Aos 94 anos, escritora Tatiana Belinky morre em São Paulo / Letícia Martins

Morreu na tarde do dia 15 de junho de 2013, aos 94 anos, a escritora Tatiana Belinky. Uma das principais autoras de livros infantojuvenis do Brasil, ela estava internada desde o dia 4 de junho no hospital Alvorada, em São Paulo.

Tenho as minhas próprias lembranças (recentes) de Tatiana Belinky. Tive a honra de entrevistá-la uma vez para a revista Família Cristã. A escritora me recebeu na sala de sua casa, depois de termos agendado a entrevista por telefone: “Alô! Gostaria de falar com a escritora Tatiana Belinky”. Do outro lado da linha, uma voz – que nem de longe parecia ser de uma jovem de 92 anos –, respondeu. “Aqui é a Tati, pode falar”. Por aí já deu para sentir como seria a conversa: sem formalismo, algo como um bate-papo. Ela morava no bairro do Pacaembu, em São Paulo, e sua sala era também o seu escritório. Nada convencional, é verdade. Havia folhas de almaço (um luxo!) nas quais ela ainda escrevia à mão as histórias que entrariam para a posteridade. Também viviam naquele espaço várias versões da boneca que ela adorava, a Emília, de Monteiro Lobato.

Bendito ponto da gramática / Letícia Martins

A teimosia era tanta que não lhe deixou perceber que repetia a mesma explicação pela décima vez, para não dizer milésima, que é uma hipérbole de exagero. Aliás, hipérbole só poderia ser de exagero, logo cometi uma redundância. Mas o que importa é dizer que sua vida era marcada assim por teimosia e exageros. Culpa da gramática! Da pura gramática, aprendida há tanto tempo pela piedosa professora. Era apaixonada pela Língua Portuguesa, com quem havia se casado há mais de quarenta anos, e ainda era capaz de admirar-se quando pegava um daqueles textos ricos em figuras de linguagem das mais variadas, sem ficar na mesmice da metáfora, do lugar-comum.
Essa obsessão, no entanto, prejudicava-lhe a imagem. Seus alunos se irritavam facilmente com ela, porque não conseguiam agradá-la nas redações e raramente acertavam a conjugação de um verbo. Que dirá da colocação exata de um ponto de exclamação?! Era o fim do mundo, uma pouca vergonha mal assinalada.

Do dedão do pé à mente: reflexões sobre a arte de escrever / Letícia Martins

Pano pra Manga

O que mais amo nesta vida é escrever. Gosto tanto que às vezes sonho que estou me alimentando desta arte. Não que eu vá sair por aí comendo papel ou almoçando sopas de letrinhas, mas alimento a esperança de que eu possa ser reconhecida, valorizada e recompensada por juntar palavras de forma a passar algum sentido a alguém.

Já escrevi sobre muita coisa nesta vida. Até sobre a dor que sente o dedão do pé ao topar com uma pedra. Triste encontro. Sem dúvida, é uma dor que não se pode desprezar. E por isso, fiz justiça a ela escrevendo sobre o infortúnio de encontrar desavisadamente um obstáculo diante de si e não ter tempo para reagir. Azarado o pé, “trupica”, se estrepa, se estropia. O dono, claro, uirra de dor. Por culpa dele, do tão ignorado e, nesta hora, tão desatento, dedão do pé.

Resenha do livro 1822: a real história brasileira / Letícia Martins

Poucos escritores conseguem prender tanto a nossa atenção com histórias verídicas e relato histórico. Laurentino Gomes, autor de 1822 e 1808, nos brinda com uma história fascinante e engraçada, pasmem, do nosso Brasil.

Escrever sobre o utópico, contar causos imaginários e inventar crônicas que passam mensagens e lições no final é tarefa para um grupo seleto de artistas. Sim, artistas pois quem usa as palavras para encantar, criticar e fazer refletir é tão artista quanto quem usa a tinta para passar uma mensagem; quem faz gol para levar fãs ao delírio; e quanto quem manipula flores, plantas e drogas para perfumar, aliviar a dor ou curar.

É o que faz Laurentino Gomes, autor de um livro que dispensa apresentações, visto que já foi aclamado pela crítica e selecionado com o Melhor Livro do Ano Não-Ficção, segundo a Câmara Brasileira do Livro (CBL) que promove o Prêmio Jabuti de Literatura. Clique aqui para ler mais sobre a premiação.

Agora eu sei, mas não queria / Letícia Martins

Como Vinícius de Moraes e Marina Colasanti já diziam…

Eu era bem nova quando li, pela primeira vez, o texto de Marina Colasanti cujo título que provocou essa crônica: Eu sei, mas não devia. Até parece um bordão dos tempos atuais. A gente sabe tanta coisa que não deveria fazer e faz. Faz porque vai deixando a vida acontecer, e se consumindo na poeira rotineira do trabalho e das coisas não prazerosas. Quando li a primeira vez esse texto de Marina, nos idos de 1998, eu tinha pouca idade para acreditar no que a autora – até então desconhecida para mim – já afirmava que a gente acabaria por fazer. Pouca idade para acreditar e até para entender.

Na época, ter 14 anos era viver à volta com os problemas da adolescência (ser ou não ser) tão diferentes dos jovens de hoje que estão nessa faixa etária. Vê-se por aí, já não são mais adolescentes, são jovens e posso apostar um ano de minhas memórias que muitos deles já se acostumaram com parte das coisas que Marina cita em seu texto.

Gestação de um texto / Letícia Martins

À noite, quando a maioria das pessoas se recolhe em seus lares, meus pensamentos saem para passear. Vagueiam sozinhos, procurando pousada. Querem além do que o meu santuário individual consegue oferecer. Querem ser percebidos. Querem se aventurar. Por isso, fecho os olhos e tento sonhar. É minha carta de alforria para eles.

Tal qual com uma criança, o escritor precisa ter muita paciência com sua obra. Seu texto. Ambos – escritor e texto – são intimamente ligados, como são ligados a mãe e o filho, que antes ainda estivera na condição de feto. Existe, tanto naquela quanto nesta relação, um processo de gestação.

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