Vinicius de Moraes, Centenário de Um Poeta Boêmio / Silas Correa Leite

Cem anos estaria fazendo Marcos Vinícius de Melo Moraes nesse ano da graça de 2013, em 19 de outubro. Entre os dez melhores poetas brasileiros de todos os tempos, de Castro Alves a Manuel Bandeira, de Jorge de Lima a Carlos Drummond de Andrade, passando por João Cabral de Mello Neto até Manuel de Barros e mais recentemente Carlos Nejar, certamente Vinicius de Moraes está entre eles com méritos, com louvor.

A Poesia Pau-Brasilia de Nicolas Behr

“... Somente quem tem o caos dentro de si, pode dar à luz uma estrela bailarina”

                                                          (Nietzsche)

-Quando li no Jornal o Estado de São Paulo que o poeta-artista-construtivista Nicolas Behr foi confirmado como presença oficial na Feira de Literatura de Frankfurt, Alemanha, entre dezenas de nomes da chamada literatura brasileira de ato nível, ele mesmo como um dos melhores literatos brasileiros contemporâneos, fiquei feliz e me senti muito bem representado, porque conheço esse poeta de Brasília e acompanho seu trabalho por décadas. Para o estilo e modus operandi dele, literalmente do caos nasce a lux. Lembrei-me de um belo verso-apresentação-identidade dele:

ninguém me ama

ninguém me quer

ninguém me chama nicolas behr

Scortecci, Eis a Obra: a Editora Que Pode Dizer o Nome / Silas Correa Leite

Para os 30 Anos do Grupo Empresarial Scortecci
12 de Julho de 2012 12:24

Eu sempre escrevi muito. Desde minha pitoresca Estância Boêmia de Santa Itararé das Artes, Cidade Poema, quando, em 1968, com 16 anos de idade, já publicava artigos, croniquetas, humor e textos sobre Jimmy Hendrix e outros trabalhos, num suplemento jovem que o semanário jornal O Guarani trazia encartado. Quando, “sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes, vindo do interior” (como na balada do Belchior), migrei para São Paulo em 1970, com apenas a quarta série do curso primário, já tinha centenas de cadernos de rascunhos poéticos (hoje passam de mil e foram destaque no Programa Metrópolis da TV Cultura e também estiveram expostos no Centenário de Itararé), e, a minha lenda pessoal, o meu sonho impossível, era ver esses meus trabalhos publicados. Sonhar podia. Quando se é jovem, tudo é ilusão. Ah a tão sonhada estrada de tijolos amarelos...
Em Sampa, da força da grana que ergue e destrói coisas belas – Caetanear, por que não? – morei em cortiço, em pensões, dormi na rua, passei fome, voltei a estudar, sempre escrevendo as sofrências da sobrevivência possível, e, claro, as saudades de Itararé, como uma Pasárgada, uma Shangri-lá, uma Terra do Nunca. Em cursos, movimentos, trabalhos, todos sabiam desse meu, ponhamos, defeito de estar anotando sempre, cantando Itararé em verso e prosa, escrevendo mundos e fundos, ícaros e ácaros. Barulhezas e prazeiranças. Eu ainda era um rapaz que amava os Beatles e Tonico e Tinoco...

Pequena Resenha Crítica - “Per Augusto e Machina” Editora Altana Livro da Radiante Poética Aurífera de Romério Rômulo

Volta e meia recebo de preciosos e interessantes amigos virtuais - alguns que circunstancialmente as vezes se tornam grande amigos também presenciais - e, na medida do possível, gostando muito até, faço pequenas resenhas, que se pretendem criticas literárias, o que ocorre com  certa freqüência, porque, bem lembrando Walt Whitman, “quem toca um livro/toca um homem”; e porque também a safra da poesia brasileira, variada que seja, é verdade, no geral é mesmo de boa qualidade, principalmente com seus criadores quarentões, cinquentões, todos com mais de um livro, já rodados portanto, assim experimentados e livres, puros.

Pequena Resenha Crítica: Livro “Artesã de Ilusórios” - Um Tremendo Bordado Literário de Letícia Palmeira / Silas Correa Leite

A compreensão não é um saber abstrato.

É um saber em ação.

Paulo de Camargo

Mas, afinal de contas, o que é mesmo que Letícia Palmeira escreve? Como classificar sua primeira obra, a estréia em alto estilo, de salto alto? Conto, crônica, ficção, prosa em verso, prosa poética, derramas subjetivos, criações letrais, pirações, qual a classificação narrativa do exuberante livro “Artesã de Ilusórios”, Editora Universitária, UFPB, 2009? Essa é a questão. Você começa a ler e, baba baby, fica encantado; acha que está entrando num conto, depois periga ver é ensaio, quando não começa meio croniqueta e vira conto, ou vice versa, para não dizer que não falou de flores, ela entra e sai toda prosa de narrativas mirabolantes que seduzem, cativam, tornam o livro um mosaico de tudo o que ela purga, fermenta, depura; olhar de artista descrevendo a vida, com paradoxos, entraves, janelas abertas de sua alma em jorro letral. Já pensou? Artesã de Ilusórios, é, talvez, mas só talvez, uma heroína insatisfeita buscando-se a si mesma, auditando valores existenciais, momentos, transgressões, tentando a autenticidade num mundo perdido, degradado...

Pequena Resenha Crítica: Romance “UM”, de Geraldo Lima – O Discurso Amoroso da Dialética Consciencial / Silas Correa Leite

“Estou farto de muita coisa (...). Eu quero a destruição de tudo o que é frágil”

Roberto Piva

O que pode o ser humano, senão, entre seres humanos, AMAR? Parafraseando o poeta, é isso o que se dá, naquilo que Cazuza chama de sua metralhadora cheia de lágrimas, em Um, o romance de Geraldo Lima, LGE Editora, uma dialética do discurso amoroso em que permeia a consciência, o paradoxo, o ser humano (no caso, sensível), entre seres humanos, AMANDO. E com tudo isso, claro, a narrativa que vai e volta, choca e instiga, se esconde, aparenta, cita, permeia, desce e sobe, sempre sob o pântano da condição humana nas relações humanas.

Pequena Resenha Crítica: Belíssimo Livro de Historias “Olhos D´Agua”, de Sanxer Lacerda / Silas Correa Leite

A vida não é o que a gente viveu / Mas sim o que a gente recorda / E como recorda, para contá-la

(Gabriel Garcia Marques)

- As histórias todas de nossa vida, os encantados campos de nossas infâncias distantes, os lares de fogões de lenha e quintais alumbrados, as cidades, vilas e periferias dos sertões, tudo que com sensibilidade temos que literalmente viver para contar, assim como plantar uma árvore, gerar um filho e escrever um livro é sempre o dever sagrado de todo ser que está em travessia nesse mundo de meu Deus. Pois Sanxer de Lacerda acertou no livro de fio a pavio. Escrevemos para celebrar as vivências. E Gonzaguinha já cantava:

“Há um menino/Há um moleque/Morando sempre no meu coração/Toda vez que o adulto fraqueja/Ele vem para me dar a mão”.

- Pois o livro “Olhos D´Água é gostoso de ler, entrete feito remanso, salpicando de estrelas e memoriais o nosso peito. Causos, histórias, croniquetas, acontecências de um tempo que não se perdeu nas paredes da memória, e que Sanxer de Lacerda muito bem recuperou, dando testemunho de si, continuando o pai, a contar seus causos com beleza de detalhes tão ricos. A vida que se foi ainda no letral reflorindo em palavras, amor e humor. Doces Memórias.

Pequena Resenha Crítica: "ESTAMOS TODOS BEM, Provocante Romance Ainda Inédito e já Polêmico de Vera Helena Rossi" / Silas Correa Leite

Todas as vidas dentro de mim / Na minha Vida / A vida mera das obscuras...”

Cora Coralina, Todas as Vidas

Nunca tinha recebido um livro para ser resenhado que ainda fosse inédito, quero dizer, xerocopiado, formatado, encadernado, não necessariamente nessa ordem, quero dizer, não editado ainda... O inédito Romance ESTAMOS TODOS BEM, 115 páginas, de Vera Helena Rossi, site Palimpsesto – http://verahelena.blogspot.com/  eu soube por intermédio do site Cronópios no qual colaboro regularmente, tendo  sabido a autora elogiada em espanhol por Pedro Amorosos Juan no site http://pedrosoamoros.blospto.com  e que da obra, num enunciado inicial, no link da obra diz: 

“Una mujer toma café en la cocina mientras siente “na boca do estômago a bílis ácida da separaçâo”. Piensa en la despedida de su marido y le vienen a la memoria el Réquiem de Mozart y la Novena Sinfonía de Beethoven. Así se inicia Estamos todos bem, la sugerente y, en ocasiones, desconcertante - por la variedad de registros que manej a- novela de la escritora brasileña Vera Helena Rossi. Estamos todos bem cuenta el proceso de degradación mental de una aspirante a escritora, los diferentes caminos – el azar, las circunstancias adversas - que la conducen a la locura (no es casualidad que la palabra “louca” se repita con frecuencia en la parte final del relato). La protagonista – inolvidable por otra parte- de la historia es Clara Pereira, una joven escritora de 33 años (una cifra mágica y simbólica que tiene resonancias religiosas tal como se pone en evidencia en el tramo final de la narración, cuando el proceso de degeneración mental de Clara resulta imparable) que, abandonada por su marido, lleva una patética vida. Solitaria, soñadora, obsesionada por la belleza de las palabras y de las cosas, Clara es una romántica que adora la filosofía y escribe en sus ratos libres un Livro de Anotaçôes Inúteis, una especie de diario sobre la soledad y la infelicidad - trasunto emocional de la situación que vive la protagonista y cuyo personaje principal es la homérica Penélope -, en el que se entremezclan curiosas definiciones lingüísticas en una suerte de “diccionario fragmentado”.

Pequena Resenha Crítica: “Ideias Noturnas - Sobre a Grandeza dos Dias”, Livro de Contos de Eduardo Sabino / Silas Correa Leite

“O dia-a-dia não precisa ser extraordinário para
ser interessante. O cotidiano é riquíssimo de assuntos
e acontecências de toda espécie – fora e dentro da gente.
É só ficar com as antenas ligadas – as antenas da
curiosidade dos sentidos e dos sentimentos, de
senso critico, de senso poético, sem
esquecer do importantíssimo e
indispensável senso de humor”

Tatiana Belinsky

Você não consegue ler o livro de Contos “Idéias Noturnas” (Editora Novo Século, SP, 2009, 120 páginas, Série Novos Talentos da Literatura Brasileira) de uma só levada, a um só termo. Você é inesperadamente surpreendido na pegada de lê-lo e saber que tem que respirar a leitura, de alguma forma por si mesmo e de per-si, pontuando-a. Parar. Stop. Voltar a tomar pé e pulso no verbo ler. Reler. Porque cada vez que sondando antevê, “pensa” que é, que sonda o arremedo narrativo do devir, o tema e o andamento, mas tudo o que sentia parecer na verdade não é. Contos incomuns, algo (raros) estranhos, por assim dizer como elogio. Tiram você da lerdeza do ler puro e simples para uma sentição do que lê e admira. Grandeza dos Dias? Dos escritos também.

Os contos de Eduardo Sabino são claramente (literalmente)  diferenciados. Escreve com uma boniteza que reveste a surpresa da contação em agradável prazer de leitura. Já ganhador de Concurso, participante de antologias, colaborando com veículos de comunicação, inclusive sites, é também editor da revista eletrônica “Caosletras.blogspot.com”. Nasceu em 1986, e, sendo tão novo e tão bom, denso, contundente que seja, é encanto gratificante sabê-lo e conhecer desenhos da escrita dele nesse novo livro de contos.

Estupendo Clássico “A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS” de Markus Zusak / Silas Correa Leite

“Nunca encontrarás a vida que procuras (...)
Os deuses criaram os homens mas estabeleceram
para eles a morte e guardaram a vida para si(...)”

(Epopéia de Gilgamés/Mesopotâmia, 2.750 a.C.)

“Os seres humanos me assombram”, diz Markus Zusak às páginas 478 da estupenda obra clássica “A Menina Que Roubava Livros”, best-selers que, certamente é um dos melhores livros escritos nos últimos dez anos no mundo, lançado no Brasil pela Editora Intrínseca, 2007. O livro é isso tudo o que dizem dele, pode acreditar e botar fé. Quem o leu não passou incólume por ele; ficou com a alma pesada pelo volume de humanismo e falta de, é claro. O livro, aliás, é tudo isso o que de si próprio diz: assombrado em todos os sentidos. Aliás, a “Morte” contando a história toda é um achado de alta criação do fervoroso autor. E, diz, ele mesmo: Quando a morte conta uma história, você tem que parar para ler.  Entrei na leitura desconfiado, e, confesso, saí bem descompensado. Confesso que chorei. A sensibilidade atiçada expropria o fogo de si mesma.

Por diversas vezes, lendo o livro em algumas dias, surpreso, aturdido, marcado, levando no meu lado sentidor pelo gume da ficção contundente e aqui e ali aterradora, parei, senti, pensei, sangrei. E durante a louca e varrida leitura pesada escrevi artigos, contos, poemas, ensaios, letras de rocks e blues. Já pensou que respigar? Literalmete tocado, mais, atingido. Acusei o golpe do verbo ler em seu mais potencializado vetor.  Não foi fácil me cortar para pelo menos tentar sair inteiro. Viver vale a pena? Ou a morte é um leve preço a pagar, há várias mortes na morte?

"Cantagonias" da Cantora Maysa - A Mais Triste Voz da Boêmia MPB / Silas Correa Leite

Para Everi Carrara

Ela cantava como quem punha tudo em pratos limpos, isto é, ela mesma no contrapeso da balança existencial. Maysa cantava suas dolentes sombras e escuridões, entre pausas e semifusas, pondo a sua insana dor de cotovê-lo pra fora do ser angustiado que era. Maysa cantava com sua voz diferenciada, sua alma triste, a mais triste voz da MPB boêmia por atacado. Maysa era a voz-lamento, numa espécie de banzo-tropical-latino contra muros e cincerros, ela mesma, alma em arrebentação íntima. Mulher bonita, livre, independente, tinha opiniões saradas, remando contra as marés bravas de uma carioca e burguesa sociedade hipócrita, assim, destilou veneno, sangrou-se, lavando a alma, dos porões do inconsciente trazendo revoltas, iras, mais a suprema determinação de ser sempre ela mesma, apesar de tudo que se lhe vinha ou entornava o caldo. Existindo arrastava suas correntes? E cantava como se escorrendo as lágrimas-letrais em música, harmonia e ritmo. Nunca houve nenhuma outra sequer parecida com ela. Maysa era seu próprio repertório datado. Já pensou que dilema? Nos bastidores, na solidão do camarim, um copo de uísque na mão, ninguém sabe a dor de quem se coloca pra fora naquilo que faz, por isso mesmo arrebentava como cantora, artista, mãe, mulher, humagente, e ainda um mundo caído no sensível coração arrebentado.

Num país sem memória para com seus ídolos portentosos, em que a absurda máquina televisiva arrebenta as poucas memórias artístico-culturais ou cria infames núcleos estrambólicos de "nadas e ninguéns" (e algumas oxige-Nadas) batizados com a fama sazonal em vernizes fúteis e luzes falsas, finalmente a Rede Globo vai trazer um levante de sua vida-livro, certamente que um novelo envelopado pra consumo, porque Maysa não era pop, muito menos favorita, talvez até fosse uma louca desvairada que colocava os pingos nos dáblios, se reportando como sobrevivente social nas canções em que extravasava o espírito com tantas inquietações. Cantar era seu remanso.

Fragrâncias e Ordenhas Historiais em “As Espirais de Outubro”, Romance de Whisner Fraga / Silas Correa Leite

“Mas não se preocupe, meu amigo
Com os horrores que eu lhe digo
A vida realmente é diferente
Ao vivo é muito pior...”

Belchior

Aila, personagem principal narradora-memorialista do romance “As Espirais de Outubro”, ora no passado, ora no presente, ora no futural (o Nobel de Literatura brasileiro), ora um sem tempo ou tempo nenhum, o que dizer dela? Implicações, reinações, florações. Respigando. Paradoxos, ossos e ócios do oficio de ler-ser-escrever-ter-se (tecer-se). Brilhante romance como se fosse escrito a ferro e afago; escrito como uma espátula impressionista a arrancar fios, recalques, tiras, simulações, descaminhos, espirais – da vida-obra-livro: Aila ela mesma no fim do seu íntimo outonal.

ROMANCE “A MULHER, O HOMEM E O CÃO”, UMA ‘NEVERLAND’ NA HILÉIA AMAZÔNICA / Silas Correa Leite

“Com o que não te digo/ Teço um enigma/ O que digo sempre/ Nega o evidente (...)

Inconfesso, Antonio Mariano / In, Guarda-Chuvas Esquecidos / Editora Lamparina


Para falar do novo livro do escritor paraense radicado em Taubaté-SP, Nicodemos Sena, “A Mulher, o Homem e o Cão” (Ed. LetraSelvagem, 2009, Coleção Gente Pobre, 152 pág.) não teria como não me reportar ao sucesso que foi a portentosa obra “A Espera do Nunca Mais” (Ed. Cejup, 1999), um caudaloso romance elogiado pela crítica, “que faz meio-termo entre ficção e realidade (...); alto estilo, demonstrando vigor e consciência estética(...)”, segundo Ronaldo Cagiano (in Opção Cultural). A amazônica como um todo, resgatada e retratada, do rural-agreste e ermo aos ‘anos de chumbo’ da ditadura militar (o escritor é um retratista de seu tempo e das amarguras de seu tempo?), no letral, literal, e lítero-culturamente sob todos os aspectos. “Uma aula de Amazônia (...)”, diz Oscar D’Ambrosio (in Caderno de Sábado, Jornal da Tarde).

Vendedores de Livros, Procura-se / Silas Correa Leite

-Antigamente, o tipo todo pimpão, terno e gravata, claro, chegava com garbo, proseador e oferecia o precioso livro capa de brochura, a coleção completinha, a enciclopédia de A a Z, tudo de Jorge Amado ou Érico Veríssimo; a família esperava o simpático vendedor regularmente para pagar-se a devida parcela do crediário da enorme quantidade de livros adquirida (a preços módicos), o vendedor era gentil e da casa como o entregador de lenhas, o vendedor de dolé de groselha preta, o vendedor de sapatos, o vendedor de bilhetes da loteria federal, o diácono visitador da diocese. Já pensou?

Antigamente, quando os pais eram importantes referenciais, as famílias unidas tinham estrutura, a sociedade tinha um núcleo ético-comunitário, ler era saber, escrever era um prazer, ter às mãos um livro de porte era sinal de sabedoria, conhecimento, ser gentil, educado e correto era da natureza humana e peculiar à urbanidade do tempo. Antigamente, éramos felizes e sabíamos que éramos. Como diz o Chico Buarque, “O que era doce acabou-se” (quem comeu arregalou-se, dizia o Palhaço Cordeirinho do Circo Itararé). De lá pra cá os núcleos familiares dispararam horizontes, a cultura desandou a polenta, a arte aqui e ali virou agressão sincopada, o livro virou aqui e ali virtual tipo e-book mas, falando sério, um livro na mão, a tez da capa, a apresentação da orelha, o prefácio acalentador, a leitura era um prazer, e, que saudade do Vendedor de Livros! Será o impossível?

"Invenção de Onira", o Belo Romance de Sant´Ana Pereira / Silas Correa Leite

"Sertão. O senhor sabe: sertão onde manda  quem é forte, com as astúcias..."  
 
Guimarães Rosa, in Grande Sertão, Veredas

Um livro de peso, é a primeira impressão que fica após a leitura da obra "Invenção de Onira", de Sant´Ana Pereira (Ed. LetraSelvagem, 2009, Taubaté-SP), romance de 272 páginas. Denso, de tirar o fôlego: a busca de um Eldorado tropical em terra brasilis, aqui muito bem nominada Cabânia. Embarcações em aventuras ribeirinhas, com alusões a uma Arca de Noé, só que levando ricos e pobres, miseráveis e expropriados, loucos e leprosos (todos os "modelos" da espécie humana), para um paraíso aqui mesmo na terra; dentro de uma onírica visão de região que emana leite e mel (e pássaros, rios, relevos, encantamentos). O homem contra si mesmo, mais os interesses dos podres poderes por trás, com os silvícolas sem teto, sem terra, sem amor. 

E os personagens principais conduzindo a obra. Vinagre (temperando o sonho?), Lavor (trabalhando a idéia-terra-lugar-espaço, lavorando-a), o virgem e casto Pilin, um cristão sonhador que fugiu da igreja para conhecer a vida real dos fracos e oprimidos, e Suzel, a guerrilheira das palavras e atos, mais a sedução pelo sonho, pelo amor, por um mundo melhor, feito uma Shangri-lá aqui mesmo. O livro é tão bom que é como se já tivéssemos ouvido essa história antes, de alguma maneira, de algum ancestral, aqui detalhada com personagens, tipificações, detalhes, especificidades que qualificam a obra, ainda mais que contada com maestria, entre um certo neorrealismo e pitadas a capricho de fantástico, entre linguagens náuticas, conhecimento de rios e portos, remos e rumos, corações e sentenças.

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