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| VERDUGOS DA NATUREZA / Bruno Peron Loureiro |
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Causa inveja o modo de vida de comunidades indígenas nos rincões do Brasil. Enquanto elas organizam-se em função de suas necessidades e costumes próprios sem a desconfiança de que os "representantes" não cumpram bem seu papel, os homens urbanos da "civilização" mergulhamos na desordem, na violência e no desrespeito ao próprio meio de sobrevivência.
Ed Stafford é um britânico de trinta e quatro anos que percorreu em caminhada e com uma mochila onerosa na costa toda a extensão do rio Amazonas. Seu objetivo precípuo: ser testemunha ocular do desmatamento e a exploração madeireira mal fiscalizada e promover a consciência ambiental dos jovens. Num trecho da caminhada que totalizou 6.800 quilômetros, Ed e seu acompanhante peruano foram ameaçados de morte por uma comunidade indígena cujos integrantes acreditaram que aqueles quisessem roubar e traficar os órgãos das crianças da aldeia. Não são raros grupos indígenas que ainda não foram catalogados. |
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| REPASTO DOS PODEROSOS / Bruno Peron |
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O crescimento econômico é tema habitual de meios jornalísticos e terreiros políticos. A informação de que o Produto Interno Bruto (PIB) de um país aumenta comemora-se como um dogma de sucesso internacional. Descortina-se, porém, o véu e aparecem os grupos limitados e poderosos que se beneficiam da população exangue.
Não se deve confundir crescimento econômico com distribuição da riqueza. Os dois critérios de avaliação são independentes e o primeiro frequentemente anula o fiasco do segundo. A contenda comercial entre EUA e Brasil sobre o subsídio daquele país a seus produtores de algodão tem rendido uma postura laxa deste. A Organização Mundial de Comércio (OMC) autorizou que o Brasil retaliasse com o aumento de impostos sobre os produtos euânus de modo a compensar a perda. |
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| CONFINADOS PELO MATA-BURRO / Bruno Peron Loureiro |
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A responsabilidade é diretamente proporcional à consciência dos atos cometidos, dizem-nos os entes amigos que nada mais querem que prosperemos e amemo-nos uns aos outros. O planeta adoece enquanto se extrai a maior porção tecnicamente possível de sua seiva: derrubada de árvores, poluição desmedida, apropriação de fontes não-renováveis de energia, industrialização e venda de produtos maléficos ao consumo. A humanidade caminha em passos largos na direção errada. O desenvolvimento moral não tem acompanhado o técnico. Pior que isso: poucos sabem onde está o bom exemplo. O Instituto Oceânico e Atmosférico Nacional estadunidense (NOAA, do acrônimo em inglês) informou que, no mês de março, as temperaturas globais foram as mais altas desde que começou a medição em 1880 para este período do ano. Derrota para a espécie que se crê a mais evoluída do planeta. Enquanto isso, Barack Obama planeja vulgarizar viagens espaciais injetando dinheiro em empresas privadas do setor. O estadista quer enviar uma missão tripulada a Marte e, logo em seguida, astronautas a algum asteroide. Foi-se o tempo em que a escalada ao Everest e outras proezas eram atributos de próceres, porquanto hoje a pretensão é de abandonar a agoniada Terra em prol de passeios bilionários ao espaço sideral. |
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| TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO / Bruno Peron Loureiro |
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Ao mesmo tempo em que o governo Lula tenta democratizar o acesso à internet banda larga nas escolas tupinicas, o Brasil ocupa a modesta posição 61ª entre os países que foram avaliados em desenvolvimento de tecnologia de informação e comunicação. O informe do Fórum Econômico Mundial (WEF, do acrônimo em inglês) em parceria com a INSEAD (escola de negócios) considerou 133 países a fim de avaliar o impacto das tecnologias no desenvolvimento e na competitividade das nações. Segundo o informe, o papel central das TIC é promover a sustentabilidade ambiental, econômica e social. Os promotores destas ferramentas e recursos justificam que o mundo está interligado pelas TIC, portanto é preciso entender as redes e desenvolvê-las. Este informe de desenvolvimento econômico baseado nas TIC elabora-se anualmente desde 2001 e assume critérios que passaram a ser relevantes num mundo interconectado. Poderíamos situar o debate não tanto nos investimentos tecnológicos setoriais senão na maneira como se aproveitam estas ferramentas e recursos na América Latina. O triunfo cronometrado da televisão digital sobre a analógica no Brasil convive com o embrutecimento do povo através da baixa qualidade de programas comerciais que, entre outros apelos pretensamente democráticos, convocam à participação por chamadas telefônicas e sítios de internet. |
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| ARMAS NUCLEARES E PROPÓSITOS COMEDIDOS / Bruno Peron Loureiro |
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Os falíveis mortais que falam em nome dos Estados raramente são criminosos, porém teme-se que, entre outras farsas mal explicadas, as armas nucleares alcancem grupos "terroristas". Tamanhas "ideias" - sobrestimando o uso da palavra - já foram cuspidas pela boca de personagens como a feérica secretária de Estado pangericana Hillary Clinton. Outros artífices da desgraça humana pronunciaram semelhante disparate. Quiçá passaram despercebidos. Cada um quer fazer história de sua maneira, mas - temos que reconhecer - ela acaba sendo contada de uma única forma. Os pujantes apoderam-se da autoria. O espectro da corrida armamentista, a guerra nuclear e qualquer outra tragédia de que o ser humano é ou já foi capaz emerge impetuosamente nas relações internacionais. Antes de qualquer especulação, vale a pena entender que a posse de armas nucleares tem habitualmente caráter dissuasivo e defensivo. Há exceções, entretanto. |
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| QUEM ENSINA, QUEM APRENDE / Bruno Peron Loureiro |
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É frequente a indagação sobre se as pessoas ao nosso redor ensinam ou aprendem. Na tentativa derradeira de acreditar que o instrumento de pedagogia está com eles, pasmamo-nos com o diagnóstico de que nos cabe oferecer o exemplo ainda que não acreditemos nesta prerrogativa. Padecemos destas dúvidas existenciais. Para alguns, a nossa hora chegou de escolher entre habitar um planeta digno ou mover-se a esferas inferiores e obscuras de evolução humana. As teses apocalípticas abraçam o momento mais oportuno de vulnerabilidade da espécie. Foi-se o tempo em que se deixava para depois o que se podia fazer prontamente. As escolhas não merecem mais prorrogações. Não se adia mais o mérito dos que colherão paz e harmonia em detrimento dos excluídos de um planeta a ser promovido. A cultura do medo que culmina nas sociedades modernas tecnicamente, mas atrasadas moralmente, está com os dias contados. As forças do bem sobrepujam as do mal. Os sintomas de ações obsoletas acumulam-se. |
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| VESTAL DA PROCRIAÇÃO HUMANA / Bruno Peron Loureiro |
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Procriem os seres humanos que transferem dignidade às gerações vindouras. Expurguem-se aqueles que nada oferecem de exemplar senão a inépcia de uma existência de egoísmo, orgulho e vaidade. A Terra prescinde deste gênero. Exaure o alento dos desmandos, das guerras e das outras injustiças que têm caracterizado a nossa espécie em sua condição carnal e passional. Queremos algo mais que discursos fundamentados na barbárie e na mentira. Israel é um dos países cujos governantes se esquivam do dever da renovação. Ao longo do período que se convencionou como "Semana Santa", Israel desferiu seis ataques aéreos noturnos com caças F16 à faixa de Gaza e reiterou o desinteresse de promover a paz no Oriente Médio. Ligeiramente distante de seu objetivo como regulador mundial, a Organização das Nações Unidas (ONU) deve US$70 milhões de salários atrasados aos uruguaios que participaram de "missões de paz". A justificativa é de que Pangérica e Japão não têm cumprido com sua contribuição financeira na organização. |
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| GASTOS MILITARES NA AMÉRICA DO SUL / Bruno Peron Loureiro |
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A contingência de animosidades, conflitos e guerras ainda destoa dos anseios pela paz numa época em que se discute a hegemonia de poucos países, a agressão irreversível à natureza e as previsões sustentadas do fim do mundo. O Instituto Internacional de Pesquisa sobre a Paz de Estocolmo (SIPRI, da sigla em inglês) alerta sobre o aumento de fluxo de armamentos ao redor do mundo. Corrida armamentista é um tema que se tinha por soterrado até pouco tempo atrás, quando os números escancararam o aumento de investimento bélico e de preocupação com as "regiões de tensão", como América do Sul, África Setentrional, Oriente Médio, Ásia Meridional e Sudeste Asiático. É a paz um projeto utópico? Tema recorrente de uma filosofia imprescindível. |
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| MUNDO FRATERNAL / Bruno Peron Loureiro |
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O desenvolvimento associa-se, antes de qualquer conjetura, ao grau de evolução espiritual da espécie humana. Quando achamos que merecemos um lugar no céu, o inferno nos convoca. Parte dos seres humanos padece de fome e desnutrição na superfície, enquanto os vermes negam-se a comer a carne dos seres egoístas e impiedosos que jazem no subsolo. Nunca é demais lamentar que muitos consintam com o capitalismo como se este sistema fosse a mais natural das graças divinas juntamente com a insídia do mercado. A criança teima pelo picolé de uma marca; o jovem escolhe a profissão que o mercado sugere; muitos adultos não medem os meios para ganhar a vida; o idoso batalha para garantir a melhor aposentadoria; e o defunto lamenta a mediocridade de sua existência derradeira. |
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| BUROCRACIA DOS IMPOSTOS / Bruno Peron Loureiro |
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Um estudo recente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) indica que "sistemas tributários complexos" e "alta evasão fiscal" prejudicam o crescimento econômico na América Latina e no Caribe.Ainda que o objetivo aqui não seja, como virou moda em análises econômicas, focar o crescimento econômico, vale o despertar para a necessidade de uma reforma tributária que atenda ao desenvolvimento de cada um dos países latino-americanos em suas particularidades. A América Latina desperdiça muito tempo na burocracia dos impostos: cálculo, preparo, cobrança, recebimento. Para cada função microscópica, um funcionário público. Segundo o BID, o processo de arrecadação de impostos dura aproximadamente 2.600 horas no Brasil, que possui, com folga, a burocracia mais morosa na América Latina. A mesma instituição revela comparativamente que os países latino-americanos levam quase o dobro do tempo neste processo que os de renda elevada. |
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| O RUGIDO DA QUARTA FROTA / Bruno Peron Loureiro |
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Nenhum país, por mais fechado que seja, é capaz dentro da sensatez de ignorar a inserção internacional e os processos globais de articulação dos povos e das economias. A China e o Japão, respeitando os matizes, exemplificam sistemas que se abriram ao mundo e tornaram-se países poderosos. Os excessos de inspiração telúrica, porém, induzem à deformação da harmonia internacional em proveito de poucos países, que não escondem a ganância e a volúpia de tomar para si. A Pangérica dispõe de mais de oitocentas bases militares em todo o mundo e demonstra que é capaz de mentir e invadir para estender seu domínio. O caso mais recente é a incriminação do Irã pela mera intenção de se defender. Pangérica, França e Israel, todos portadores de armas nucleares, têm criado a imagem de que o Irã vai enriquecer urânio a tantos por cento e seguir objetivos bélicos. A manipulação toma tais proporções que, em parceria com a ignorância, passou-se a medir o nível de ameaça do Irã em função da percentagem de enriquecimento de urânio. Vi numa reportagem que o alerta aumentou porque o Irã decidiu enriquecer urânio a 80% em vez de 20%. Deixando a questão iraniana para outra ocasião, uma das polêmicas mais recentes parte da reativação da Quarta Frota da Marinha de Guerra da Pangérica em julho de 2008. É um complexo de armamentos avançados e navios capazes de servir de base para o lançamento de armas nucleares que foi criado em 1943 no auge da Segunda Guerra e operou nas águas do Atlântico ao longo de América Latina e Caribe até 1950. A Pangérica come do fruto proibido, mas continua no paraíso. |
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| AS MALVINAS E A INTROMISSÃO DESCARADA / Bruno Peron Loureiro |
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O conflito das Malvinas estimula a retomada do adágio “a união faz a força” pela irmandade da América Latina. Em se tratando do desnível de capacidade bélica entre Argentina e Inglaterra, uma cotovelada nos vizinhos latino-americanos convoca-os a lançar o tema como de importância regional em foros vindouros. A Inglaterra enviou a plataforma marítima “Ocean Guardian” na intenção de explorar gás e petróleo a 160 km ao norte das Malvinas, cujo arquipélago de três mil habitantes é disputado desde o século XIX pelos dois países, mas ficou sob domínio inglês desde 1833. Os pujantes há muito controlam territórios latino-americanos e ilhas adjacentes. A Inglaterra controla as Malvinas assim como a Pangérica faz em Porto Rico e a França na Guiana Francesa. Discute-se a soberania da Argentina e o espaço de defesa da América Latina. A estratégia do governo argentino tem sido a de dificultar a ação das empresas inglesas, que se aproximam em consequência da alta do preço de petróleo. A presidente argentina Cristina Fernández passou a exigir autorização oficial de todas as embarcações estrangeiras para que naveguem em águas do país sul-americano. O esforço da Argentina de frear o apetite inglês é histórico. A guerra de 1982 rendeu a baixa de 649 argentinos e 255 britânicos e a derrota dos anseios de recuperação do território pelos argentinos. |
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| O TRABALHO NA TERRA DO CARNAVAL / Bruno Peron Loureiro |
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Os conceitos de trabalho e emprego confundem-se no Brasil. O primeiro tem para todos desde que haja vontade de fazer e dedicação para continuar, enquanto o segundo depende das decisões governamentais, do modelo de desenvolvimento do país e das instabilidades das economias internacionalizadas. Já vi pessoas com anúncios escritos a mão em cartazes pendurados no pescoço oferecendo serviços na rua num desejo explícito de trabalhar, enquanto outras esperaram meses ou anos em vão o emprego bater na porta do lar. Fala-se de crise financeira mundial, oscilação nas bolsas de valores, queda de investimentos, falta de poupança interna, políticas que beneficiam os pujantes, perda de empregos. Em terra tupinica, já ouvimos de tudo. Menos que chegamos ao padrão desejável de funcionamento da sociedade e de empregabilidade. O cenário politiqueiro que vigora no país não é auspicioso para o emprego. O setor de telemarketing é o que mais emprega no Brasil. Só para fazer um diagnóstico, a previsão é de que o número de trabalhadores neste setor ultrapasse um milhão em 2010. Comemora-se que a taxa de desemprego reduziu-se ao longo das duas gestões do presidente Lula de aproximadamente 12% para 8%. Ainda falta, porém, reconhecer a função catalisadora e não provedora do Estado. |
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| A REFORMA AGRÁRIA / Bruno Peron Loureiro |
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Reforma agrária é uma dessas questões que se reservam aos super-heróis das políticas públicas. Ainda que dentro do desejável, possível e necessário para uma sociedade mais justa, as propostas de divisão de terras no Brasil incidem em interesses conflitantes: de um lado, os insatisfeitos com o pouco de que dispõem; de outro, os cães que rosnam com o osso na boca. A concentração de propriedade é abusiva neste país, portanto é necessário implantar um novo modelo de apropriação agrícola e resgatar os erros do passado.
É verdade que não basta ter acesso à terra. Uma dificuldade que surge posteriormente à aquisição de propriedade rural é a de falta de treinamento dos novos proprietários e infra-estrutura para aproveitamento agrícola, como capital, irrigação, semente e vias de transporte. Toma-se em conta que a maior parte do terreno no país não é usada em cultivo ou outra atividade de fins econômicos. Desde esta linha argumentativa, muitos sustentam que o problema seria então o de excesso de terras ociosas e a falta de investimento em produtividade com técnicas modernas na agricultura, planejamento do plantio e da colheita.
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| A UNILA E VIZINHOS DESCONHECIDOS / Bruno Peron Loureiro |
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No dia 12 de janeiro, Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o projeto de lei de sua própria autoria em prol da construção da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). A cerimônia ocorreu no Centro Cultural Banco do Brasil em Brasília, Distrito Federal. O presidente assinou o documento em dezembro de 2007, mas este só foi aprovado dois anos depois pelo Congresso Nacional. A universidade funcionará provisoriamente em espaço cedido pela usina hidrelétrica de Itaipu em Foz do Iguaçu, cuja cidade fica no estado do Paraná e faz fronteira com Argentina e Paraguai. Zona turística e emblemática do encontro entre países vizinhos. Embora as instalações iniciais sejam temporárias, a Itaipu Binacional doou uma área de quase 40 hectares para a construção da universidade. A concretização da idéia caminha muito mais rápido que o tempo que levou sua aprovação, uma vez que a previsão de início de turmas é para o segundo semestre de 2010. A previsão é de incorporar dez mil estudantes em cinco anos cuja formação se enquadre dentro de um projeto de integração latino-americana. Algumas das ofertas de cursos de graduação serão: Sociedade, Estado e Política na América Latina; Relações Internacionais e Integração Regional; Comunicação, Poder e Mídias Digitais; Tecnologia e Engenharia das Energias Renováveis; Gestão Integrada de Recursos Hídricos; Interculturalidade e Integração. Estas propostas interdisciplinares respondem a um contexto de integração e, pela seleção dos temas, é improvável que sejam alvos da modalidade de ensino a distância, que inibe a proximidade e o debate numa sala de aula. |
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| A UNILA E VIZINHOS DESCONHECIDOS / Bruno Peron Loureiro |
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No dia 12 de janeiro, Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o projeto de lei de sua própria autoria em prol da construção da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). A cerimônia ocorreu no Centro Cultural Banco do Brasil em Brasília, Distrito Federal. O presidente assinou o documento em dezembro de 2007, mas este só foi aprovado dois anos depois pelo Congresso Nacional. A universidade funcionará provisoriamente em espaço cedido pela usina hidrelétrica de Itaipu em Foz do Iguaçu, cuja cidade fica no estado do Paraná e faz fronteira com Argentina e Paraguai. Zona turística e emblemática do encontro entre países vizinhos. Embora as instalações iniciais sejam temporárias, a Itaipu Binacional doou uma área de quase 40 hectares para a construção da universidade. A concretização da idéia caminha muito mais rápido que o tempo que levou sua aprovação, uma vez que a previsão de início de turmas é para o segundo semestre de 2010. A previsão é de incorporar dez mil estudantes em cinco anos cuja formação se enquadre dentro de um projeto de integração latino-americana. Algumas das ofertas de cursos de graduação serão: Sociedade, Estado e Política na América Latina; Relações Internacionais e Integração Regional; Comunicação, Poder e Mídias Digitais; Tecnologia e Engenharia das Energias Renováveis; Gestão Integrada de Recursos Hídricos; Interculturalidade e Integração. Estas propostas interdisciplinares respondem a um contexto de integração e, pela seleção dos temas, é improvável que sejam alvos da modalidade de ensino a distância, que inibe a proximidade e o debate numa sala de aula. |
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| DESASTRE NO HAITI / Bruno Peron Loureiro |
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O terremoto que teve lugar no Haiti em 12 de janeiro de 2010 comoveu o mundo. Tarde funesta entre tantas outras carências. De país mais pobre e de menor renda per capita da América passou à condição de devastado. A natureza apontou o dedo e escolheu uma vítima geográfica que não teria condições de resistir. Não desta vez. A exatidão do número de mortos não é o foco do debate. Corre-se o risco de cair na frieza das cifras. O país divide o espaço de uma ilha com a República Dominicana, tem dez milhões de habitantes e taxa de analfabetismo de 47%. As imagens do pior desastre natural dos últimos duzentos anos no Haiti percorreram o sentimento de solidariedade em todo o mundo. A velocidade foi impressionante. Vários países autorizaram doações milionárias e enviaram ajuda humanitária na forma de equipes médicas e socorristas, alimentos e medicamentos. O terremoto no Haiti mereceu o destaque que tem tido. A capital Porto Príncipe ficou sem água, energia elétrica e telefone, ou seja, serviços básicos de infra-estrutura, e quarteirões inteiros foram demolidos em poucos segundos. A tradução da expressão inglesa para os efeitos do desastre, que tem sido usada na imprensa internacional, é de que a cidade foi “achatada” ou “aplainada”. As imagens são entristecedoras: muita poeira e escombros, corpos soterrados e sobreviventes perambulando sem rumo, crianças desamparadas e famílias armando barracas em lugares públicos. O que era preocupante para as autoridades nacionais virou motivo de angústia. Escaparam presidiários após o colapso da Penitenciária Nacional, o Palácio presidencial ruiu, e o aeroporto virou uma bagunça. Medo de saques, novos sem-tetos e tráfego aéreo intenso e descontrolado. |
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| VERDADEIRO OU FALSO / Bruno Peron Loureiro |
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A relação intergovernamental entre Colômbia e Venezuela não está nos melhores momentos. Apesar de parecerem dois irmãos que não se bicam, o discurso do presidente colombiano Álvaro Uribe reitera que a política exterior de seu governo preza pela irmandade entre os povos que habitam estas nações. É válido até este ponto. O conflito, de ser assim, situa-se na arena de interesses divergentes dos mandatários e projetos dissonantes de resolução de problemas internos e inserção internacional.
Enquanto Uribe se conforma com a aproximação da Colômbia aos países nórdicos e tidos por mais desenvolvidos, o estadista venezuelano Hugo Chávez profere contra as investidas do “Império” na América Latina e obstina-se em apresentar projetos alternativos de integração entre os países da região, como a Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA). Os dois governantes falam de irmandade, porém analistas retomam frequentemente as categorias de esquerda e direita para situar quem é quem.
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| PROPAGANDA ENGANOSA / Bruno Peron Loureiro
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A política de incentivo ao uso de etanol nos convida novamente ao picadeiro. Como se não bastassem os assaltos constantes ao nosso dinheiro, a gasolina será mais vantajosa que o álcool por alguns meses para a decepção dos portadores de carros bicombustíveis (flex). A propaganda a favor da substituição dos tanques de combustíveis foi ostensiva anos atrás. Hoje nem todos os brasileiros temos paciência para fazer o cálculo dos 70% antes de abastecer. Fomos enganados.
O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento culpou o excesso de chuvas no período de colheita de cana-de-açúcar, que inibiu o corte de mais de 60 milhões de toneladas. A mesma instituição pública federal previu que o mercado de etanol se normalizaria em até 120 dias. Está na moda culpar as chuvas pela incompetência humana no Brasil. Foi assim no apagão de novembro de 2009, que, para mim, não passou de uma conspiração. Evento mal explicado.
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| BRASILEIROS NO SURINAME / Bruno Peron Loureiro
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O interior do Suriname foi palco de um episódio de violência que os grandes meios de comunicação insistem em velar que são comuns no Brasil. Enquanto se criticou o país vizinho como uma “terra sem leis” porque a polícia não mostrou a cara quando precisou, o que seria o Brasil e a institucionalização do banditismo que transforma a nossa legislação em patrono dos poderosos?
Era véspera de Natal. Durante a reunião de famílias na noite de 24 de dezembro de 2009 em Albina, região fronteiriça com a Guiana Francesa e a 150 quilômetros da capital Paramaribo, houve um ataque com cacetetes, facas e facões a mais de 200 estrangeiros no Suriname. Golpes atingiram quem estava na frente. Não foi, portanto, um ato discriminado contra brasileiros porque, entre as vítimas, havia também chineses, javaneses, colombianos, peruanos e de outras nacionalidades. Por alguns dias, só se falou disso. E não é à toa. A nuvem do sensacionalismo encontrou seu espaço para situar brasileiros, como sempre, na arena das vítimas. |
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| BRASIL DE PERNAS ABERTAS / Bruno Peron Loureiro |
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O setor produtivo ocupa esferas inimagináveis. Mal temos tempo para pensar. A respiração, por sorte, realiza-se involuntariamente. Como se não bastasse, decisões importantes para o Brasil têm sido tomadas por pessoas ineptas e que sustentam o interesse próprio. Este artigo desembaralha a visão dos que ainda definem suas vidas em função das “exigências do mercado”. Há rastros tão fortes de mediocridade neste país, que temos perdido o senso de coletividade: empresas assenhoreiam-se do espaço público, direitos só servem para dar emprego a burocratas e ludibriar os que ainda creem na cidadania, o clientelismo corrói segmentos diversos da vida em sociedade e há os que dizem – prefiro resistir – que fenecem os que não fizerem parte do “sistema”. Confesso que, quando divago sobre as mazelas do Brasil, não sei por onde começar. Enfoco um problema e logo descubro que há uma série de outras peças de dominó que não tomei em conta. O contraponto básico a que me refiro, a fim de que não haja chiado na estação, é de que tudo é voltado ao setor produtivo em nosso país. Uma conversa descontraída pode-se converter em negócio. O crescimento exagerado da população é um negócio; o excesso de mão-de-obra desqualificada é um negócio; os recursos naturais, desde que recebemos naus portuguesas, é um negócio; a ignorância é um negócio; a perenidade de um campo de oposição entre Estado e mercado nos debates políticos é também um negócio. Sobre este último argumento: pagamos impostos elevadíssimos à máquina pública, porém temos ainda que dispor de planos de saúde, seguros de automóveis e pedágios em rodovias. |
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| DE EXCESSOS E CARÊNCIAS / Bruno Peron Loureiro |
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Não pude conter a emoção enquanto lia virtualmente uma nota de um jornal jamaicano. Ela estampava que, no Sudão, nada menos que 2.000 pessoas morreram e 250.000 tiveram que abandonar suas casas devido à violência somente este ano de 2009. O país sofre de uma grave crise humanitária. O mundo sensibiliza-se quando a vítima é notória. No 11 de setembro de 2001, foi assim. Por que quase não se fala do genocídio que toma lugar no Sudão? Atravessado pelo caudaloso rio Nilo, que noutros tempos proveu civilizações pomposas, o Sudão completa o mapa da pobreza na África. Não obstante a função de berço da humanidade que se lhe atribui a este continente, os indicadores mais tristes de desenvolvimento no mundo residem nas margens banhadas pelo Nilo. Entre outras mazelas, a região hospeda o analfabetismo, a desnutrição e a seca. Toda brisa que sopra de ultramar rebate no excesso de problemas que cultivamos por aqui na América Latina. Porção de terra de uma imitação descomedida. Enquanto isso, a cara-metade que um dia nos conectou na Pangéia sofre conflitos étnicos, disputas territoriais e desrespeitos ao semelhante. Vozes opacas só se referem aos piratas da Somália e outras ameaças ao maldito livre mercado. Não podemos aceitar visões tão encobertas e interesseiras. Pensar na harmonia mundial não é só bandeira para a realização de conferências sobre mudanças climáticas. Queremos saber o que está acontecendo no Sudão, por que tantos morrem ou fogem anualmente, quem pode fazer a diferença para um plano de assistência humanitária neste país e que destino têm milhões de crianças que se entregam involuntariamente aos urubus. |
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| O IDIOMA GUARANI / Bruno Peron Loureiro |
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O inglês é o idioma que se adota convencionalmente e instrumentaliza a possibilidade de comunicação entre povos distintos em qualquer rincão do mundo. Sua hegemonia também se expressa na informática, cuja linguagem é majoritariamente inglesa. O chinês e o japonês são dois idiomas em ascensão. Noutros tempos, o alemão e o francês eram a primeira escolha no Brasil depois da obrigatoriedade do português. Hoje o espanhol ganha espaço. Nenhum destes idiomas, porém, é genuinamente americano. A língua é um instrumento de expressão, poder e resistência. Através dela e sobretudo nos países da América Latina, chegaram-nos ameaças, idéias, religiões, valores e a busca insaciável de comércio. Héctor Lacognata, um parlamentar paraguaio, propôs que o guarani se convertesse numa das línguas oficiais e de trabalho do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), cujo projeto de integração a maioria dos cidadãos pertencentes ao bloco ainda não sabe o que é nem para que serve. O ponto de partida de meu argumento é que o guarani é falado por pouco mais de dez milhões de pessoas de regiões do Paraguai, Argentina, Bolívia e Brasil. O guarani e o espanhol são as duas línguas oficiais do Paraguai, enquanto a primeira o é desde 1992. O guarani é falado por mais de 90% dos paraguaios, 27% deles só falam este idioma, e é oficial também na província argentina de Corrientes. |
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| PIRATARIA E ILUSÕES DA CIDADANIA / Bruno Peron Loureiro |
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O combate à pirataria é um desafio fora de época para o nível de desenvolvimento do Brasil, entre outros países pobres, e aprofunda a marginalização em que muitos consumidores e trabalhadores nos situamos. Os primeiros são incapazes de pagar o preço que se pede de produtos determinados, enquanto estes são vítimas da informalização do emprego. O ciclo da pirataria perpetua-se porque há pessoas insatisfeitas com o preço elevado cobrado pelos “autênticos” e “originais”, ou desinformadas do impacto que a atividade gera na economia formal de um país e na perda em arrecadação tributária, ou resistentes a contribuir para o inchaço da máquina estatal, que ainda não descobri se está a favor do povo brasileiro ou se é uma sanguessuga. O Plano Nacional de Combate à Pirataria tem três vertentes: econômica, educativa e repressiva. A ação visa a monitorar todo o processo de produção, transporte, recepção e venda de produtos piratas no Brasil. Em 3 de dezembro, comemora-se o Dia Nacional de Combate à Pirataria e à Biopirataria. Quando nos rendemos ao descrédito no país, propostas charmosas mas anacrônicas surgem.A orientação oficial sobre este tema tem sido precipitada. Protege-se a indústria em vez do cidadão. Antecipa-se uma era de direitos que se está longe de assegurar-nos. Por que? Enquanto se fala de defesa de todo tipo de propriedades – inclusive a intelectual, somos constantemente furtados, roubados, assassinados, mutilados, violados, enganados, corrompidos e usados na nossa cidadania. |
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| ESPIONAGEM À MODA LATINO-AMERICANA / Bruno Peron |
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O Peru tem acusado o Chile de espionagem. O assunto tem dado o que falar. Poucas vezes um tema de filme do circuito hollywoodiano inspira os acontecimentos periféricos ou terceiro-mundistas. Existe uma linha divisória que separa as atividades dos gigantes das dos anões. Não que estes sempre aspirem a discutir assuntos da mesma nuvem ou precisem de preparação para todos eles. Em resposta às acusações, vozes oficiais do Chile naturalmente negaram que houvesse um espião em Lima, capital do Peru, um “suboficial” peruano a serviço das forças armadas daquele país. Uns incitam os países latino-americanos a levantar a cabeça e enfrentar os problemas como atores de relevo, enquanto outros culpam, como de costume, o nosso vizinho do Norte e a estratégia estadunidense de desestabilizar os nossos frágeis países. Os menores fazem-se de indefesos, enquanto os maiores pretendem ser mais do que são na América Latina. Pela definição, espionagem é uma atitude secreta destinada a obter e transmitir informação sobre um país, especialmente no âmbito de defesa nacional. Apesar da suspeita de que a ação no Peru não é recente, as acusações fundamentam-se na transmissão de documentos sigilosos via correio eletrônico entre 2008 e 2009. O anonimato pela internet virou objeto de investigação de Estado. Por efeito dos avanços nos meios de comunicação, propõe-se o combate a crimes virtuais. As relações diplomáticas entre os dois países andinos, que já não estavam em seu melhor momento, cambalearam. Peru e Chile mantêm boas relações comerciais, porém já disputaram porções territoriais e a história frequentemente aponta alguma hostilidade. Litígios entre eles já alcançaram cortes internacionais de arbitragem. |
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| A VEZ DO IRÃ / Bruno Peron Loureiro |
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Os Estados Unidos, incapazes de manter hegemonia sobre a América Latina, pressionam a comunidade internacional para sancionar o Irã devido ao acercamento diplomático deste país à região. A encenação estadunidense vai em contra do reconhecimento de que o mundo deixou de ter um suposto patrão para assumir uma realidade multipolar. Ainda que um “governo mundial” seja impertinente em relações internacionais, os Estados Unidos encontram cada vez menos respaldo para agir assim. Teerã torna-se um dos maiores inimigos de Washington ao abrir embaixadas na América Latina, estabelecer diálogos e acordos com líderes da região e propiciar o intercâmbio das culturas orientais com as nossas. Vozes afirmam que o Irã aproximou-se da América Latina porque a política exterior de George W. Bush negligenciou esta região, que era tida como “esfera de influência” dos Estados Unidos. Rancores de um projeto de “América para os americanos” que não deu certo? É o cúmulo da hipocrisia que os Estados Unidos condenem o programa nuclear do Irã e as Nações Unidas apliquem sanções ao país. Recordo que Iraque, Irã e Coréia do Norte foram tachados pela diplomacia estadunidense de “Eixo do Mal”. O Iraque recebeu uma invasão covarde em março de 2003, enquanto a Coréia do Norte foi objeto de especulação internacional por haver testado armamento balístico e nuclear. Onde está o direito de defesa nesta anarquia (= sem governo) mundial? O Irã converteu-se em inimigo dos Estados Unidos porque sustenta culturas e valores diferentes, interesses que se opõem ou conflitam com os deste país, é chamado de terrorista e uma ameaça à paz mundial devido ao seu programa nuclear. As reações encolerizaram-se pelo estreitamento de laços do Irã com Venezuela, Bolívia, Cuba, Equador, Nicarágua e Brasil. Com a Bolívia e só para citar um caso, houve um acordo de cooperação de mais de 1 bilhão de dólares. |
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| A FOME E O FIM DO MUNDO / Bruno Peron Loureiro |
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Triunfa a capacidade destrutiva do ser humano. Há os que dizem, ao contrário das tentativas que se dedicam a bendizer-nos, que o aniquilamento sempre foi uma característica intrínseca desta espécie. Desinteressados na resolução de problemas precípuos, acabamos sendo espectadores de uma arena de luta cultural e técnica sem precedentes, ao mesmo tempo em que a maior expressão de agonia resume-se em teses apocalípticas do fim do mundo em 2012. Antes de que a humanidade supra suas carências básicas e reformule a relação com a natureza, alguns prognosticam que finalmente os grãos serão selecionados a fim de equilibrar a nossa senda evolutiva. Ainda que eu tenha ressalvas diante deste argumento, acredito que as tochas que renitem acesas nas nossas mãos devem iluminar atitudes e esforços para que os países dialoguem em irmandade e desapareçam situações nefastas, como a fome. Para tratar de uma das mazelas, o combate à crise alimentar e a luta contra a fome foram os objetivos temáticos da Cúpula Mundial de Segurança Alimentar, que se realizou em Roma entre 16 e 18 de novembro e foi promovida pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO, da sigla em inglês). Em foros anteriores, o prazo para erradicar a fome mundial havia sido estipulado para 2025. Estas reuniões tomam em conta que os preços dos alimentos nos países em desenvolvimento são elevados, aumenta o número de famintos no mundo e a questão afeta um de cada seis seres humanos, o que não é uma quantidade desprezível. Nesta ocasião, não se reiterou uma data limite para acabar com a fome mundial nem se firmou um acordo para que os países mais desenvolvidos destinassem novos recursos para incentivar a agricultura. |
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| SENTIDO DE POLÍTICA / Bruno Peron Loureiro |
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Os prefixos às vezes embaralham as idéias. Convidam-nos a entender previamente o significado da palavra que os segue: anti-capitalista, pós-moderno, superestrutura, supracitado, ultra-conservador. Se os termos vão com ou sem hífen, já é outra história. O tempo nos adaptará às novas convenções sobre a língua portuguesa. Temo-nos relacionado de uma maneira distante e pré-concebida com a política como se esta rememorasse um bicho de sete cabeças. Sem pretensão de acreditar que a época atual é a-política, em alusão aos que creem eximir-se das relações oficiais de poder, ou pós-política, cuja expressão supõe uma fase posterior de mimetismo incompleto do que um dia este universo de ordenação do poder representou, o que se vê hoje são nuanças de um único fenômeno. Seria irresponsável de minha parte veicular o tema fora dos conjuntos da arte, a economia, a sociedade, e outros que compõem sua complexidade. Por isso, desenvolvem-se campos do conhecimento como o da cultura política, a economia política, a sociologia política, entre outros. Gosto de traçar paralelos entre inquietações populares e saberes acadêmicos a fim de não redundar num texto maçante sobre tema banal. A primeira crítica que faço é à desvinculação cultural do cidadão com a esfera de relações políticas, enquanto a mesma não ocorre no patamar de fato. Quer dizer: o dissabor, o descrédito e o afastamento com relação a este âmbito não implica perda de vínculo real dele, uma vez que somos obrigados a votar, pagamos impostos e tributos variados, recorremos frequentemente a serviços públicos e, vez ou outra, reclamamos de alguma ação mal prestada. |
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| A GEOPOLÍTICA DO LÍTIO / Bruno Peron Loureiro |
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O Japão, embora não disponha de riquezas minerais, é um dos países mais poderosos do mundo, enquanto a Bolívia é rica em recursos naturais, mas um país desigual, explorado e pobre. Não urge discutir se é mais um exemplo de ironia da natureza ou de má administração das benesses com que alguns rincões do planeta são presenteados, porém incapazes de recompensar as mesmas terras de onde surgem. A experiência da América Latina em mineração, com raras exceções, é de uma troca iníqua ou incapaz de materializar-se em retorno como políticas sociais à população, ainda que não só os Estados sejam responsáveis por política nesta área. É cada vez maior a atenção internacional depositada na crosta salina ou reservatório de Uyuni, de 10 mil km², 180 km de comprimento e 80 km de largura no sudoeste do departamento de Potosi, Bolívia, que é uma das regiões com maior riqueza mineral no planeta. Esta área, que está 3.670 metros acima do nível do mar, possui jazidas de chumbo, prata, zinco, bismuto e resguarda os maiores projetos de mineração da América do Sul. A informação mais notória, contudo, é de que a “pérola dos Andes” contém as reservas de lítio mais importantes do mundo, além de boro, magnésio, potássio e sal comum. Estima-se uma reserva em Uyuni de 9 milhões de toneladas de lítio, que é considerado o insumo do futuro em tecnologia. Alguns chamam-no de “petróleo do novo século” em referência ao papel deste recurso energético na centúria passada. |
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| A COMPLETUDE / Bruno Peron Loureiro |
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Algo completo só acho que existe nominalmente. Ou no título de ensaios curtos como este ou poesias que decolam, mas aterrissam antes de redundar na especulação. Escrever ou falar sobre a completude requer uma ousadia rara. Um atrevimento que está longe de ser inédito ou de partir da vontade de uma só pessoa. Em que me inspirei? Num dos diálogos por correio eletrônico que abri – e não fechei nem acho que o deva fazer – com a escritora do interior paulista Marisa Bueloni, ela me afirmou o seguinte: “[...] parece que a gente nunca está pronta [...] Sempre vai ficar faltando algo. [...] Termino um texto, mando pro site e ele é publicado. E ali, relendo, vejo como poderia ter escrito de outra forma, com outra sintaxe. Descubro um vocábulo mal colocado... Dá uma aflição desesperadora. Mas acho que arte é assim mesmo: nunca está fechada, pronta, acabada.” Conversávamos sobre os desafios em torno da tarefa de escrever um livro, a evolução de um escritor em relação aos primeiros textos de uma carreira que é amadora para muitos, e – o principal tema – por que o amadurecimento nos deixa, aos habituados à escritura, a sensação de que os textos anteriores poderiam haver sido escritos de maneira diferente. De ser assim, aguardaríamos eternamente o momento perfeito de emitir uma opinião, os artistas plásticos não desenvolveriam suas obras hoje porque amanhã poderão aprender uma técnica diferente, os pedreiros não construiriam uma casa jamais porque sempre ficará uma medida pendente, o médico não atenderia o doente porque lhe faltou conhecer em detalhes algum sistema vital, o dentista não extrairia a cárie hoje porque logo o paciente aparecerá com outra, e não teria graça ir à escola porque o conhecimento tem seus limites. |
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| MAPA DAS DESIGUALDADES / Bruno Peron Loureiro |
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Redefine-se o mapa das desigualdades. Não se trata mais de entender a sociedade brasileira – e as latino-americanas de modo mais amplo – em função unicamente da concentração de renda, em que se aduz a distinção clássica entre ricos e pobres, senão da concentração de conhecimento, saber e tecnologia. A atenção desvia-se para as desigualdades no acesso à formação de qualidade, bens e serviços que proveem capital cultural, e artefatos com enorme valor tecnológico que deslizam precisamente na direção dos setores endinheirados. Há uma proporção enorme de pessoas que não logra produzir ou obter estes recursos. O mapa a que me refiro transcende a geografia. Seria superficial cogitar as desigualdades hoje em dia somente em torno da produção, a circulação e o consumo materiais, como se o mais importante nas estatísticas de desenvolvimento fosse o universo do dinheiro. Um diagnóstico mais complexo exige pensar nos aspectos culturais, educativos, tecnológicos e na capacidade de produzir e usufruir deles. Em vez de argumentar que o padrão econômico determina o educativo, como se o problema fosse só financeiro, prefiro redesenhar o mapa das desigualdades desde o padrão de acesso ao conhecimento, informação e tecnologia em segmentos diversos no Brasil. A internet, por exemplo, é ferramenta diária para uns, enquanto outros sequer têm computador e quanto menos banda larga.Os jovens compõem a camada da população que tende a aceitar os avanços modernos dos meios de comunicação como naturais, enquanto os anciãos observam-nos com desconfiança. Estes questionam as interações virtuais, o baixo nível da informação dos canais televisivos de maior audiência, e a falta de atenção governamental na formação dos jovens. O contorno atual do mapa das desigualdades desenha-se melhor pelos que olham a mudança de época desde um intervalo temporal maior e num contexto mundial, uma vez que é difícil para um jovem imaginar a vida sem vídeo-jogos, computador, internet, celular, iPod, mp3, DVD, entre outras facilidades eletrônicas que a juventude maneja com naturalidade. |
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| RENOVAÇÃO DOS ARES NO MERCOSUL / Bruno Peron Loureiro |
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Os esforços em prol do adiamento da entrada da Venezuela no Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) perdem fôlego. Mesmo alguns setores que não apostavam na adesão daquele país ao bloco começam a ver enfraquecidos seus argumentos e a aceitar que, pelo menos na balança comercial, o Brasil obterá maiores benefícios e o conjunto terá maior vigor se a Venezuela fizer parte deste processo de integração. O MERCOSUL não vai bem. Os propósitos contidos no Tratado de Assunção, de março de 1991, parecem engatinhar. Nestes últimos anos, o MERCOSUL correu o risco de ir de mal a pior. Segundo notícias recentes, o governo argentino tem imposto barreiras aos produtos brasileiros. O medo do protecionismo emerge entre os líderes comerciais do nosso país. Ninguém esperava, porém, que esta prática assombrasse os pilares do MERCOSUL. A entrada da Venezuela poderá trazer um novo condimento ao bloco e a ajudar a desemperrar este processo de integração, que, convenhamos, sofre de paralisia burocrática e de falta de vontade política. Se o objetivo precípuo do bloco é de ordem econômica como o próprio nome diz, por que alguns insistem em julgar o temperamento do presidente venezuelano Hugo Chávez ou em buscar qualquer indício de falta de democracia na Venezuela como se aqui no Brasil tudo estivesse na linha? Reincide-se, ademais, na confusão dos termos “governo” e “Estado” como se fizessem referência ao mesmo conceito, embora o primeiro remeta à temporalidade e o segundo aluda a uma estrutura burocrática. O governo de Chávez é transitório. O referendo que se propôs em defesa de reformas constitucionais, algumas das quais trariam a possibilidade de reeleição em cargos executivos, aprovou-se em demonstração da vontade popular na Venezuela. Empregaram-se mecanismos democráticos, portanto. |
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| ARENA DOS MEIOS / Bruno Peron Loureiro |
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A arena de intermediação política assume nova configuração. Enquanto há algumas décadas se confiava muito mais nos partidos políticos, nas movilizações de rua e passeatas populares, o diálogo tem-se trasladado aos meios de comunicação. Embora as formas tradicionais de expressão continuem existindo, as pessoas dispõem de ferramentas novas para o fazer e o dever políticos. Argumentos: debates entre candidatos a cargos políticos executivos que se exibem na televisão, problemas sociais que se discutem na rádio, listas de nomes sujos de ex-políticos que circulam na internet, notícias da última reunião da Organização das Nações Unidas (ONU) que chegam por mensagens nos celulares, e reivindicações que se fazem por cartas de leitores nos jornais à espera de que, no dia seguinte, algum secretário municipal responda por esta mesma via. O diagnóstico é de que, ao contrário de qualquer esclarecimento, os cidadãos nos temos distanciado de nossos representantes políticos, que passaram a chamar-se “autoridades” numa relação vertical, enquanto os meios de comunicação assumem uma responsabilidade para a qual não estavam muito bem preparados. De uma arena de confrontação direta entre os personagens, ou a política como deve ser, escorrega-se para outra que promete mais do que pode cumprir. As relações políticas já eram complexas, uma vez que não há consenso e os resultados costumam justificar os meios para alcançá-los. Agora, no entanto, ficou mais complicado entender por que somos convocados regularmente às urnas, a política é carreira para uns e fonte de renda para outros, e ainda acreditamos que os políticos são os responsáveis por tudo, ou seja, desde dar-nos melhores condições de vida a ser culpados por qualquer desgraça. |
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| CULTURA DE ACESSO VIP / Bruno Peron Loureiro |
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VIP é a sigla para “very important person” ou “pessoa muito importante” no nosso idioma. Já que PMI soa estranho e aquela é de uso comum, adoto-a neste breve texto. É lugar-comum falar delas, não? Todo o tempo estão as VIPs saindo na televisão, ou em capa de jornais, ou nas notícias da rádio. E que importaria se essa pessoa não fosse uma VIP? Se não fosse considerada assim, não daríamos a mínima. O ponto a que quero chegar, assim logo de cara e em clima precoce de conclusão, é que a maioria dos que não são VIPs dá o sangue para sê-lo. A cultura de acesso VIP, considerando-se que se não é faz o possível para fingir que é, tomou conta da sociedade brasileira de um jeito que valeria a cabeça de quem inventou essa moda. E moda sabemos que pega. Parte dos representantes políticos entra por porta exclusiva aos seus recintos de trabalho, faxineiros só sobem e descem por elevador de serviço em alguns edifícios, casas noturnas reservam uma das entradas aos “sócios”, negócios de maior volume furam fila em bancos e festas de famosos só se publicam mediante a passividade dos telespectadores em seu lar. Tem mais: uso de pulseira em eventos, ambientes cercados de segurança para evitar a entrada de quem não é VIP, preços exorbitantes cobrados por bens ordinários para selecionar os frequentadores de algum local, cela especial nos presídios para quem tem curso superior, descontos só para quem tiver carteirinha de tal ou qual instituição, concessão de visto para turismo em países estrangeiros a uns e negação a outros. |
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| DESCOBERTAS DA ESPÉCIE / Bruno Peron Loureiro |
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Acabam de anunciar os resultados parciais de uma pesquisa de que Charles Darwin, se estivesse entre nós, teria o prazer de participar. O fóssil do esqueleto incompleto de um ancestral feminino que viveu 4.4 milhões de anos atrás, que foi encontrado em 1994, rendeu uma nova tese por cientistas com base em Adis Abeba, Etiópia, e Washington D. C., Estados Unidos. Os fósseis foram desenterrados em Etiópia. O Australopithecus afarensis, cujo apelido é “Lucy” e viveu 3.2 milhões de anos atrás, era o fóssil mais remoto antes da descoberta de “Ardi”, que recebeu o nome de Ardipithecus ramidus. Embora o fóssil da primeira espécie tenha sido achado em 1974 e o da segunda em meados dos anos 90 e distantes 74 km um do outro, uma pesquisa deste porte e com o escasso material disponível toma tempo para realizar-se. Ainda que cientistas sustentem que o familiar mais próximo da humanidade viveu pelo menos seis milhões de anos atrás, a descoberta de “Ardi” derruba a tese de que viemos de chimpanzés e gorilas, uma vez que aquela possui características distintas destes e dos humanos, como a de usar os quatro membros em árvores e, no chão, somente dois. “Ardi” comportou-se como uma possível linhagem comum de humanos e primatas. Esta descoberta, para alguns, parece ter o efeito contrário à de que a Terra não é o centro do universo. Na primeira situação, não descenderíamos de macacos, enquanto, na segunda, destitui-se aquele pretenso papel de centralidade dos humanos neste planeta, que é apenas um a mais nessa imensidão cósmica. Provoca-me um sentimento impotente e nebuloso, mas há que admitir que somos grãos. |
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| FINALIDADE DA RÁDIO / Bruno Peron Loureiro |
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Desventurada hora em que queremos escutar uma boa música na rádio e, depois de percorrer exaustivamente várias estações, tudo o que conseguimos sintonizar são aquelas dez melhores canções que tocam todos os dias ou uma voz que estimula incansavelmente a que compremos tal produto e tenhamos qual serviço que vai eliminar nossas pretensas frustrações materiais e deixar-nos mais felizes, bonitos e satisfeitos. Em horário comercial, é o que se encontra na maioria das estações de rádio. Os idealizadores desta tecnologia no século XIX não imaginavam o alcance que esta invenção teria, que já foi usada para fazer propaganda política em tempos de guerra. É mister destacar que a finalidade da rádio não é só tocar música como se poderia esperar, uma vez que este meio de comunicação serve até de forma de contato no transporte aéreo e marítimo. Enquanto ao conteúdo musical, o repertório de uma rádio é escolhido em função do segmento de audiência que ela quer alcançar e das diretrizes da indústria de fonogramas que determina quais canções devem compor a lista das mais tocadas. O espectador é cúmplice de uma trama comercial quando pede uma canção pelo telefone. A música é apenas um aspecto, que me parece fator de isca criado por algumas emissoras para outros fins. Entendo a liberdade de empreendimento e expressão como importante e necessária para o desenvolvimento do país e de uma cidadania global, mas lamento que os que mais deveriam ouvir e apreciar os programas educativos da rádio, quando e onde os tenha de qualidade, são os que menos o fazem por cair na trama publicitária e das “10 mais ouvidas” que eles mesmos solicitam por telefone. |
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| BANCO DO SUL E TENDÊNCIAS NEURASTÊNICAS / Bruno Peron Loureiro |
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O Banco do Sul propôs-se formalmente pelo presidente venezuelano Hugo Chávez em março de 2007, cuja data abriu a discussão sobre a viabilidade deste empreendimento intergovernamental entre países da América do Sul. Vozes oficiais sustentam que o banco terá como um dos principais objetivos o de contrapor-se ao imperialismo estadunidense e oferecer alternativa às principais instituições financeiras do Norte, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Mundial.
Ecoam, contudo, críticas ao Banco do Sul que denunciam o interesse político de Chávez em difundir o “socialismo do século XXI” e beneficiar o grupo econômico venezuelano que saca sua renda da abundância de petróleo. Há os que afirmam ainda que o banco consolidará o plano estratégico da Venezuela de expandir sua infraestrutura energética na região e que o discurso anti-imperialista é uma falácia, uma vez que Estados Unidos é o principal comprador do petróleo daquele país. O Banco do Sul não é uma má proposta, porém é mister analisá-la com desconfiança. Como o Brasil dispõe do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e mantém boa relação com as instituições financeiras do Norte, o Banco do Sul é mais interessante para o projeto político da Venezuela e os países menores da América do Sul que para o Brasil. De parte do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, porém, houve uma recomendação para que o Brasil não ficasse de fora. |
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| UNASUL E A CORRIDA DE GALINHAS / Bruno Peron Loureiro |
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A reunião de 28 de agosto em Bariloche, Argentina, entre os presidentes dos doze países da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) realizou-se com uma leve dose de precipitação e temor com respeito à militarização que alguns países da região têm seguido. Já se esperava uma atenção especial sobre os pronunciamentos dos presidentes Rafael Correa (Equador), Álvaro Uribe (Colômbia) e Hugo Chávez (Venezuela), assim como a “moderação” das posições de Brasil e Chile.
As preocupações centrais desta reunião giraram em torno do convênio militar entre Colômbia e Estados Unidos, a paz e a segurança da América do Sul, o combate ao tráfico de armas e entorpecentes, entre outros temas que foram empurrados a segundo plano por urgência da ocasião. Pelo menos assim se puderam entender os cutucões de uns e os discursos ofensivos de outros com relação à tal da ameaça à soberania dos nossos países pelos interesses velados de Estados Unidos. |
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| SAÍDA PARA FOTOS / Bruno Peron Loureiro |
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Enquanto conversávamos por internet, perguntei a um amigo o que faria no fim de semana. Abordagem básica. A resposta, porém, fugiu do convencional. Disse que participaria de uma “saída para fotos”. Quando não entendo, pergunto. Para que carregar a dúvida? Ele não daria entrevista, não era modelo nem fotógrafo, e não estava de brincadeira. Trata-se de atividade e expressão novas. Logo que lhe questionei o significado da expressão, adiantou-me o endereço de uma página eletrônica que continha várias fotos tomadas por lazer de objetos e lugares ordinários.
Gansos no lago da cidade e paisagens sobre a linha do trem. Em poucas delas, saíram pessoas. Deduzi que “saída para fotos” se refere a um encontro entre amigos que se reúnem para fazer passeios com a finalidade de tomar fotos para colecioná-las em albuns ou portais na internet. O detalhe é que são fotos de cenários, objetos e paisagens.Bom passatempo. Antigamente as câmeras fotográficas eram caras, de proporções enormes, não tinham tantas opções como as atuais para editar as imagens, o tripé tinha que estar junto para apoiar o peso, e demandavam um profissional para tomar as fotos. |
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| CLUBE DA CULTURA / Bruno Peron Loureiro |
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A iniciativa do vale-cultura pelo governo federal é bem-vinda e oportuna em relação ao desafio de democratizar o acesso à cultura, estimular as indústrias nacionais diante do poderio dos conglomerados estrangeiros e transferir o esforço da produção ao consumo cultural, no entanto as críticas que se têm feito ao projeto também mostram a sua pertinência em descortinar as incoerências atuais de um velho anseio. Para esclarecer, o vale-cultura trata de um cartão magnético que será concedido, nos moldes de um vale-transporte ou vale-refeição ou outro vale que logo inventarão, aos trabalhadores de até cinco salários mínimos cujo crédito incentivará inicialmente com R$50 o investimento no consumo de cultura. Já se reconheceu que o valor é baixo, mas falemos do objetivo da iniciativa.
A previsão de seus idealizadores é de que entre 12 e 14 milhões de cidadãos brasileiros serão beneficiados com a compra de livros, CDs e DVDs e a entrada a concertos, cinemas e teatros. Muitos destes nunca entraram numa sala de cinema ou teatro. Vivem pior só por causa disso? A pergunta primordial que me surge é: qual é o entendimento de cultura de que o governo federal parte para sugerir que um segmento dos brasileiros poderá finalmente dispor de R$50, ainda com perspectiva de aumento do valor, para gastar num setor que, até onde se sabe, sempre teve sua economia consolidada e expandida no mercado brasileiro, como o fonográfico? |
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| DO LOCAL AO GLOBAL / Bruno Peron Loureiro |
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Ao contrário do que se poderia esperar, este texto não redunda naquele tema corriqueiro dos anos 1980 e 90: a globalização. Este processo já foi discutido exaustivamente no meio acadêmico e usado como pretexto para explicar os fenômenos de maior dimensão na atualidade. Ainda que reconheçamos que a globalização não começou há poucas décadas como alguns acreditam senão na busca secular do estreitamento de vínculos com outras partes de um mundo até então desconhecido, o termo continua em uso indiscriminado.
O ponto do que eu parto se refere à dimensão global que os acontecimentos e os processos locais têm assumido. Hoje é improdutivo pensar em alguns temas sem os remeter a um nível mais amplo de onde surgem ou em que repercutem. A concentração populacional em cidades depois do êxodo rural na primeira metade do século passado foi um fenômeno de proporção comparada aos usos que damos aos meios de comunicação no início do XXI. Portais para diversas partes do mundo encontram-se em nossos lares.
Além disso, os temas prioritários da agenda internacional definem-se pela concertação de diversos países e também pelas decisões de seus atores internos. A mudança climática e o desmatamento são dois destes temas que reclamam a participação mais ativa de cidadãos e empresas, que respectivamente podem refrear o consumismo e adotar práticas de proteção ao meio ambiente. Em termos mais práticos, o costume da reciclagem e o cuidado na eliminação de lixo industrial são alguns dos esforços. |
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| DURABILIDADE / Bruno Peron Loureiro |
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Até pouco tempo atrás achava que fosse somente impressão minha. Logo comecei a desconfiar que o meu pressentimento infelizmente se convertia em realidade. A durabilidade dos objetos, produtos e serviços está cada vez menor. O que se compra hoje tende a inutilizar-se em tempo precoce. Produtos eletrodomésticos, eletrônicos, ferramentas, peças, brinquedos e utensílios têm sido fabricados para pifar em curto prazo e fazer-nos comprar outros. Fiquei sabendo que cartuchos de impressora têm sido produzidos de tamanho menor para movimentar o setor comercial de recarga. Artimanhas para aquecer o mercado?
Liga-se o cronômetro. Por que a lavadora de casa está funcionando firme e forte há mais de vinte anos e a geladeira nova apagou em pouco mais de um ano de uso? E toca chamar o tal do técnico da “assistência técnica autorizada”. Cobra caro para trocar uma peça sem a qual a geladeira não resfria. Parece que já previa a situação. Acessórios de informática perdem sua utilidade em poucas semanas ou meses e logo temos que atualizá-los por incompatibilidade com os novos programas. Uma câmera pode ficar obsoleta se eu migro do sistema operacional Windows XP para o Vista devido a que o fabricante já não produz mais drivers para aquele componente. |
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| MENINOS DE RUA / Bruno Peron Loureiro
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É cada vez mais notória a existência de meninos e meninas de rua, que pedem dinheiro ou vendem balas em semáforos, oferecem-se para guardar carros contra furtos, abordam os pedestres na calçada, movem-se em bandos e dormem na rua. Cenário urbano no Brasil que, para uns, é causa de indignação com os rumos deste país e, para outros, do que gera desconforto e insegurança.
Nas cidades grandes, o fenômeno é mais comum, embora comece a inquietar a estabilidade social de que as pequenas e médias se prestigiavam há pouco tempo no que se refere à menor manifestação do problema. Até então Rio de Janeiro e São Paulo levavam a fama. Os olhos dos turistas, para início, denunciam a questão aos moradores que não deveriam entendê-la como normal.
No Brasil, às vezes parece que a pobreza, o desencanto e a desesperança satisfazem a um mercado e convêm a certos grupos. O país faz número. A economia é uma das vinte maiores no mundo. É como se não importasse muito que haja crianças e adolescentes em situação de desestímulo familiar, sem frequentar escolas, drogando-se nas ruas (como a “Cracolândia” em São Paulo) e destituídos de um futuro. |
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| PATRIMÔNIO / Bruno Peron Loureiro
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Mudou a noção de patrimônio. Num circuito global em que imagens, mensagens e vozes atravessam o mundo em fração de segundos e quando se apela cada vez mais às relações de poder brando, já não podemos perpetuar a crença em que o que nosso país tem de patrimônio se limita a um monumento ou um edifício histórico que se expõe diariamente ao sol enquanto os transeuntes o contemplam com desdém.
Patrimônio é uma categoria que se tornou mais abrangente - infelizmente tarde e não por todos os que deveriam lidar com a questão - a ponto de incluir o intangível ou o imaterial ao conjunto de objetos de museu e prédios que remontam ao período colonial. Por que ainda há um anacronismo para propor formas de proteger e divulgar os idiomas, os sotaques, as técnicas, os costumes e os saberes locais?
O que define o patrimônio é a capacidade de representar simbolicamente a identidade, que se promove por alguma instituição social e se legitima pelo restante da sociedade. Os traços identitários brasileiros têm sido criados oficialmente em função da nossa maneira de ser, o futebol, o carnaval, as belezas naturais. A identidade nacional caminha junto com o que se soma como patrimônio intangível. |
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| LOJA DE IMPORTADOS / Bruno Peron Loureiro
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Buscava um aspirador de pó portátil, com função à bateria. Andando por uma área comercial, nenhuma loja de eletrônicos tinha desse tipo. Só via os convencionais. Finalmente o vendedor de uma delas me sugeriu que eu pegasse tal rua, onde havia uma galeria, porque na última loja eu o encontraria. Era uma loja de importados. Cheguei lá e o atendente replicou que há poucos dias tinha vendido o último desses aspiradores, mas que em tal lugar eu poderia achá-lo. Enquanto eu perguntava também de outro utensílio, não hesitou em agregar que sua loja estava dominada por produtos chineses e que acreditava que até a camiseta que vestia fosse da China. Senti um desabafo.
Normal num contexto em que o Brasil diversifica seus parceiros comerciais a fim de defender o multilateralismo em suas relações diplomáticas e fortalecer a indústria nacional. A estratégia tem surtido efeito a ponto de o Brasil ser considerado o principal país da América Latina em importância econômica. Não só em extensão geográfica. Nesta esteira, idealizou-se um grupo de países cuja capacidade econômica equivaleria à dos Estados Unidos ou a superaria em poucas décadas. Trata-se de Brasil, Rússia, Índia e China (BRIC), que participam de encontros e foros com o objetivo de aproximar as suas economias e contrabalançar as dos mais poderosos do mundo. Boa jogada. |
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| HONDURAS E A DEMOCRACIA / Bruno Loureiro
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Quando se acreditava que os golpes de Estado fossem recursos do passado na América Latina, veio a notícia da deposição do presidente de Honduras José Manuel Zelaya na madrugada de 28 de junho. Exilou-se em Costa Rica enquanto se voltava a atenção a um dos países mais pobres da América em busca de uma explicação convincente. Os atores deste ato ofereceram a justificativa de que Zelaya prosseguiria com o referendo para viabilizar uma mudança constitucional e é acusado de dezoito delitos pela Promotoria de Honduras.
As forças armadas fizeram o que queriam, mas, mesmo com apoio de empresários e outros setores internos, esqueceram-se de medir as consequências. Confiaram demais no princípio da auto-determinação dos povos. Lidar com a democracia, no entanto, implica a consideração de um contexto maior e, portanto, o respeito a normas internacionais de que Honduras faz parte, como as que preveem os valores democráticos, e a suposição de que outros países dariam palpites sobre política interna.
A reação dos outros países foi unânime: condenação do golpe, retirada dos embaixadores, diálogos e opiniões intermináveis, apoio de países amigos a Zelaya, recomendações para que o presidente deposto retorne ao cargo e o país volte à normalidade, receio do fim da paz na região, e a expulsão de Honduras da Organização de Estados Americanos (OEA) devido ao desrespeito aos preceitos democráticos acordados entre os países membros desta instituição. O presidente hondurenho em exercício, Roberto Micheletti, não cede às pressões externas. |
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| NA MOSCA / Bruno Peron Loureiro
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Impressiona-me a precisão: nos tiroteios de filmes de ação, nos ensaios com cavalos que atravessam barreiras, nos chutes a gol que surpreendem qualquer fanático, nas danças e vídeo-cassetadas que têm alegrado e colorido os programas dominicais de televisão, nos passos do Michael Jackson, e até nas respostas que alguns interlocutores dão a perguntas difíceis a ponto de concluir categoricamente a conversa. O certeiro tira a monotonia do acontecimento e da conversa. Para comentar um assunto atual, que mexe com a precisão dos cálculos, até no regulamento de gorjeta em bares, hotéis e restaurantes o tal do acerto aparece. Aprovou-se, pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara de Deputados, projeto de lei neste sentido, que só aguarda apreciação pelo Senado. O tema é oportuno.
Temia-se que o dinheiro arrecadado quase compulsoriamente através dos 10% não se dividisse devidamente entre os trabalhadores do estabelecimento, como copeiro, cozinheiro, faxineiro e garçom. Nestas novas condições, passa-se a registrar o salário mais a gorjeta na carteira de trabalho e o responsável tem o dever de repassar 20% da gorjeta a obrigações sociais dos trabalhadores e 80% para estes. Já era hora de um tiro certeiro numa situação de dois extremos: um é o de o consumidor dar a gorjeta diretamente ao trabalhador, enquanto o outro e mais comum é o de a taxa vir incluída na conta e a responsabilidade de repasse ficar com o patrão. Embora eu não acredite que esta questão vá dar muito o que falar, pequenos temas sempre conduzem a problemas maiores. |
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| VELÓRIO E CANDELABRO / Bruno Peron Loureiro
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A aprovação da proposta a favor de um terceiro mandato para o presidente Lula, cujo tema tem sido discutido em surdina na Câmara de Deputados e exibido na imprensa, seria uma aberração para a democracia no Brasil. Tudo começou com rumores baseados na popularidade elevada que Lula conquistou no Brasil e no mundo. Na mesma região latino-americana, as energias oscilam entre setores que enxergam nele um estadista equilibrado e os que entendem seus anos de gestão como uma traição à esquerda que o elegeu como o sindicalista humilde que atenderia aos anseios da massa oprimida. A informação recorrente em seus discursos, porém, é que Lula não almeja um terceiro período de governo e seu partido – o Partido dos Trabalhadores – é veementemente contra esta continuidade.
Ainda que parecesse história para a imprensa tomar como pauta, um deputado federal do Sergipe buscou assinaturas para a proposta de emenda à Constituição 367/2009 com o pretexto de demonstrar que o Nordeste é grato ao labor de Lula. Cogitou-se, com ela, mudar a nossa Lei Magna permitindo a concorrência de terceiro mandato aos cargos de presidente, governador e prefeito. Em maio, a proposta circulou na Câmara devido à obtenção do número suficiente de assinaturas de deputados até que alguns deles retiraram seu apoio. |
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| BRASIL LETRADO / Bruno Peron Loureiro |
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Problemas do desenvolvimento existem em qualquer país. Modifica-se o tipo e a intensidade de um para outro. O Brasil, porém, continua sendo objeto de artigos que, como este, buscam ampliar os canais de comunicação a fim de discutir maneiras de melhorar a qualidade de vida de sua população, além de objeto de projetos que dão emprego em instituições nacionais e internacionais a profissionais que se dispõem a trabalhar pelo desenvolvimento. Desta vez, continuo falando de um dos Brasis: o marginalizado cultural e materialmente.
O analfabetismo no nosso país é um desses assuntos que nos fazem perguntar se o governo deveria contentar-se com números que se reduzem modestamente ou se é melhor assumir a calamidade com os pés num chão menos escorregadio. A taxa de analfabetismo no Brasil está em aproximadamente 10%, ou seja, 19 milhões de compatriotas são incapazes de escrever ou ler um bilhete simples para usar a definição corrente. E estamos piores que muitos dos nossos vizinhos latino-americanos e caribenhos, cujo índice médio é de 9,5%. |
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| A INFORMÁTICA / Bruno Peron Loureiro
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O prazo de validade dos computadores está cada vez mais curto. Um componente se desatualiza em poucos dias ou semanas e logo é necessário aumentar a memória, expandir a capacidade do disco rígido e trocar algum outro acessório para que haja compatibilidade com o funcionamento dos programas. Porém, tudo isso tem um preço, que se soma à ansiedade de querer o mais novo. Ademais, a informática virou tradição e alastrou-se nas esferas de convívio humano.
Quando me aproximei de um computador pela primeira vez, estava no colégio. A escola havia comprado um para expor na biblioteca. Era uma das primeiras versões com CD-ROM e o monitor já era colorido. Qualquer demonstração de curiosidade, no entanto, era abafada pela pomposidade da máquina. Ninguém podia tocá-la, a menos que com auxílio do técnico e com um pretexto autorizado. Naquela ocasião, os computadores eram como uma nave espacial que caíra sobre a Terra. |
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| AS RODOVIAS / Bruno Peron Loureiro
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Existe um ditado que diz que “alguém tem que pagar a conta”. Por algum momento, acreditamos que o governo banca nossos excessos, paga o salário de pessoas que querem trabalhar pouco e se responsabiliza por crises que aparecem de ultramar; por outro, chegamos a conclusões precipitadas de que o governo não tem que se meter, assim que diminua os impostos e cada indivíduo financie suas idiossincrasias. O jogo tem rebolado entre oito e oitenta, ou seja, extremos que não se bicam.
O episódio de hoje – parece continuação de uma história mal contada – é sobre a sensação de que estamos pagando a conta de outro quando se enfrenta o número crescente de cabines de pedágio nas rodovias brasileiras. Em cada uma que aparece, recebemos uma punhalada que nos obriga a aceitar e lamentar ao mesmo tempo. As rodovias também entraram para a dança das privatizações que nossos governantes estimularam na década de 90, entregando até o que dava lucro para a iniciativa privada. Mal maior poucas vezes se cometeu. |
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| PADRÃO EUROPEU / Bruno Peron Loureiro |
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Detesto atitudes paga-paus! Ainda mais aquelas que a gente serve de escoadouro a um monte de pilhérias que ninguém é obrigado a escutar. Fulano que imita a idiossincrasia de um ator de novela ou de cinema; outro que se gaba de falar um quinto idioma que não tem serventia em quase nenhum lugar do mundo; outro que acha que ficou culto e conheceu várias cidades da Europa depois de uma estância de uma semana naquele continente onde não ficou mais que um dia em cada capital.
Ainda que sejam poucas essas experiências de maltrato à audição, não dá para tolerar. Inteirei-me de uma situação que une a falta de bom senso com uma atitude paga-pau. Alguns modelos do automóvel Peugeot 307 têm sido comercializados com a placa dianteira posicionada num nível muito inferior, o que provoca que ela raspe no chão, frequentemente entorte, ou até caia quando se manobra na garagem ou se passa em lombadas e valetas. E como se venderia o carro nesta circunstância?
Daí que o funcionário de uma concessionária da Peugeot no Brasil, daqueles que se encarregam de vender o carro com o argumento que seja, relatou que era assim mesmo porque o automóvel tinha sido projetado dentro dos padrões franceses. É um devaneio deduzir que temos vias apropriadas para esse padrão de engenharia. Como aceitar que esta linha de automóveis tenha sido fabricada para trafegar no Brasil como se a estrutura viária daqui fosse a da Europa? |
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| CALEIDOSCÓPIO / Bruno Peron Loureiro
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São muitos os mal-entendidos, as especulações, as mentiras, as mistificações, os charlatanismos, as fés cegas, os falsos profetas, os véus que cobrem...O leitor que está familiarizado com o funcionamento do caleidoscópio reconhece que as imagens que observa não se repetem e estão sempre em busca de um complemento por parte do observador. É possível ver mais do que cores, formas e movimentos. O recurso à imaginação é o primeiro apelo do caleidoscópio, porém não se deve esquivar da realidade. As próximas linhas se dedicam a juntar as peças e dar-lhes coesão.
O caleidoscópio inspira a entender a realidade desvelada da fumaça que nos obriga a interpretações superficiais, precipitadas e institucionalizadas. Somam-se visões distintas para construir um edifício maior em vez de pulverizá-las. A medicina chinesa era discriminada até pouco tempo atrás pela alopática, enquanto o mito do céu e do inferno como lugares alheios à Terra já não convence nem os bebês. O primeiro olhar é o de filtrar visões idílicas que nos estimulam a estar “pensando na vida” ou “vivendo e aprendendo” como se houvesse algum enunciador destituído de paixões, preconceitos e vícios, entre outras abstrações da experiência que exercem uma fornicação mental nos receptores das mensagens devido ao grau excessivo de pureza aparente. Não é só isso. |
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| POLICIAIS DE PLANTÃO / Bruno Peron Loureiro
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É lugar-comum dizer que nossa polícia é autoritária, burocratizada, corrupta, covarde, ineficiente, corporativista e desarticulada. Gera quase um consenso. De nada serve repetir estas palavras de desgosto e resignação se não se propõem soluções ou maneiras de amenizar o problema. Foi-se o tempo em que eram suficientes os serviços privados de condomínios fechados, cercas eletrificadas e alarmes monitorados.
A novidade é o aumento dos vigilantes noturnos que oferecem serviços de segurança desprovidos sequer de posse de arma. Troquei idéia com o mesmo guarda que se responsabiliza pela patrulha em dois bairros contíguos. Cobra trinta reais mensais dos moradores de um deles, que é de perfil mais popular, e cinquenta do outro porque são de maior poder aquisitivo.
O procedimento é este: quando o morador estiver chegando em casa, geralmente no seu veículo e mesmo em bairro até então seguro, ele telefona ao vigilante, que se aproxima com sua moto enquanto o cliente dessa nova modalidade de segurança entra em casa com menor risco de assalto. Novo uso para o celular. E a polícia como entra nessa história? Os impostos financiam instituições que não atendem às necessidades básicas de segurança pública. |
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| FOFOCAS / Bruno Peron Loureiro |
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O ser humano tem seus ímpetos, instintos e paixões dos quais se livra com dificuldade e força de vontade. Há pessoas que carregam alguns impulsos negativos a vida inteira, enquanto outras colhem rapidamente resultados dos seus esforços e sentem uma serenidade compensatória. Eu não poderia introduzir o tema das fofocas sem o realismo que nos faz entender a natureza humana.
Como escrever sobre a fofoca sem contextualizar o que o ser humano tem que superar a fim de crescer nessa longa jornada? Difícil é explicar por que, no intervalo entre o primeiro parágrafo e este, tem tanta gente desperdiçando seu tempo fofocando no Brasil e no mundo. A maioria não mede as consequências enquanto coça o ego. Tem gente que acredita que se mantém informada com a vigilância do que os vizinhos fazem, ou da briga de um casal da novela (até no plano da ficção se situam), ou da curiosidade que um acidente provoca quando as pessoas apinham-se para ver o que aconteceu e não movem uma palha para apoiar ou solidarizar-se. |
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| EXPERIÊNCIA FALTANTE / Bruno Peron Loureiro
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Recebi um correio eletrônico de um professor que dizia que não poderia dar aula naquela semana. Antes mesmo que eu me perguntasse por quê, o próximo parágrafo da carta breve e coletiva o respondia: “Por motivo de fuerza mayor”. E nada mais. Fiquei sem entender qual foi mesmo o motivo. Dediquei-me a outras atividades este dia. Até que, andando pela universidade, reparei num aviso de outro professor fixado na parede, desta vez de outra turma, no fim da escadaria que dizia que não estaria presente naquele dia “POR MOTIVO DE FUERZA MAYOR”. Assim mesmo em letras maiúsculas.
Acho que virou moda dar essa desculpa no México. Quantas outras vezes falta entender as decisões, as motivações e as reações alheias? É comum sair de uma festa ou conversa achando que pudéssemos ter falado e ouvido mais, arrepender-se de uma atitude imponderada no dia seguinte, aproveitar mal o que o dia tem para oferecer, não entender um conselho ou uma opinião, deixar um trabalho para fazer amanhã quando ele pode ser feito hoje. |
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| BRASIL ENCARCERADO / Bruno Peron Loureiro
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O tema do complexo carcerário no Brasil é difícil de abordar em poucos parágrafos, exige um diálogo mais amplo e provoca coceira quando o tentamos fazer. É uma espiral que não se tem dirigido a escopo algum. O anúncio da construção de novos presídios é um indicador de que o setor está ruim: superlotação nas celas, alto índice de SIDA entre os detentos e o aumento dos delinquentes que quase já não têm onde hospedar-se às custas do governo.
A população carcerária no país é estimada em 420 mil. É uma cidade de porte médio. Só não entram mais pessoas no porão do abandono porque não tem lugar. A impressão que tenho é de que o Brasil está encarcerado; ou em processo de encarceramento. Antes de que se discuta exaustivamente e se responda a pergunta de como evitar a chegada do condenado à cadeia e a reincidência no crime, o governo federal anunciou, em novembro de 2008, a construção de sete presídios para jovens em vários estados. São eles os que menos esperaríamos que estivessem na cadeia. São também eles a quem o governo tem proposto construir formas institucionais de exclusão social, já que os de 18 a 24 anos compõem um quarto da população que respira atrás das grades. |
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| O DESAFIO DO PETRÓLEO / Bruno Peron Loureiro
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O tema do petróleo veicula-se com animosidades, discursos e paixões. Em se tratando de um recurso natural imprescindível ao modelo de desenvolvimento capitalista em vigor, convencionaram-se posições no ranking mundial em função do potencial de “ouro negro” que cada país possui ou da produção de barris por dia. A descoberta da reserva de Tupi na costa brasileira, onde ninguém precisou ainda a quantidade que aguarda exploração, tem provocado reações distintas no mundo, comentários ácidos ou celebrativos pelos maiores produtores na América Latina (México e Venezuela), deduções, incertezas e especulações.
As notícias mais otimistas vêm dos países de maior desenvolvimento econômico. Divulga-se em jornais europeus que o Brasil se situa, com as descobertas recentes, entre os oito maiores produtores do mundo e, assim, deixa de ser líder regional para ocupar posição de destaque no globo ao lado de países como China, Índia e Rússia. Alguns deles não se destacam pela produção de petróleo, porém. Das especulações, algumas são tão preocupantes quanto divertidas, como a de que os Estados Unidos já cogitam transferir navios para vigiar o trabalho marítimo de extração de petróleo no Brasil. Desse jeito, logo Hollywood lança um filme onde os famigerados terroristas ameaçariam a infra-estrutura da Petrobrás e os Estados Unidos seriam convocados para investigar o caso. |
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| DEDO NA TOMADA / Bruno Peron Loureiro |
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Como o Brasil poderá dar continuidade ao desenvolvimento se não resolver alguns problemas básicos de infra-estrutura?
O debate sobre a energia elétrica, quem e como deve investir nela, tem sido marcado pelo equívoco de dicotomizar a relação entre Estado e iniciativa privada, como se um dos dois fosse o ente demoníaco ou o salvador, e pela falta de planejamento em geração e transmissão, que digo que é o principal. Os efeitos são estagnantes para o país. É a mesma coisa que tentar dirigir sem o volante ou andar de bicicleta sem os pedais.
O Brasil é um país invejado em vários aspectos, porém assento no da riqueza em recursos naturais. Nosso país tem um potencial hídrico e uma capacidade instalada em hidrelétricas, que é aqui a principal fonte energética, de fazer outros países questionarem por que não foram eles presenteados com essa dádiva. O Brasil também desenvolve tecnologia própria. Aqui se alude ao tema da energia elétrica como a que tem carro, mas falta bom motorista, ou tem bicicleta, mas falta quem saiba pedalar. |
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| CIRCOS E FESTAS INFANTIS / Bruno Peron Loureiro
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Fazia tempo que eu não ia ao circo. Convidei vários amigos, mas só um topou. Os demais disseram que já tinham passado desta fase. Encaramos a experiência. Era domingo à tarde. Ficar em casa vendo televisão? Não tínhamos nada a perder.
Chegando lá, compramos o ingresso, passamos pela portaria e logo já se notava a atmosfera contagiante da abóbada circense. Música alegre, palhaços, vendedores ambulantes de doces compunham a cena. Um lugar mágico em que se reúne a família e as crianças veem o encanto da vida. Sob a lona colorida, presenciam-se instantes de regozijos extraordinários ou que faltam à vida lá fora.
Quando começou o espetáculo e era hora de os palhaços entreterem a platéia, não deu outra. Eu ria mais intensamente que algumas crianças ao redor que assistiam pasmadas. Umas sorriam, outras franziam a testa; havia os que escondiam a cara e nem queriam saber. Eu dava gargalhadas.
Que mal tem em que uma criança tenha algo de senil ou um adulto algo de infantil? Jovens carrancudos são tão comuns quanto velhos graciosos. A vida está para ser contemplada, experimentada e compartilhada. |
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| A PICARETAGEM DO “BUY AMERICAN” / Bruno Peron Loureiro
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Como se não bastassem as invasões dos Estados Unidos a outros países com o pretexto de acabar com armas de destruição em massa jamais encontradas e os discursos hipócritas a favor da abertura de mercados na economia mundial, este país conseguiu esgotar qualquer possibilidade de confiança no que dizem e fazem após o estabelecimento do “Buy American”. Essa foi demais.
Trata-se de uma cláusula no plano de estímulo econômico do presidente Barack Obama que tem deixado de cabelos em pé até mesmo vários representantes empresariais e políticos dos Estados Unidos porque promove a compra de produtos e serviços nacionais em detrimento dos importados, o que poderá causar uma retaliação de países prejudicados com a medida protecionista e aprofundar a crise.
O objetivo do plano é mais que manter e criar empregos como apregoam os beneficiados. É o de evitar que quebrem grandes empresas estadunidenses e de proteger seus empresários num país que põe o consumismo sobre a integridade do ser humano. Obama faz o jogo do país que tem o padrão de desenvolvimento econômico mais destrutivo do mundo que ele respirou fundo e adquiriu coragem para presidir. |
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| OS MUPPETS E O BRASIL / Bruno Peron Loureiro
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Nenhum outro programa de televisão, por mais mirabolante que seja, despertou-me tanta atenção e encanto como a série “Os Muppets” ou “The Muppet Show” do nome original. Sempre me apressava para sintonizar o canal e vislumbrar os novos episódios na minha infância. Punha a almofada no chão e me acomodava nela. O atrativo era a combinação entre bonecos e seres humanos na mesma cena, que usurpavam o mundo um do outro e confeccionavam uma interação inovadora naquele momento. Fantasia e realidade, imaginação e concretude se confundiam com a atuação dos personagens Caco, Piggy, Fozzie, Gonzo, Animal, entre outros.
E o que esta série tem a ver com o Brasil se nem havia sido criada aqui? O paralelo que traço parte do cenário realista pressagiado por uma professora de português que tive, aos catorze anos, ao afirmar diante dos alunos em uma de suas digressões: “Vocês vão ver cada coisa lá fora...”. Nunca mais esqueci este alerta. Ele teve impacto. A escola é um ambiente de harmonia artificial entre fantasia e realidade. Mais ainda na infância. O que prescrevem as apostilas são frases soltas sobre um mundo em conflito permanente. |
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| A RAZÃO DO VANDALISMO / Bruno Peron Loureiro
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O que faz alguém praticar atos de vandalismo? Estas ações criminosas partem somente das camadas mais pobres da população? É justo que um indivíduo ou um grupo destrua e manche com o pretexto de que se manifesta a favor de alguma causa? O vandalismo é só aquilo que se pratica contra bens públicos? Existe uma maneira de combater esta prática predatória no Brasil, ainda que contemos com instituições débeis de segurança pública?
A maneira mais eficiente que encontrei para esta discussão é a formulação de perguntas, uma vez que queremos saber o que é o vandalismo, o que induz a praticá-lo e como se reduzem os números desta atividade que provoca o desgosto na população. A intervenção de psicólogos tem sido proveitosa para conhecermos o assunto, porém o desacordo a que chegam é o de que há várias explicações para atos vândalos.
O pichador não costuma ser o mesmo que destrói o assento do ônibus, pois seguem motivações distintas. A definição de vandalismo é difícil de alcançar porque o que é arte para um não passa de depredação para outro. Entre vários exemplos: certas manifestações de pichação ou destruição de janelas de ônibus, monumentos, banheiros e telefones públicos, sinalização viária, lixeiras e pontos de ônibus. |
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| A SAÚDE E A IMAGINAÇÃO / Bruno Peron Loureiro
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O dilema da saúde no Brasil apresenta-se entre o Sistema Único de Saúde (SUS), que se deteriora pelo corte de gastos públicos e pressão de lobistas (grupos que influem os servidores públicos a favor de seus interesses), e o sistema privado que, entre outras demonstrações de que a saúde não é objeto de leis de mercado, aumenta o preço dos planos proporcionalmente à idade ou cancela a prestação de serviços para idosos. No fim, esta balança pesa mais de um lado porque, quando o cliente mais precisa, o plano tira o corpo e sobra para o SUS fazer tratamento de doenças para as que aquele não oferece cobertura.
Tive duas motivações para escrever este texto: uma é a leitura de um foro de discussões sobre a saúde pública no Brasil e outra, de um artigo que recomendava aos detentores de planos de saúde usar artimanhas para agendar consultas mais rapidamente, uma vez que o agendamento pode levar meses quando se trata de convênio e ser no mesmo dia quando particular. Na primeira situação, notei o descontentamento unânime com as seguridades pública e privada no setor, enquanto, na segunda, uma dica de como degradar-se para conquistar objetivos, entre os quais está mentir que é particular e no momento da consulta dizer que é convênio. |
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| AS ETIQUETAS / Bruno Peron Loureiro
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Acompanhei, dia desses, um amigo enquanto ele passava nas casas de pessoas conhecidas para oferecer produtos que ele traz frequentemente do Texas, Estados Unidos, como bermudas, calças, relógios e sapatos. Ainda se acha que tudo o que vem dos países desenvolvidos é de melhor qualidade e, se puder conseguir por preços mais baixos, leva-se vantagem. Nas sacolas, havia bens de consumo que se vendem nos centros comerciais e lojas de grife dos nossos países latino-americanos por preços até duas vezes superiores aos que ele pagava nos Estados Unidos. Assim, é lucrativo para ele sair da capital mexicana em direção à fronteira entre Tamaulipas e Texas para adquiri-los do outro lado e revendê-los.
Eu não contava com um fato, porém. No momento em que ele esvaziava as sacolas e mostrava os produtos aos clientes, dei-me conta de que a etiqueta do tênis notificava “Made in China”, enquanto a das calças dizia “Made in Bangladesh”, e assim por diante. Não encontrei nenhum produto que tivesse sido feito nos Estados Unidos. Muitos bens que são trazidos dos países desenvolvidos sequer foram produzidos lá, porém essa passagem temporária certifica uma relação de perda de vínculo territorial, divisão internacional do trabalho (redução de custos, terceirização da exploração da mão-de-obra, desencargo de leis trabalhistas), confiabilidade na procedência (enquanto ainda se acredita que o deles é melhor). |
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| FEMINISMO / Bruno Peron Loureiro
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O que faria uma mulher crescer acreditando que é inferior ao homem ou que carece de virtudes que só este tem? É justo que algumas diferenças anatômicas e hormonais coloquem um dos sexos abaixo socialmente do outro? E se tudo o que nos vêm contando fosse o contrário ou a mulher tivesse sido essencialmente idêntica ao homem? Ficção? Nem tanto. É só entender a lógica social do que nos inculcaram abusando da credulidade da infância. Tentarei desfiar algumas destas questões em saídas que têm sido dadas pelo diálogo e ativismo. A questão de gênero (ou sexo) é uma chama cuja intensidade oscila com qualquer sopro. Costuma-se discuti-la a partir de posições apaixonadas. O feminismo expande-se no mundo como movimento social e proposta de reinserção das mulheres.
Desde tempos imemoráveis, a mulher ocupava posição subordinada ao homem. Em algumas comunidades, ela ainda aceita o destino pré-natal de cuidar da casa, receber salários inferiores para a mesma função, ser vítima de abusos e violações, ocupar funções e cargos de destaque somente em ocasiões extraordinárias. As diferenças entre os sexos são quase todas criadas socialmente. É o que explica que a mulher tenha tratamentos diferenciados de acordo com os costumes de cada país. Em alguns, ela não pode mostrar o rosto em lugares públicos e deve usar véu para cobri-lo; noutros, ela tem o clitóris extraído porque os costumes condenam o prazer sexual. |
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| CRISE DA CRIATIVIDADE / Bruno Peron Loureiro
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Chegamos a um momento de crise da criatividade, que se deu após a turbulência de idéias dos séculos anteriores, em especial, das últimas décadas. O que não quer dizer, porém, que é o fim do ser criativo ou que já não é possível mais criar, uma vez que o processo continua ainda que paulatina e surpreendentemente. Parto da premissa de que a criatividade não é a mesma coisa que acúmulo de conhecimentos: aquela tem a ver com a fluidez da imaginação e o uso da inteligência, enquanto este se refere simplesmente ao depósito de informação.
Vamos para os argumentos. As eleições passadas formaram coleções de discursos políticos clichês ou que repetem como papagaio os de décadas ou até séculos atrás se levarmos em consideração os sistemas políticos de vários países. O mais grave é que as propostas, quando existem, quase sempre se amparam em princípios implantados em outro contexto e importados por nosso país sem que se considere necessariamente a realidade em que vivemos. A menos, é claro, que se proponha construir uma ponte ou uma creche em tal bairro, e aqui alguns supõem que haja criatividade.
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