura móvil a girar: manchas de cor na passagem solar, na espessa noite as luminosidades das vidas agrupadas em galáxias. Somos as manchas e luzes,teatros de uma aventura sem roteiro claro, de medo e fé,de sonhos e trabalhos, que podem ser um grito ou ser um salmo. 2. Nas planas mesopotâmias,nos vales, nas encostas dos morros,dos planaltos. Junto a montanhas,florestas e lagos. E nas ilhas,nos longos litorais. Qualquer lugar propõe-se ao homem,dá-lhe à escolha a terra pouca e necessária. Qualquer cidade vem para ficar, para fincar-se ao solo em propriedade. Qualquer cidade em cada canto e data é chão do homem, módulo e morada. 8. Em todos nós há um sonho de cidade. É preciso encontrá-la e desvendá-la. Construi-la,talvez,bem planejada. Se Lúcio Costa a riscou para Oscar, já cresce do projeto o seu sinal e a cruz da ocupação enche o cerrado. Assim Brasília e no verso Paságada. O sonho que foi mito é realidade. O sopro do poema é só metáfora. Em que papel ou chão há mais verdade? 16. As cidades estão nas catedrais. Rouen,Colônia,Cantuária,Chartes. Na devoção exposta nos vitrais, por onde a luz que passa é pura graça de outro sol,que atravessa uma rosácea e traz a fé, o consolo das almas. Essa pedra de oferta consagrada, essa pedra que sobe em espirais, leva a esperança do "amoroso salto": a de chegar ao deus, Sua Cidade. 19. De história ela se faz e em seu cenário às nossas vidas trama personagens. São telões e cortinas que se alçam para uma sobrevida que nos salva do esquecimento,do tédio,do pasmo. Leia a Lisboa de Eça,a Buenos Aires de Borges entre estantes e fantasmas, a paulicéia desvairada em Mário. De amor e verbo,de mentira e fato, de prosa e verso faz-se uma cidade. 22. Vê-las por dentro e por fora,totais como a Toledo de El Greco,nublada no azul,no verde o Tejo a circundá-la. Ou a esparsa Ouro Preto de Guignard, igrejas despertando na celagem. E os bastidores de um balé no ensaio e os bailes de verão em Renoir. Vê-las assim,inteiras,em detalhes, e trazê-las nos olhos como tais: eternas pelas mãos que as fazem,sábias 27. Nela,nada é menor.Tudo é central. Ilha de rocha no aberto estuário, altiva proa,sobe vertical e se enraíza em túneis e se enlaça em pontes. Mas manteve um Central Park em pleno coração,a conservar entre os espelhos de esculpido aço os caminhos do bosque inicial. Mutante às pressas vai deixando a salvo nos museus o que foi e o que será. 34. São seu avesso,são os quase bairros, pardas cidades que não são,esquálidas favelas da fala de Drummond,fala universal de arquiteturas trágicas. São dolorosas danças num cenário à mostra mas oculto em suas armas. Sob as linhas das letras musicais há uma verdade maior,a das máscaras noturnas e sem cor,que nunca saem nas fantasias de seus carnavais. 44. Morre o que é vivo,morrem as cidades. Algumas de repente,nos abalos e avalanches,causas naturais. Morrem também de abandono e desgaste, se as deixamos em fuga ou devagar, devolvidas à terra onde decaem. Assim Alcântara,Tykal,a maia, Roma,Pompéia.Mas as soterradas nas ruínas regressam,escavadas, porque é de nossa estirpe o resgatar. 47. Há nas cidades dos mortos arcaicos, feitas na crença numa vida igual além do túmulo,na divindade que concede ao fugaz eternidade, a beleza que mostra nossa face ao deus e à natureza nossa arma: pode o tempo cortar a fundo a carne. Não corta a duração da identidade dessa espécie,que a morte muda em arte e a vida mesma em esplendor a mais. Trechos do livro A Conversação 1. Abra os ouvidos para mim,Senhor, e silencie a minha pobre dor. Mal sei qual o pronome que vos dou, se Vós,se Tu,Você,nem como expor em versos que me sirvam onde vou, pois vou sozinho,sem nenhum andor de procissão,se digo sem pudor maior meus medos e dúvidas,ou se perco minha voz sem ouvidor nessa conversação entre nós dois. Não sei bem no que creio,se no amor à vida,a Ti,ao que tenho,ao que sou. Muito me doi,sem interlocutor, falar sozinho,sem qualquer retorno. Abra os ouvidos para mim,Senhor. 3. Cantada já por muitos essa máquina, obscuro e clro enigma,essa mágica a ti atribuída é tão fantástica, deslumbra tanto o escaso entendimento humano e é tamanho o desconcerto dos sentidos,que apenas conhecemos o que ouvimos e lemos pelos sábios e adivinhos do mundo e vossos astros. Nada,jamais,de vós,de vossos lábios. Tentai uma vez mais, como possível, mostrar a máquina do mundo a mim, a nós.Dizei se ela gira sozinha, se é vossa mão que a conduz e regula, ou se uma vez montada dissimula Vossa presença assim tornada nula. 8. Eu Vos procuro ainda em catedrais, onde talvez o louvor que esperais soe mais alto e Vos agrade mais. São para Vós esses vitrais,rosáceas, todo o esplendor brilhantes dessas naves? Nesses sonoros túneis os corais serão anjos e serafins e almas de Vossa criação a celebrar não só o Vosso Nome? Nos altares o Filho é Tua face e é Tua imagem mediadora? Por ele a que chegar-se a Teus ouvidos? Seremos demais a falar,a pedir,a perguntar por Ti? Se há tantos santos e milagres! Deste universo és o Senhor ou a Máquina? 12. Quase todos queremos distinguir teu rosto ou gesto visto ou pressentido em oração,em sonho. Na Sistina apareces inteiro,dás destino à humanidade,bênçãos e castigos. Teu pintor te mostrou como o divino fazedor,como o Ser que tudo diz, tudo viu e ouviu,tudo quis e decidiu. Assim te vejo,assim te ouço,assim te esqueço.Mais,és muito mais que o visto. Não te vejo carnal,nem te imagino como os gregos te viam,dividido imperador celeste em desatinos humanos e terrestres,um ser vivo como nós.Não. Não deves ser assim. 17. E assim pensando leio meus poetas. Meu San Juan de la Cruz,quando vela na noche oscura para sua entrega ao Cristo,o esposo amado à sua espera, ardente alma que não teme as feras; cruzando prados de verdores reza e canta um poderoso canto alegre. Adentro en la espesura canta e segue, possuido pelo amor divino rege bichos e flores porque dele é o céu, dele a terra,o alimento,dele a cela, porque do Amado é tudo e a ele pede em seu místico transe,mesmo breve, a epifania do querer que o leve, pois alma esposa,às alturas do Excelso. 28. Chego a Florença,à porta de Ghiberti, bronze de entrada para o Paraíso eterno,dos que se livram do Inferno. Na barca vou guiado por Virgílio e Dante enquanto a Divina Comédia desperta meus ouvidos neste exílio. Mudam os tempos e os modos da fé, mudam os meios e as formas da lira, mudam os medos e os sonhos da espécie. Permanece a beleza sem mentira dada a poucos,a verdade dos versos de horror e morte,de amores e vidas. Tal era a cena de teu universo temido e dito pleo florentino, teu poeta de nome Alighieri, que assim cantando viu nosso destino. 33. Nesta procura vi mesas movendo-se, ouvi meus mortos queridos sem ter presentes suas vozes e dizeres que bem lembrasse,mas interpretados, traduzidos e roucos,num teatro em outra língua mas sem dicionário. Li garranchos que as mãos de seus intérpretes deixavam desgarrados no papel, meus olhos fixos nos médiuns,perplexo. Mas nunca os vi diáfanos fantasamas, aparições noturnas. Só sonhados como foram vivendo,em nossas casas. Estão à minha espera? Estão comigo sem que os veja? Em que lugar se abrigam? Penso neles e sinto que acredito. 37. Será resposta o ofício do poema? A máquina do verso,mais que tema do mistério do Verbo,que me queima, dará resposta à minha longa pena? A engenharia do que sinto e penso constrói a escada,a escala do sistema? Pergunto e me pergunto se o mais denso verso,se o mais intenso pensamento ao Alto me conduz,se é estratagema ou vício ou exercício,tola teima, usar palavras pouco lidas. Tento, pois não confio noutra via ou senda ao fim do labirinto e do problema. Se a máquina do mundo é mais que lenda, talvez eu possa abri-la num poema. 43. Surgirás sem aviso, "deus ex machina", tal como aparecias nos teatros de antigamente para apresentar saídas,soluções,o grand finale, e merecer de todos um aplauso? Em nossa curta vida,em poucos atos, teremos de esperar que o espetáculo terrestre quase acabe para olharmos tua entrada no palco,triunfal, para sabermos enfim o que há quando as cortinas se fecham,caladas? Se a peça continua num cenário mais claro,se nos bastidores cabe encontrar-te persona,já sem máscara, deus diário e veraz e não a Máquina? 45. Senhor, a hora é Vossa,Vossa a vez nesse jogo de palavra e silêncio, nesse sentarmos frente a frente à mesa para conversa,confronto ou xadrez. Ou lado a lado para a nossa Ceia. Se chegararm a mim vossas mensagens e as confundi em meio à algazarra geral dos hinos,cantos,pastorais, que haja silêncio para Vossa Fala. Tornai bem claro o som de Vossa Máquina. Posso esperar porque não temo a morte antecipada e sinto não ser hora ainda de despir-me de ir-me embora. Preparo a mesa, o vinho,a luz mais forte. Falai-me,porque a vez e a voz são Vosas. |
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