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| DOS PÉS À CABEÇA / João Soares Neto |
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Você poderá ver, de graça, nesta semana da Pátria, na Galeria Benficarte, a mostra “Dos pés à cabeça”. Nessa exposição, a face histórica do Brasil é mostrada. Ela começa no princípio do Século XIX. Nada da face vivida tristemente na Copa do Mundo da África do Sul, meses atrás, em que os pés dos atletas faziam – ou não - a glória da história do esporte de cada país e mexiam com as nossas cabeças. O que está posto é o nascimento da Nação brasileira, surgida, na verdade, com a forçada vinda da família real portuguesa, em 1808. |
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| A MINA E A SOLIDÃO / João Soares Neto |
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O jornalista Alonso Soto escreveu, reproduzindo notícias da Agencia Reuters, sobre as relações humanas entre mineiros soterrados no Chile e seus familiares. Foca bem no caso de Lilianet Ramirez, 51 anos. A notícia diz, mais ou menos, o seguinte: ”Copiapó- Abraçada a um bilhete amarfanhado, escrito a 700 metros de profundidade por seu marido, preso há semanas numa mina, Lilianet redige sua primeira carta de amor em várias décadas”. O bilhete que Mario Gómez, 63 anos, enviou no domingo à superfície, prometendo em breve rever a mulher, comoveu o país. Até então, não se sabia se os 33 mineiros presos na mina de San José, após desmoronamento, estavam vivos ou mortos. |
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| PROPAGANDA GRATUITA? / João Soares Neto |
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Públio Siro, poeta romano, certamente não seria hoje marqueteiro. Ele dizia: “Não prometas mais que possas oferecer”. Ora, o que se quer, independente de partido, coligação ou candidato (a) é gerar no espectador/eleitor um clima que o seduza. A sedução é feita de promessas, da maquiagem de dados, da falsa impressão de que falam livremente. Na frente dele (a)s fica um “teleprompter”, aparelho que dita e legenda suas falas, podendo sugerir inflexões de voz, postura e contração/descontração da face. Assim, são dirigidos como se atores em busca da perfeição na dicção, da simpatia que não tenham trazido do berço ou do entusiasmo que lhes possa faltar. Agências de propaganda transformam os candidatos majoritários em produtos e criam quimeras, rótulos, embalagens e certificados de qualidade. |
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| GENTE QUE CONTA / João Soares Neto |
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Hoje, sexta-feira, dia 20, estarei lançando o livro “Gente que Conta”. Será na Oboé, sete da noite. Você é meu convidado. Não haverá discursos. Conversas informais, regadas a vinho. Devo dizer que gosto de ler, ver e ouvir entrevistas. Daí, resolvi ser entrevistador. Decidi, de princípio, que entrevistaria pessoas notórias, pela singularidade de suas vidas e êxito alcançados. Em Gente que Conta cada entrevistado é universo singular e especial. Todos são cearenses de vida ou de coração. São múltiplos nos fazeres, falares e saberes. Eles têm essência e ritmo. São capazes, ciosos da sua imagem, falam sobre suas vidas, a troco de nada. |
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| CONVERSA AMIGA / João Soares Neto |
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Serão todos sempre os mesmos? Cremos que muito muda com o correr dos passos e descompassos. Somos sempre diferentes no contato com pessoas. Uns são alegres, comunicativos, mas, esses não se apercebem da essência do outro. Como diria um amigo, procuram “tangenciar problemas”. Outros, mais fechados, críticos, entretanto, detendo-se na procura de saber do outro. Os relacionamentos são, muitas vezes, minados. Minados por familiares, amigos e os falsos-amigos, essa grande comunidade semi-invisível existente em qualquer sociedade. É um processo de envenenamento considerado natural, pois comum nas relações ditas sociais. |
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| JORGE TUFIC, OITENTANOS / João Soares Neto |
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Exato nesta sexta-feira, 13, a cidade de Sena Madureira, lá no longínquo Estado do Acre, símbolo da tenacidade de cearenses, sulamericanos e de fenícios que por lá aportaram, nascia há oitenta anos, um menino chamado de Jorge Tufic, aquele que seria o maior poeta da região norte, um rio pleno de sonetos, a jusante e à montante que se fez pororoca, turbilhão e deu com os pés molhados nas águas rionegrinas/manauaras para ali estudar, fincar raízes e, em seguida, receber louros como “O Poeta do Ano”, em 1976, com o veredicto do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Amazonas. |
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| CULTURA E ESCRITOR / João Soares Neto |
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Estamos, eu e Auto Filho, secretário da Cultura do Ceará, a tomar café. A ideia é se montar um arcabouço, diagrama ou projeto do que possa vir a ser um Anuário da Cultura do Estado. Essa é a ideia ampliada do que venho tentando no âmbito da Academia Fortalezense de Letras e de Fortaleza. Tenho falado e escrito ser oportuno identificar os agentes da cultura, independente de serem membros ou não de universidades, instituições ou academias. Sendo Auto, por natureza, filósofo e polêmico, há muito a discutir antes de se tornar prática e objetiva, como é do meu jeito, essa conjunção de pensamentos. O primeiro acerto foi a escolha da Lingüista Karine David, para gerir a ideia, ela que foi a curadora da última Bienal Internacional do Livro do Ceará. |
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| APRENDIZADO DE PAI / João Soares Neto |
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Tentei aprender a ser pai na estrada da vida. Não havia livro que ensinasse nada. O máximo era o “Livro do Bebê”, do Dr. Rinaldo de Lamare. Perdemos o primeiro filho, pouco antes de nascer, em um acidente. Estava no Rio, vim correndo e o levei ao cemitério. Depois, vieram as filhas, a quem amei desde sempre. A todas, levamos ao batismo, tomando parentes e amigos como padrinhos. Participei de todos os pré-natais, estive em todos os partos, até vi. Fui aos maternais para as primeiras aulas, ficando atrás de paredes para que não me flagrassem por lá. Permaneci uma semana com cortinas fechadas em Belo Horizonte cuidando de filha operada. Sofri sozinho, a invasão de minha casa por desvairado que levou, por horas, uma filha como se fosse moeda de troca. Horas infinitas. Tudo terminou bem. |
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| NORDESTINOS PAULISTAS / João Soares Neto |
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Algum político sabido conseguiu instituir a data de amanhã, 02 de agosto, como Dia do Nordestino, em São Paulo. Essa São Paulo, a dever tanto aos nordestinos, “baianos” como lá são chamados. Alguns nordestinos fizeram diferença em São Paulo. O fundador do Instituto Tecnológico da Aeronáutica- ITA, escola de excelência no Brasil, era cearense, o Brigadeiro Casimiro Montenegro Filho. Luiza Erundina, paraibana, prefeita paulistana no fim dos anos 80, saiu limpa, ao contrário de uma colega e outros ex-ocupantes. O maior nordestino de São Paulo é Luiz Inácio, homem que, em São Paulo, gosta de polenta e, quando viaja à sua terra, come panela e baião de dois. |
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| CONVITE URGENTE / João Soares Neto |
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Em determinado dia do meado de 2002 recebo telefonema da Embaixadora do México no Brasil, Cecília Soto. Queria localizar o ex-ministro Ciro Gomes e pedia minha ajuda. Assim o fiz. Tratava-se de convite para encontro reservado, dia seguinte, em Brasília, com o então Chanceler ou Ministro das Relações Exteriores – como se diz aqui - do México, Jorge Castañeda, que tem “expertise” em História da América Latina, sendo professor universitário nos Estados Unidos, mestre em economia pela Universidade de Princeton e doutoramento em História Econômica, na França. |
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| MARKETING E VIDA / João Soares Neto |
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Somos consumidores de tudo: casa, comida, roupas, instrução, transporte, comunicação, cultura e lazer. Compramos por impulso ou após bem pensar? Hoje há uma técnica essencial a influir em nossas vidas, mesmo que não desejemos ou saibamos. Ela é o marketing, sub-ramo da administração científica. Ela passou a ser considerada e levada a sério. É claro que alguns ainda pensam o marketing como mera intuição. Não é assim. Na verdade, as universidades do mundo têm hoje o marketing como um grande chamariz. |
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| POESIA E HERANÇA / João Soares Neto |
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As belas poesias (quem me compra um jardim com flores?) infantis de Cecília Meireles parecem não ter sido lidas ou introjetadas na infância de suas filhas. Cecília tinha talento, publicou obra vária e respeitável. Morreu, mas os poetas viram versos no além. Cá, na terra do aquém ou de ninguém, ficou a família a se apoderar do tesouro, a obra literária de Cecília. Ganharam com ela, mas depois, insatisfeitos com o apurado, brigaram. A justiça foi chamada e a justiça não foi feita. Feia é a briga pública e publicizada por filhas e sobrinhos que, certamente, não versejam e não estão nada prosa para a memória da mãe-tia-poeta. |
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| NOTAS SOBRE JOSÉ SARAMAGO / João Soares Neto |
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Deixei para falar dele agora. Faz um mês, depois de amanhã. Suas cinzas foram espalhadas ao vento, entre a pátria mãe e a ilha calcinada onde voltou a amar, se já o houvera feito. Um homem se fez continente em Lanzarote, na paisagem lunar das Ilhas Canárias. Foi lá onde Pilar Del Rio, jornalista, idade de filha, garroteou-o afetivamente e jogou fora sua sexagenária caturrice. A partir daí, ela seria a coluna a dar sentido a uma vida transformada e oxigenada de um homem solitário e triste. Lá em Lisboa, nas cercanias da Praça Marquês de Pombal, em uma feira de livros, conheci José Saramago, após sua premiação com o Nobel de Literatura, em Estocolmo. Tudo já foi dito sobre esse ateu com fixação em falar sobre religião. Se não o fora, não teria escrito esta frase polêmica definindo a Bíblia: “O maior livro dos maus costumes, o catálogo da crueldade”. |
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| DROGAS E VIAGENS / João Soares Neto |
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O Conselho Federal de Medicina parece não estar contente com a relação de alguns médicos e a indústria farmacêutica. Pausa. Alguns médicos, quase sempre, para cuidar ou se livrar do paciente, prescrevem exames e drogas. Não se fala só dos males crônicos, mas de dor de cabeça que muda para cefaléia, e lá vai a receita. Dor de garganta e tome antiinflamatório ou antibiótico. Acabou a pausa. E, dizem, o fazem entre intervalos de viagem ao exterior para congressos, acompanhar pesquisas de desenvolvimento com novas drogas ou constatar o êxito de outras, já em uso por indústrias multinacionais, sempre generosas em convites para viagens a lugares charmosos, com passagem, hotel, inscrição, ajuda de custo, em eventos de cunho científico. |
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| REGISTRO PESSOAL / João Soares Neto |
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Para quem não sabe, sou canhoto. Nasci em época que ser canhoto era estranho. A escola obrigava a escrever com a destra. Teimei a continuar a escrever com a mão esquerda. No tempo das cadeiras individuais, no colégio e nas faculdades que fiz, sofria para, ao ficar de lado, escrever de minha forma arrevesada. Assim, o Brasil se livrou do péssimo candidato a pianista e a violonista. Estudei até, deu em nada. Mesmo com boa vontade, não passei do sofrível. Ser canhoto me ceifou – penso - de qualquer habilidade manual, inclusive nos esportes. Jogando vôlei, quebrei o pulso da mão esquerda e nunca passei de reserva em peladas de futebol. Era um destrambelhado, pé torto. Um Dunga, digamos.
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| TREM NOTURNO / João Soares Neto |
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Anteontem, 30 de junho, foi dia de eleição presidencial na Alemanha. Vive hoje, situação difícil, como toda a Europa. Está unificada, mas não tem pensamento uno. Faz 21 anos que o pesadelo do muro e da divisão acabou. A Germânia tenta respirar com o pulso forte e a discrição da Chanceler Angela Merkel, luterana, madura e discreta. Ela veio da parte oriental, estudou física em Leipzig, então comunista. Por conta disso, lembrei de um passado distante. Era outono na Europa, então dividida. Viajava de trem, noite fechada e estava perdido. Trocara a palavra ocidental por oriental e me vi a caminho da Berlim proibida, na República Democrática Alemã, no trem errado. |
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| ZERO FUTEBOL / João Soares Neto |
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Grande parte do país entra em férias. É julho. Frio no sul. Enchente no nordeste. Política por toda parte. Futricas em jornais, televisões e rádios. E ainda está longe o besteirol dos programas gratuitos. Gratuitos, uma ova. Quantos ganham os marqueteiros? Produtoras de televisão? Gráficas? Estilistas pessoais? Enfim, os ilusionistas de plantão. Os 192 milhões de brasileiros têm hoje 183 milhões de telefones. É o que se chama hoje de acesso móvel. Será que conversam sobre política? Procuram saber quem são os candidatos, suas fichas? Esperem um pouco, eles logo começarão a ligar para você. Eles ou seus prepostos. Simpáticos, querendo votos. |
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| FORTALEZENSE - NOVOS TEMPOS / João Soares Neto |
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A Academia Fortalezense de Letras está de parabéns e alegre com a aprovação, sem nenhum voto contrário, do novo Estatuto e Regimento da AFL, na presença de 23 acadêmicos, maioria absoluta, à Assembleia Geral Extraordinária, de 16 de junho de 2010. A Fortalezense é uma academia do Século XXI. Não cabe mais se fixar no belo modelo "ancien garde" da Academia Francesa e da notável ABL, a Brasileira. Uma academia não apenas se funda. Ela se constrói no tempo pelas obras de seus integrantes, pelo respeito à sua imagem pública. Cresce com atitudes sociais e culturais definidas, mesmo havendo divergências, no foro adequado. Ela têm fundamentos, projeto de futuro, freqüência habitual, sócios convergentes em torno dela e criação literária.
A criação e funcionamento do aqui diz da nossa inserção no presente midiático, da vontade de ser plural e usar a Internet como veículo auxiliar da difusão da cultura e da informação institucional. Procuramos ser transparentes. A nossa atuação nas duas últimas Bienais do livro mostra que não viemos para coadjuvantes, mas atores no processo de transformação da cultura fortalezense. A Homenagem prestada pela unanimidade dos vereadores da Câmara Municipal de Fortaleza, em novembro de 2009, diz da nossa aceitação e do respeito gerado. Queremos bons acadêmicos nas vagas abertas. |
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| AS COPAS / João Soares Neto |
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Escrevo na quinta. Confesso, não vi nada de excepcional nesta Copa. Tudo igual. Parece jogo eletrônico. A única novidade é o país África do Sul, mesmo desclassificado no futebol, estar sendo desvendado. Gente alegre, cores, dores, problemas e anseios. Não sem quem é o jogador Felipe Melo, com nome de tenista. Procuro a razão do mau humor do Dunga, a ganhar milhões e recrutar uma legião estrangeira sem grande amor à pátria, dizem alguns. São garotos-propaganda de tudo e qualquer coisa. Lamento não entender a razão de jogadores brasileiros usarem brilhantes em suas orelhas.Só se for para afirmar: fiquei rico.
Algumas cadeias de televisão estão cheias do dinheiro de anunciantes bilionários, ávidos pela imagem de cada atleta ou seleção. A maioria dos patrocinadores é multinacional e trabalha por pesquisa e números. Pátria é coisa do passado. O mundo deles é o dos interesses. Dos 23 atletas brasileiros, só três jogam no Brasil. O resto joga e desfila em festas e aeroportos da Europa e, quando chegam, são, via de regra, acompanhados de louras siliconadas em pagodes patrocinados por cervejarias. Confesso ter saudades de Tostão, com sua lucidez e talento. Confesso não ter saudade de Zico, com seu azar. |
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| CINEMA E SUBSTÂNCIA / João Soares Neto |
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Sabem José Augusto Lopes, Miranda Leão e Pedro Martins Freire, entre outros, do meu velho amor pelo cinema. Não o dos blockbusters/ grandes produções, mas o cinema-arte, aquele a nos intrigar pela não obviedade da trama, a identificação precisa dos cânones do diretor, a estética da composição plástica, a marcação dos protagonistas, a iluminação acertada, os cortes, a trilha musical, o trabalho do continuísta, a remontar cenas interrompidas pelos intervalos obrigatórios, causados pela mudança da luz ou estafa do elenco.
Ontem, 19 de junho, foi o dia consagrado ao cinema brasileiro. E o que me alegrou, além da data, foi a lembrança e a honra de um convite recebido. Falo do convite da Editora Valer para ontem participar do lançamento do livro do escritor manaura Márcio Souza, “A substância das sombras – a arte do nosso tempo”, seguido de debate sobre cinema. |
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| PAIXÃO CINQUENTONA - TJA / João Soares Neto |
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Tenho uma paixão cinquentona por ele. Era meninote e me punha a pé da Rua Major Facundo, desde a Praça do Carmo, para lá. Ia com a despreocupação dos enlevados pela oportunidade do encontro. Morava na cidade calma, com 270 mil pessoas, 15.000 “aparelhos telefônicos”, um grande hotel, o San Pedro, cinco emissoras de rádio, um novo e lindo cinema, o São Luiz. Admirava as vitrines da Aba Filme, na Rua Barão do Rio Branco, mostrando as fotos das meninas bonitas da cidade que tomavam lanches no Tonny’s. Era ainda o velho palco, o mesmo de 1910.
Burle Marx não burilara a vegetação hoje ensombrando o lado incorporado da Rua General Sampaio, nem era dele o antigo prédio da escola, depois faculdade, olhando para a entrada da casa da Maria Luiza Rodrigues e o Edifício Lord. Sabia que ele me abriria, como espectador, de alguma forma, as frestas das artes, da interpretação, do canto, da música. Queria apurar sentidos, tinha pressa e curiosidade de saber. |
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| BRUNO, HEPTANETO / João Soares Neto
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É março, cedo da noite, estaciono o carro sobre o asfalto, dou boa noite, passo o portão, entro no elevador e subo quarenta metros. Toco a campanhia, ouço vozes, alegro-me, desde já, com a graça da criança no berço esplendido da simplicidade. "Seja feita a luz e a luz se fez". Beijo-o com carinho e sou advertido. Devo me conter. Deixe para depois, pai. E assim fiz.
Esperei meses, quase coincidindo a data com o aniversário da mãe, quinta comemorado, para anunciar: sou hepta. Sem essa de futebol e copa. Estou louvando a chegada do meu heptaneto. Nada de penta ou hexa, sou heptavô. Luana foi a primeira e Bruno é o sétimo neto. Filho da terceira filha que havia me dado o penta. Chegou a alegria na noite molhada pela brisa marinha alforjando pedras protetoras na curva da avenida. |
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| É Namoro? Não é namoro? / João Soares Neto
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Namorados precisam de data? Ou tudo é decorrente da tal da mão invisível idealizada por Adam Smith? Será? Abro os olhos e vejo as íris resistentes a me mostrarem o espelho fronteiriço. Na constatação do tempo percorrido vem a pergunta sorrateira: qual a razão da data?. Lembram-se do falado na frase inicial? Agora, é ir procurando o caminho dessa estrada enevoada onde a proa e a popa do barco da vida escondem navegantes à procura de respostas à indagação fundamental: o que represento para você se não tenho remos?
Cada par de pernas escolhe as hipóteses do trajeto e, se encontram outras duas pelo caminho e formam quatro no mesmo diapasão, há o que comemorar. O namoro é quando a fulgor acende, nunca quando mitiga. É quando há emoções e se escreve, de novo, uma história de todos conhecida, mas própria, pessoal e intransferível. Há namoro se as mãos se deparam como astros absortos, envolvidas pelo calor dos suores trocados a cada suspiro. Namoros não têm prazo de validade. |
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| HORA DA DECISÃO / João Soares Neto
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Todos os dias somos obrigados a decidir. Fazer ou não exercícios, qual roupa vestir, tomar café ou não, qual rota ou meio de transporte tomar para o trabalho, como melhorar no serviço, como crescer profissionalmente. As decisões podem ser aparentemente automáticas, mas são frutos de processos complexos. Uns, analíticos, racionais. Outros, instintivos ou emocionais. Quase todos têm uma ou mais histórias para contar da decisão certa não tomada ou da precipitação na decisão errada acontecida. Não há regra geral, tudo é casuístico.
Ninguém é totalmente razão, tampouco só emoção. Há um cientista português, reconhecido por seu saber, o professor de Neurociência da Universidade Southern California, nos Estados Unidos, António Damásio. Ele escreveu dois livros sobre o tema: "O Erro de Descartes" e "Sentimento de Si". A redação talvez corrija o prenome dele. Colocará Antônio, maneira brasileira de escrever o nome. Isso é decisão, pois baseada na lógica da língua. Voltando ao Damásio, ele diz: "se a pessoa tem que decidir sobre a sua vida, a sua saúde, as suas relações humanas, a sua educação, é evidente que não toma decisões instantâneas". |
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| A GAIA DE TODOS NÓS / João Soares Neto |
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Como há dia para tudo, convencionou-se: amanhã, 05 de junho, é o dia do meio ambiente. Estendeu-se um pouco mais e surgiu a semana do meio ambiente. E as outras 51 semanas do ano? O problema é saber o real significado de meio ambiente. Você sabe? Será,por acaso, tudo o existente na Terra, menos os animais, entre eles, o bicho homem, o mais predador? Estarei errado ou certo? O universo, seja fruto de um big-bang (grande explosão) ou da criação por uma divindade superior recebeu, por todo o sempre, o reino animal para ocupar a sua esplendorosa natureza.
Essa convivência tem causado estrago. Como não sou ambientalista, etnólogo, geólogo, paleontólogo, geógrafo, agrônomo etc. cuido de ir tentando fazer, do meu jeito, a parte que me cabe neste latifúndio. Economizo água, não deixo luz acesa em ambiente sem pessoa, planto árvores, não jogo nada fora pela janela do carro, faço campanhas educacionais de reciclagens de tudo, converso com jovens, escrevo e faço passar vídeo em cinemas, sistematicamente, sobre a relação ser humano e meio ambiente. |
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| O CAOS URBANO DAS CIDADES BRASILEIRAS / João Soares Neto
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Nós, os que moramos nas grandes cidades brasileiras estamos nos neurotizando pelo tempo perdido a cada dia com engarrafamentos, deficiência e morosidade dos transportes coletivos, invasão crescente dos "flanelinhas", camelôs e distribuidores de panfletos nos cruzamentos. Há a mera e lucrativa implantação de equipamentos eletrônicos para multar, e quase nenhuma solução para a mobilidade urbana. Vou procurar, neste aligeirado escrito, lançar algumas questões, todas em aberto.
Tudo faz crer que prevalece o que foi chamado ainda nos anos setenta pelo Prof. Lúcio Kowarick como a "lógica da desordem". Seria uma variação da Lei da Entropia que derruba o pressuposto de que a evolução da ciência e da tecnologia geram um mundo mais ordenado. Quem ganha com isso? As cidades brasileiras precisam, urgentemente, de arquitetos com nova visão urbanística e de políticos que saibam ver o caos do presente e pensar, com coerência e sonho, o futuro. |
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| PAPO SÉRIO / João Soares Neto
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Domingo é dia de conversa leve. Acordar relaxado, ler o jornal com os pés para o alto e pensar no almoço tardio com a família ou amigos. Acontece que, por ser dia vadio para a maioria, a cabeça fica disponível para pensar e tirar conclusões. Vamos pensar juntos? Será que você vive em um mundo real ou fantasia demais? Um pouco de fantasia não faz mal, mas tirar os dois pés das pedras da vida pode causar problemas.
Sei que você não está nem aí para a tal crise da Grécia. Nem grego falamos. Tampouco se dá conta de que há muitas empresas brasileiras, desde alguns anos, lançando-se na Bolsa de Valores -em queda livre - e trocando papel por dinheiro. Com isso, saem planejando, comprando e entram num eixo sem fim. Há, por exemplo, Brasil afora, centenas de empresas construindo e vendendo imóveis a entregar com prestações iniciais mínimas e prazos longos para pagamento. |
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| CLÁUDIO PEREIRA / João Soares Neto
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A noite de Fortaleza procura em vão por Cláudio Pereira. Os amigos, desolados, sabem que aquele copo de rum com coca-cola não mais adornará as muitas mesas de bares de todos os nossos pontos cardeais. Uma curva má afamada e agourenta, entre João Pessoa e Recife, pensou que, em cortando os movimentos de seus membros inferiores, o aniquilaria. Médicos daqui e de fora, em cirurgias, quedaram-se impotentes diante do quadro real de hemiplegia. Coitados desses médicos que vaticinaram vida breve ao então enfermo. Cláudio riu deles por 37 anos.
Riu quando assumiu a Fundação de Cultura de Fortaleza, por três administrações diferentes, e agitou esta cidade como nenhuma entidade ou pessoa o fizera. Não foram livros não lidos que transmitiam essa cultura, mas o fermento que ele impôs nos múltiplos salões de Abril que regiam a arte com a ajuda do então curador João Jorge Melo, que lamentava a perda do ex-chefe que “tinha o caráter da dignidade, na força da resistência, realizados no sonho de viver”. Não foram discursos barrocos que enchem o vazio de seus autores que Cláudio levou para a periferia. Levou folguedos, músicas e livros acessíveis, palavras curtas de duração e plenas de integração. |
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| URNAS ELETRÔNICAS / João Soares Neto
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Já faz tempo que muitas empresas e pessoas da área de informática e da política levantam dúvidas sobre os sistemas usados na apuração dos votos pelas urnas eletrônicas brasileiras. Muitos fazem uma pergunta simples, ainda não respondida: se o sistema brasileiro é à prova de erros ou de fraudes, quais as razões que não o transformaram em modelo a ser adotado em outros países, especialmente os mais desenvolvidos, que poderiam simplificar o trabalho e ter os resultados mais rápidos, como acontecem no nosso país? Parece que não houve receptividade do mundo tecnológico europeu e americano para os sistemas que o Brasil adota.
A Alemanha até que tentou, parcialmente, nas eleições federais de 2005, o processo de urnas eletrônicas. Entretanto, o Tribunal Constitucional Federal de lá considerou, em 2009, que “um evento público como uma eleição implica que qualquer cidadão possa dispor de meios para averiguar a contagem dos votos, bem como a regularidade do decorrer do pleito, sem possuir, para isso, quaisquer conhecimentos especiais.” Sabem todos que a Alemanha é um dos países mais avançados em direito e, talvez por tal razão, considerou o uso das urnas uma transgressão das leis que garantem o pleito como fato público. |
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| Razão, paixão e bola / João Soares Neto
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Onde andava a minha razão na tarde do domingo passado? Quantas pegadas de paixão medravam este coração acelerado?Como fugir do frêmito das torcidas, se tive a coragem de usar o controle remoto e, em minha oca, vi a TV a conspurcar o silêncio. Iria participar de emoções explícitas em faixas, xingamentos e as dúvidas que precedem o apito final. Foi assim que passei os noventa e tantos minutos, intercalados por comerciais a determinar a volta ao espetáculo, o segundo tempo.
A memória teimava em “flashback”, como se fora um filme ao contrário. Rebobinava imagens do fim da infância e o despertar da puberdade. Estava no antigo PV, no Benfica, a sofrer em outras finais de campeonato. O Fortaleza vencia, quase sempre. O pixote aguentava nesse par de horas as idas e vindas da vândala bola, ora triste, ora temeroso e de coração acelerado. Para, em seguida, a alegria incontida transformar-se em grito com o traspasse da vândala pelo complexo caminho das traves e receber o beijo das redes. |
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| ANO DE TODOS. ANO DA RACHEL / João Soares Neto |
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A Academia Fortalezense de Letras tem participado, presencialmente, de todos os eventos até aqui realizados em comemoração ao centenário de nascimento da escritora cearense Rachel de Queiroz. Estivemos no “O Povo”, quando do lançamento de campanha alusiva à ex-cronista daquele jornal. Posteriormente, a Fortalezense reuniu, em sessão festiva, no dia 11 de abril, seus membros e convidados no Espaço “Não me Deixes” da 9ª. Bienal Internacional do Livro do Ceará, no Centro de Convenções. A AFL, pela segunda vez consecutiva, 2008-2010, logrou esse intento. Reuniu, em público, os seus acadêmicos em uma bienal para jograis, discussões e, certamente, homenagear Rachel. De 23 a este 30 de abril, a Fortalezense e a Secult estão realizando a 2ª. Exposição (a primeira foi ano passado) “Viajando nos Livros”, no Benficarte, no Shopping Benfica, em que Rachel é homenageada. Hoje é o último dia. Ainda nesta semana, no dia 27, a AFL participou da mesa diretora da sessão solene em homenagem a Rachel de Queiroz, no plenário 13 de Maio da Assembléia Legislativa do Estado do Ceará. A sessão foi presidida pela deputada Rachel Marques, autora do requerimento. Na abertura, disse ela que se considerava, tal qual a homenageada, uma fortalezense que adotou Quixadá. Nessa tarde festiva era maior o número e o brilho de quixadaenses que os nativos de Fortaleza. Eles vieram preparados. Encenaram uma breve peça em que Rachel aparece menina, adolescente, mulher jovem e senhora madura. |
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| FICHA SUJA / João Soares Neto |
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Este ano, em 03 de outubro, você vai votar. A Copa do Mundo terá passado. Cessarão pesquisas, debates e comícios. Até lá haverá de tudo para encantar você. Descubra, por si, a oportunidade de escolher candidatos(as) a deputado estadual e a federal, eleger dois senadores(as), um(a) governador(a) e um(a) presidente(a) da República. O horário eleitoral costuma ser quase ficção por conta da capacidade ilusionista dos marqueteiros, das promessas e alianças claras e espúrias. Desde o ano passado um projeto de iniciativa popular, isto é, que brotou da esperança ainda viva do povo, corre na Câmara Federal. Deveria ter sido aprovado em abril, mas há protelação do colégio de líderes e da Comissão de Constituição e Justiça para que, nesta eleição, não seja ainda exigida a tal Ficha Limpa dos candidatos. Nesse caso, você é que deverá descobrir, por sua conta e risco, quem são os(as) candidatos(as) já condenados por crimes de diversas espécies. É sabido que alguns usam o mandato como forma de proteção para os seus desmandos, conluios e delitos. Hoje, só é impedida de se candidatar pessoa já condenada por sentença transitada em julgado, sem possibilidade de recursos. |
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| SOBRE LIVROS E LEITURA / João Soares Neto |
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Participei, nesta semana do livro, de debate na TV Fortaleza. Agradeci a Arnaldo Santos, coordenador, pelo oportuno convite. Falei a Auto Filho, Secretário da Cultura do Ceará, da alegria pela participação efetiva e bem recebida da Academia Fortalezense de Letras na 9ª. Bienal Internacional do Livro. Arnaldo criticou a ausência de políticos na Bienal. Ao meu lado esquerdo, estava a jornalista Adísia Sá, mestra e escritora. Ela é mulher casada com o livro de papel. Argumentei que o livro foi e é o caminho usado por nós, os debatedores, para aprender, procurar entender os fatos do mundo, aguçar o pensamento e transformá-lo em conhecimento, depois de depurado. Lamentei que só 7,0% da população brasileira adquire livros não didáticos. Constatei, por pesquisa do Ibope, que crianças entre 4 a 11 anos passam 5 horas por dia defronte a um aparelho de televisão. Segundo o mesmo IBOPE, 60 milhões de pessoas (adultos e crianças) passam igual número de horas diárias frente às tvs vendo novelas, programas policiais, fofocas, esportes, notícias plantadas e apresentadores apelativos. Relatei, com base em pesquisa nacional de 2009, feita pela Ipsos Public Affair, que mesmo as pessoas que dizem ter algum tipo de atividade cultural, - seja ir ao cinema, teatro, ler, comparecer a shows, dançar em festas e ver exposições de arte - apontam uma baixíssima média anual. Leem 5,1 livros, assistem a 4,1 filmes, vão a 3,8 shows, participam de 3,5 eventos de dança e só vêem 2,1 exposições de arte. Por ano, lembrem. |
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| TEATRO BRASILEIRO / João Soares Neto |
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Ao meu olhar, temos poucos bons autores de peças teatrais brasileiras contemporâneas. A TV engole o teatro, que resiste.No, no meu leigo juízo, lembrei-me do autor de teatro Gerald Thomas, um desses brasileiros que, por ter nome estrangeiro e vivido muito tempo no exterior, sempre corre o risco da perda de identidade cultural. Aqui e lá. Ele foi e é polêmico e, nos anos noventa, criou peças loucas Depois de se separar de sua parceira, Daniela, foi companheiro da atriz Fernanda Torres, filha de Fernanda Montenegro. Em uma das peças (The Flash and the crash days) que montou em 1993, em São Paulo, Gerald usou, esta a palavra correta, as duas fernandas em cena sugerindo quase sexo explícito entre filha e mãe. Fiquei aturdido. À época, neste mesmo DN, escrevi artigo sobre a peça e concluí dizendo: “Lembro que, ao sair do teatro, tive a coragem de perguntar a espectadores se haviam entendido a peça. Disse ainda, quem tiver entendido levante a mão. Todos riram e ninguém levantou um dedo sequer”. Na verdade, o que ele fez nessa e em outras produções foi uma espécie do teatro do absurdo, sem Ionesco. |
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| SOBRE LIVROS E LEITURA / João Soares Neto |
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Participei, nesta semana do livro, de debate na TV Fortaleza. Agradeci a Arnaldo Santos, coordenador, pelo oportuno convite. Falei a Auto Filho, Secretário da Cultura do Ceará, da alegria pela participação efetiva e bem recebida da Academia Fortalezense de Letras na 9ª. Bienal Internacional do Livro. Arnaldo criticou a ausência de políticos na Bienal. Ao meu lado esquerdo, estava a jornalista Adísia Sá, mestra e escritora. Ela é mulher casada com o livro de papel. Argumentei que o livro foi e é o caminho usado por nós, os debatedores, para aprender, procurar entender os fatos do mundo, aguçar o pensamento e transformá-lo em conhecimento, depois de depurado.Lamentei que só 7,0% da população brasileira adquire livros não didáticos. Constatei, por pesquisa do Ibope, que crianças entre 4 a 11 anos passam 5 horas por dia defronte a um aparelho de televisão. Segundo o mesmo IBOPE, 60 milhões de pessoas (adultos e crianças) passam igual número de horas diárias frente às tvs vendo novelas, programas policiais, fofocas, esportes, notícias plantadas e apresentadores apelativos. Relatei, com base em pesquisa nacional de 2009, feita pela Ipsos Public Affair, que mesmo as pessoas que dizem ter algum tipo de atividade cultural, - seja ir ao cinema, teatro, ler, comparecer a shows, dançar em festas e ver exposições de arte - apontam uma baixíssima média anual. Leem 5,1 livros, assistem a 4,1 filmes, vão a 3,8 shows, participam de 3,5 eventos de dança e só vêem 2,1 exposições de arte. Por ano, lembrem. Argumentei, citando o crítico literário José Paulo Paes que lutava, entre outras coisas, pela facilitação da leitura e escreveu o ensaio “Por uma literatura de entretenimento (ou: o mordomo não é o único culpado)”, no livro “A aventura literária”. |
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| HOJE NA BIENAL / João Soares Neto |
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Este artigo é um convite especial para você, leitor(a). Hoje, domingo, às 11 horas, no Espaço "Não Me deixes", no Hall Central do Centro de Convenções, a Academia Fortalezense de Letras realiza sua segunda sessão em bienais do livro. Vá, esperamos por você. Será uma forma simples, leve, audaciosa e manifesta de aproximar uma nova academia do público que se pretende ver em eventos literários. Sabemos que tradições devem ser respeitadas, mas urge oxigenar a cultura, dando ênfase na comunicação entre os que escrevem e os que leem, ainda que não sejamos sábios ou expoentes no que fazemos. Livro sem leitor é cadeado sem chave.
Nessa reunião, o professor de literatura brasileira, Carlos Augusto Viana, falará sobre a obra literária de Rachel de Queiroz, enquanto o escritor José Luís Lira dirá de sua amizade - na varanda sertaneja - com a já então madura autora de "O Quinze". Teremos a presença benfazeja de jovens integrantes de academias estudantis, que apoiamos. Tudo girará em torno da comemoração do centenário de nascimento de Rachel, patrimônio imaterial de todo o Estado do Ceará e, especialmente, da fortalezense cidade, onde nasceu e mantinha pouso. Se puder, dê um pulo lá, vale a pena, acredite. Vocês estão convidados a comparecer, não só a essa sessão, mas a todos os eventos da 9ª. Bienal Internacional do Livro do Ceará, aberta na sexta e que vai até o dia 18 próximo. |
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| CLÉBER AQUINO / João Soares Neto |
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Imaginem um menino tipicamente cearense, criado no interior, que, de repente, vem para a capital e, nela, descobre-se capaz de sonhos e realizar objetivos. Este era Cléber Aquino que se tornou administrador, professor e consultor de empresas. Cléber faleceu na última sexta-feira, 02 de abril de 2010, em sua residência de Fortaleza. Ele se dividia, há mais de 40 anos, entre São Paulo e o Ceará. Morreu como gostaria, lendo. Um fulminante infarto o levou, manhã cedo, logo após pronunciar: Ana Maria. Cléber, nascido em Maracanaú, formou-se pela então Escola de Administração do Ceará, hoje curso da Universidade Estadual do Ceará-Uece e, em seguida, foi para São Paulo onde concluiu mestrado e doutorado na USP-Universidade de São Paulo, da qual se tornou professor. Era casado com a Sra. Ana Maria Cavalcante Aquino e realizava há mais de 20 anos, entre outros projetos, o Programa História Empresarial Vivida. Esse programa consistia em uma reunião mensal na hora do café da manhã, onde convidados de múltiplas profissões e atividades afins ouviam palestras de autoridades, professores, empresários e intelectuais, quase sempre de São Paulo. Após as palestras, eram realizados debates. Tudo era gravado, transcrito e entregue em apostila na próxima palestra. Por outro lado, Cléber Aquino reuniu, em livros, vários depoimentos de empresários paulistas e cearenses que, no seu pensar, mereciam contar suas histórias pessoais e profissionais, de superação e sucesso. Rigoroso, quanto a horários, Cléber, viajado e interlocutor de grandes dirigentes de empresas, mantinha uma relação peculiar com a classe empresarial. |
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| PÁSCOA OU FERIADÃO “SANTO”? / João Soares Neto |
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Os judeus acabaram de comemorar a sua páscoa (Pessach), a festa em que celebram a libertação do jugo do Egito, de onde fugiram para o chão hoje chamado de Israel. Segundo a História, eles, os judeus, foram os algozes de um seu patrício, Jesus, filho de José, um dissidente político ou da fé que professavam. Agora, nesta semana, somos nós os cristãos ocidentais, que temos a Semana Santa que ficou reduzida, para muitos, a um grande feriadão que começa na quinta e vai até domingo. Para os que realmente crêem e professam a fé cristã, especialmente os da Igreja Católica, a de Roma, esta semana seria mais que isso. Ela se prenderia a um ritual litúrgico em que é contada, vivificada e celebrada a paixão de Jesus Cristo, isto é, o seu julgamento sumário pelos judeus, os passos que o levaram até o monte do Gólgota, onde foi crucificado ao lado de outros dois réus. A cruz ou a viga transversa em que foi pregado ou amarrado fazia parte do processo macabro pelo qual os condenados deveriam passar, antes da morte, por atos de vergonha e tortura, expiando, por flagelação, as faltas cometidas e não perdoadas pelo Sinédrio. O Sinédrio era um conselho ou assembléia formada por julgadores ou juizes com a capacidade de decidir, em conjunto, os problemas gerais das cidades. |
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| LENÇÓIS / João Soares Neto |
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Neste domingo de Páscoa, os que se acreditam cristãos acordam para o cumprimento de atos religiosos ou curtir o que sobra do feriadão começado na sexta-feira. Acordam em camas, redes, macas hospitalares, enxovias e tiram de sobre os corpos o que usam como lençóis. Podem ser de seda pura, linho de poucos ou muitos fios, algodão, fibra, trapo, plástico ou meros papelões. Quase todos usam algo para cobrir-se como se fosse um manto protetor ou mero aquecedor do frio da alma ou do corpo. A natureza, especialmente nos trópicos e em outros lugares do mundo, nos presenteou com dunas de areias, verdadeiros lençóis. O mais famoso deles, para nós brasileiros, é do estado do Maranhão. A formação peculiar dos Lençóis Maranhenses é um imenso mar de dunas com areias atipicamente frias, entremeado de pequenas lagoas dando à paisagem um belo e quase lunar espetáculo geológico. É provável que neste dia da Ressurreição milhares de pessoas estejam saindo de seus lençóis, orando, bebendo ou passeando em dunas que formam os tais lençóis ou ressurja em revistas, jornais ou tvs a história do Santo Sudário, pano que teria coberto, após a crucificação, o corpo mutilado de Jesus Cristo. |
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| TERREMOTOS E O FUTURO / João Soares Neto |
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“É necessário reunir tudo aquilo que a imaginação consegue conceber de mais terrível para representar, ainda que precariamente, o horror em que as pessoas se vêem quando a terra se move sob seus pés, quando tudo ao redor vem abaixo, quando a água agitada em seu leito completa a desgraça com inundações e quando o temor da morte, o desespero pela perda total de todos os bens e, por fim, as visões de outras misérias arrasam mesmo o ânimo mais resistente. Uma tal narrativa seria comovente e, por ter um impacto direto sobre o coração, talvez possa torná-lo melhor. Só que eu deixo essa história para mãos mais capazes.” A descrição parece de um jornalista atual sobre os terremotos do Haiti e do Chile, mas foi feita por um filósofo, Emanuel Kant, em 1755, sobre o grande terremoto de Lisboa. O texto faz parte de ensaio do prof. Marcus Mazzari para o “Mais”. O que se pode ver é que o alemão Kant, o autor das críticas da razão pura e da razão prática, fala em “impacto direto sobre o coração”. Dessa forma, deduz-se que alguns filósofos são, além de pensadores, plenos de sentimentos. Das cinzas e escombros do terremoto de Lisboa emergiu a figura do Marquês de Pombal, o reconstrutor e gestor do novo traçado urbano da cidade e parte da instrumentação legal portuguesa. |
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| AGENDE A BIENAL DO LIVRO EM ABRIL / João Soares Neto |
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Ouvi, com atenção, as apresentações de Karine David e Auto Filho sobre a próxima Bienal do Livro do Ceará, em abril, homenageando Rachel de Queiroz. Será a nona. Uma bienal não é um evento para seres iluminados, é para todos os da América Latina. Os que amam os livros, para os que não têm medo de livros e, especialmente, os que não sabem responder a esta simples pergunta: O que você está lendo? Plínio, o Velho, escritor latino do tempo de Cristo, já dizia: “Nenhum livro é tão ruim que não possa ser útil para alguma coisa”. Sim, os livros servem para muitas coisas: estudo, entretenimento, cultura, ajuda etc. Para quem tem vida interior profunda, o livro é um bálsamo. Aplaca a solidão, fortalece o espírito, forma, informa, analisa, questiona e aponta saída. É claro que nós todos, desde cedo, tivemos que ler por obrigação, para sairmos da escuridão do analfabetismo. Depois, para perceber a linguagem, fazer contas, saber história, localizar-nos no mundo e crescer como estudantes. Mais tarde, decidimos o que fazer de nossa vida, o caminho a seguir. E aí os livros vão mostrando a nossa tendência, a vocação, o desígnio para o qual viemos ao Mundo. É claro que os leitores sabem de tudo isso, mas não há tempo, mesmo que percorridos todos os caminhos, para deixar o livro de lado. Os jornais são livros com um dia de duração, expressam múltiplos aspectos da sociedade. |
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| SÃO JOSÉ, A IGREJA E AS CHUVAS / João Soares Neto |
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A Igreja Católica tem certos paradoxos, dogmas ou dilemas difíceis de serem entendidos por mim. A fé seria a resposta. Há uma pequena frase atribuída a Santo Agostinho, mas que é de origem desconhecida: “Creio por ser absurdo” (Credo quia absurdum). São Paulo, na epístola aos Hebreus, XI, 1, dizia: “A fé é a substância das coisas esperadas, e o argumento de coisas que não se vêem”. Einstein, judeu e cientista, falava que a “A ciência sem a religião é manca, a religião sem ciência é cega.” Assim, qual a razão de Maria, mãe de Jesus, ser tão celebrada, reverenciada e amada e de José, seu marido – com quem não coabitara, mas assumiu a paternidade de Jesus - ser tão pouco festejado? Hoje, 19 de março, é o dia escolhido para homenageá-lo. Ele, São José, é o padroeiro do Ceará, terra tão desértica quanto à região da Palestina/Israel onde, segundo a História, habitaram Maria, Jesus e José. O Ceará ainda é uma terra de Josés, os que acreditam na redenção que virá das águas das chuvas ou dos rios, do plantio de subsistência e da precária escola freqüentada por seus filhos, para não serem tão pobres quanto eles. Voltando ao fio da meada: Dessa forma, a Igreja assumiu uma face mariana, a divulgação pelo Novo Evangelho de que uma mulher pura teve um filho concebido sem pecado pelo Espírito Santo. José, na sua visão de velho carpinteiro, não entendeu a razão de Maria estar grávida, pois relação não houvera. Veio o sonho e lhe foi dito que aquilo era uma graça e obra do Espírito Santo. |
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| CIDADES INOVADORAS / João Soares Neto |
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Como bato pernas por aí afora e tive experiência na condução de planos de desenvolvimento urbano de cidades, quando existia o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo- Serfhau, cismo com a quase paralisia do Estado e das cidades brasileiras em face do já consagrado e usado em todo o mundo. Exemplos? Quase não temos trens metropolitanos. Um país perto de 200 milhões de habitantes tem rede de metrôs similar a da cidade de Nova Iorque. Está certo? E ferrovia nacional existe? Um país com costa imensa e várias bacias fluviais não pode ter no transporte rodoviário, usando estradas de baixa qualidade, a sua base logística. Portos são entrepostos de riqueza, por qual razão não os temos em maior escala? Os aeroportos brasileiros estão, pelo menos, dez anos atrasados em relação às operações do hemisfério norte. Como vamos querer turistas de qualidade se não temos capacidade de bem recebê-los? Cidades são atrações, desde que as tenham e mostrem. A maior circulação da riqueza existe por conta das cidades. Nas grandes cidades vivem mais da metade da totalidade da gente. E elas estão envelhecidas por falta de ousadia. |
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| JOSÉ MINDLIN / João Soares Neto |
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As pessoas que admiro são, quase sempre, mais velhas. Desde jovem, tive o prazer de conviver com os de mais idade. Elas nos enriquecem com suas sabedorias e até as rabugices. A minha referência de velhice sempre teve um marco: velho é que tem 20 anos a mais que eu. Agora, por circunstâncias, diminui para 10. José Mindlin, desde há muito, foi uma dessas pessoas. O admirava como empreendedor da Metal Leve, indústria de sucesso. E passei a admirá-lo mais a partir do dia em que decidiu vender a sua empresa e dedicar-se, integralmente, a seu amor eterno: os livros. Mindlin morreu no último sábado, 28 de fevereiro aos 95 anos. Um detalhe chamou a minha atenção: a TV a cabo, Globo News, reprisou, sábado e domingo, por 04 vezes, uma entrevista que ele concedera em sua biblioteca em 2006. Falava, entre outras coisas, da doação de parte de sua biblioteca, a denominada Brasiliana, composta de 17 mil títulos e 40 mil volumes para a Universidade de São Paulo, onde se formou em direito e conheceu Guita, sua mulher. Na segunda, a Folha de São Paulo, na sua manchete, fala no bibliófilo, mas o texto que acompanha sua foto, o identifica como empresário. Ora, não há impeditivo de um empresário ser bibliófilo. Não há também nada que o impeça de ser intelectual. |
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| CINCO MULHERES / João Soares Neto |
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Deixem que misture a luz da razão e invoque sonhos. Neste sonho, agora acordado, vejo o transcurso( em ordem alfabética) das vidas de cinco mulheres. Mulheres de Bem. Primeira:Ana Studart, mulher que se uniu a um jovem destemido e soube, por prova provada, que a vida é uma roda gigante. Acompanhou-o em todos os passos com amor, serenidade e companheirismo. É mãe de quatro filhos, senhores de seus destinos, que têm nela a âncora de seus passos. Foi a profissional de administração que cumpriu, com responsabilidade, tarefas no serviço público. Recentemente, veio ter nas águas difíceis da benemerência, procurando distinguir doação de ação social. Soube que isto implica em integração com o próximo. O que vale é o ato de doar-se, de engajar-se, de interagir com pessoas que merecem suas benesses. Segunda: Imaginem uma jovem normalista da Rua da Assunção, filha de Pio Rodrigues, sendo cobiçada por galante paraibano que aqui se instalara com talento e capacidade inovadora para, passo a passo, se tornar referência no comércio e na direção de entidade classista. Pois foi assim. Clóvis e Edyr Rolim descobriram-se e uniram-se para o sempre. |
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| DESASSOSSEGO / João Soares Neto |
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Lamento. Não queria estar escrevendo sobre violência e morte. Bastam os jornais e os programas policiais de muitos ouvintes e telespectadores. Queria dizer aos que andam pelas cidades brasileiras que estão seguros. Queria dizer que jovens se recuperam, se reclusos por delitos. Queria dizer que os órgãos públicos dão combate eficaz à delinqüência e assistentes sociais e psicólogos se sentem vitoriosos com a mudança de comportamento de imberbes membros de gangues. Queria que todos entendessem que favelas não são lugares de delinqüentes. A delinqüência está em todos os níveis e lugares. Queria acalentar pais, pobres ou ricos, que perdem filhos como assaltados ou assaltantes. Queria, mas não sei como. Dizia o filosofo alemão Shopenhauer que a vida não existe para ser aproveitada, mas para ser suportada. Assim, nós suportamos ler nos jornais todos os dias os assaltos, mortes e violências por gangues alimentadas pelo “crack”, maconha e outras drogas. Precisam ficar espertos para agir. E, por trás dessas gangues, existem fornecedores e cobradores das drogas. |
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| DE REPENTE / João Soares Neto |
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De repente, saio do trem moderno, executivo – garçons, acepipes e jornais- sóbrio em seus detalhes pertinentes e jogo meu corpo amigo em outro comboio elétrico, velhusco, poltronas simples e gastas. Ar de dever cumprido. É cedo da noite. A vidraça do tempo leva-me em um quase sacolejar para a imersão consciente em outras eras quando a vontade de vir e conhecer me guiara desde o Cais de Sodré até Narvik, lá na calota do norte, com muitas paradas de permeio. Agora, décadas depois, escolho o imprevisto e me visto de jovem sem destino. Cato identidades, fé e fulgores em lugares repassados e novos. Não miro o destino, saboreio o percurso e os nomes das estações mostram que tudo se move. Aqui, uma casinhola com tijolos carcomidos pela infiltração onde a hera descuidada divide a paisagem com a gorda senhora à janela. No pasto, cordeiros se unem para banir o frio e não balir. Ali, a moderna indústria está cinzenta pelo tempo frio e os salpicos das chuvadas não param de cair. Há luz feérica. Trabalham na noite. Operários usam equipamentos de segurança e se aquecem em grossas vestimentas enquanto constroem o futuro, quem sabe, em aço ou tecnologia. Após, um grande pátio abriga milhares de carros novos, encalhados. O compasso muda e cruzamos uma ponte. Do lado esquerdo diviso pela grande janela a berma do rio com a seqüência de grandes árvores, troncos pintados de branco, decepadas em suas copas. |
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| CALDO DE CANA / João Soares Neto |
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Li em jornal recente que caldo de cana pode causar a doença de Chagas. Na verdade, talvez não seja o caldo de cana, mas seu manejo primário, desde o plantio, possa transmitir a doença. Agora, há pouco, estava a esperar a abertura do semáforo, em trânsito bloqueado por carreta, enquanto um prosaico vendedor de caldo de cana tentava, na esquina movimentada, esmagar os já não suculentos bagos que produzem a sacarose tão apreciada. Olho para os detalhes do carro ambulante e vejo que, sobre uma precária estrutura de ferro, foi montada uma moageira acionada por pequeno motor a gasolina. Esse motor traciona uma correia a fazer girar os dentes serrilhados que produzem, por pressão, o esmagamento. Entre o chassis do carro, equilibrado sobre duas rodas e um suporte de ferro que forma um tripé e a “plataforma de vendas”, há um depósito onde repousam as canas cortadas. Alguém, certamente, falou em higiene para o vendedor. E, por conta disso, ele usava um par de luvas plásticas que serviam também para acionar o motor, que rateava, e fazia a correia deslizar. A mão direita foi ao encontro da correia, enquanto a esquerda segurava o copo descartável aguardando o sumo. |
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| ENCONTRO ACIDENTAL / João Soares Neto |
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Andava eu pela orla em horário que não o de costume. Manhã alta, sol derretendo. De repente, vejo alguém que me parece íntimo. Fazia flexões de pernas amparado em um poste. Tal como o faço. Apresto o olhar, reflito e concluo que já o vi em solenidades, televisão e jornal, mas nunca havíamos falado. Em dúvida, perguntei-lhe o nome. Confirmou, com simplicidade. Era quem pensava. Estávamos de calção e camiseta. Somos da mesma década e, por conseguinte, imaginamos saber algo do Brasil desde muito tempo. Cada um com seu olhar. Carregava uma garrafa de água na mão direita e nada na cabeça suada que sofria com o sol. Recomendei que usasse um boné. Responde que o perdera no último vôo. Enveredamos pelas sendas que mais gosta: política e Brasil. Fomos de fio a pavio. Do que fizera, do que deixara de fazer e como se sentia hoje na vida que não planejara. Impuseram-na e tiraram-lhe a legitimidade necessária para estar, quem sabe, no lugar dela nesta pugna de 2010. Apesar disso, estará junto para o que der e vier. Sua voz ainda traz o jeito mineiro do interior, não o erudito dos personagens modernistas de João Guimarães Rosa, em “Primeiras Estórias”, mas, quem sabe, o da simplicidade da linguagem de Fernando Sabino. |
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| CIDADES INOVADORAS / João Soares Neto. |
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Como bato pernas por aí afora e tive experiência na condução de planos de desenvolvimento urbano de cidades, quando existia o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo- Serfhau, cismo com a quase paralisia do Estado e das cidades brasileiras em face do já consagrado e usado em todo o mundo. Exemplos? Quase não temos trens metropolitanos. Um país perto de 200 milhões de habitantes tem rede de metrôs similar a da cidade de Nova Iorque. Está certo? E ferrovia nacional existe? Um país com costa imensa e várias bacias fluviais não pode ter no transporte rodoviário, usando estradas de baixa qualidade, a sua base logística. Portos são entrepostos de riqueza, por qual razão não os temos em maior escala? Os aeroportos brasileiros estão, pelo menos, dez anos atrasados em relação às operações do hemisfério norte. Como vamos querer turistas de qualidade se não temos capacidade de bem recebê-los? Cidades são atrações, desde que as tenham e mostrem. |
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| ELANO PAULA / João Soares Neto |
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Todos desejam chegar lá, mas poucos admitem quando atingem. O relativismo do tempo dá ímpeto para aceitar um quase, mas com resistência. Uns fingem. Outros procuram ocultar os sinais com ajustes estéticos e a maioria teima em dizer: não sou. Primeiro, vieram os antibióticos, o saneamento básico melhorou, a engenharia ajudou a ciência médica a fazer sua parte e a consciência social resultou em cuidados que prolongam a existência. Hoje, não é raro se chegar à idade limite para a infância do outono, com energia e integridade física. Esse fato é comemorado por uns, mas causa perplexidade a outros. É confinante, para a maioria, o tempo da jubilação e, com ela, a inapetência para o ócio e o medo pelo que virá depois. É o tempo de fazer contas, todos tem esse direito. Findo – para alguns - o tempo de trabalho é preciso manter vida ativa com autocuidados. Decidir as tarefas básicas para a independência pessoal, ter a mente ligada em novos interesses como caminhar ou exercitar-se, reunir-se em grupos e cultivar ou recriar laços familiares e/ou afetivos duradouros. Dizia o escritor J. Renard que “a velhice chega quando se começa a dizer: nunca me senti tão jovem”. Assim, é preciso ir aceitando as limitações com reflexão, dosando energia com prudência, mas certo de que o amanhã é sempre um vir-a-ser e o hoje é o que conta. A mente, com o povoamento de recordações, precisa ser reinstigada para o hoje com ações, boa companhia, leitura de jornal, revista, livro e o maldito ou bendito computador. Estar ligado ao que acontece no mundo dá o sentimento de pertença e isso é quase tão bom quanto uma meta. A atenção real nos relacionamentos neutraliza a ansiedade e ajuda na alegria de viver, pois ela, a vida, não é sonho, dizia o poeta Garcia Lorca. |
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| QUE BICHO É ESTE? / João Soares Neto |
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Ontem levei uma surra de um pequeno objeto. Olhei para ele, empolgado. Design perfeito, palavras no vídeo, luz, cor e som. Toquei-o e pensei que seríamos íntimos. Que nada. Ele me deu um baile. Estranhamos-nos, de cara. Quanto mais tocava, mais ele me irritava. Apertava aqui, ali e acolá e tudo saía ao contrário do que estava imaginando ou esperando. Teve um instante em que quase o agredia. Pensei: tenha calma, João. E recomecei a mexer em suas funções. Ele era a própria pós-modernidade. Continha televisão, rádio Fm, câmera fotográfica de alta resolução, som estéreo, proteção contra roubo, tela colorida, pen drive, entendia muitas línguas, recebia e passava e-mails, tocadores Mp3/Mp4 e capacidade de memória expandida. E eu havia colocado o “chip” do meu antigo e simples celular nele. Eu só queria um telefone. Um que não estivesse arranhado, velhusco,descascado, como o meu. E agora, não conseguia que o novo me obedecesse. Aflito, procurei retirar o tal chip. E o pior, confesso a vocês, é que não sabia mais fazê-lo. Até pedi ajuda. Dois cegos na mesma porta. Estava desconectado do mundo e pensei se estava dependente ou aliviado do celular. Algumas pessoas optam por não pedir ou dar o seu número a ninguém. Assim, são pouco importunadas. Mas, vez por outra, alguém descobre o número e invade o espaço da privacidade sofrida. Não perguntam onde você está, se pode ou se gostaria de falar. Vão entrando no que lhes interessa. |
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| TEMPOS DE BOBAGEM / João Soares Neto |
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Há alguns dias, na festa de lançamento da novela Tempos Modernos, da Rede Globo, acontecida no cine Marrocos, no centro de São Paulo,o autor da trama, Bosco Brasil, subiu ao palco e resolveu agradecer a todos os que colaboraram na sua montagem. Entre informalidades e gracinhas, Bosco Brasil agradeceu a um de seus auxiliares, dizendo – e apontando para ele - mais ou menos o seguinte: “Ele é o único cearense que não trabalha como garçom”. Risadas gerais e até um dos atores secundários falou, em seguida: “A gente não está nem aí para o politicamente correto”. Isso deu na Folha de SP. O problema não é ser ou não ser politicamente correto. O problema é fazer chiste ou deboche com o que se acha engraçado à custa de alguém. A profissão de garçom é uma das mais antigas, dignas e necessárias para o bem estar da humanidade. É bom que cearenses sejam garçons. Pior se fossem marginais ou tivessem desvio de conduta de quaisquer naturezas. Acontece que toda generalização é ridícula, tanto quanto o é o nome “Tempos Modernos” da novela de Bosco, copiado literalmente da tradução brasileira do filme “Modern Times”,rodado em 1936, de Charles Chaplin. Bosco, se não tem imaginação para criar sequer um título original, poderia ter perguntado ao cearense Chico Anysio que performa mais de 300 tipos e não repete nomes. Cria-os. Poderia, por exemplo, saber em que estado nasceram os atuais presidentes do Superior Tribunal de Justiça e do Tribunal de Contas da União ou o atual Procurador Geral da República. |
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| O OTIMISMO DO ROBERTO / João Soares Neto |
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Roberto Gaspar é o próprio Otimismo Itinerante. Vive alegre e circula muito. Gosta de ver e ser visto. Ao vivo e em fotos. Transpondo essa energia para o papel, Roberto é livre, descontraído, amável e sabe embaralhar episódios de sua vida, desde a bacia de picolés comprada com o primeiro dinheiro ganho até vivências em Canoa Quebrada onde se mistura com todos e narra a vida surreal de seu cunhado Rodolpho - “um “príncipe” -; a chegada e a rápida saída de brancosos paulistas; a mulher vendendo óleo de coco, o Raimundo Carpinteiro; a rezadeira e os pais de santo. Ele é ainda, segundo narra, marido apaixonado. Vejam: “Fecho a porta devagar e deixo os anjos a velarem o sono justo da mais linda e mais extraordinária mulher que conheço”. Estar arrebatado de amor em plena maturidade é uma graça e ele extravasa essa alegria em várias partes de suas estórias. Myriam é citada muitas vezes, sempre com amor e carinho explícitos. É paizão e não deixa de citar os filhos, Renata, Adriana, Andréia e Beto, suas outras paixões e acompanhantes de existência/viagens. Multifacetado, não fala só de família e Canoa Quebrada, onde descansa, à beira-mar, o seu corpo nos fins de semana prolongados, admirando o mar e as falésias. Conta conversa com engraxate sobre proeza sexual, viagens ao Quixadá, ao Piauí e se aventura pela Europa, começando pela mãe Lisboa, reza em Fátima, católico declarado que é, segue ao Porto e se deslumbra com Santiago de Compostela. |
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| Lula e a Mensagem / João Soares Neto |
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Vi o filme Lula – O filho do Brasil. Primeiro, pensei que era história verídica. Depois, admiti ser estória romanceada. Em seguida, perguntei-me se não seria o uso da neuro-lingüística (elaboração cerebral da mensagem) transformando-se em programação sensorial do espectador. Cocei a cabeça e vislumbrei a saga de uma “sub-raça”, como o queria Euclides da Cunha ao se dividir entre algoz e alcoviteiro dos nordestinos do interior do Brasil, em “Os Sertões”. Vi algo de Gilberto Freyre com seu “Casa Grande e Senzala” (O Nordeste - de onde saiu Lula - seria a senzala do Brasil do século XX?) e do “brasileiro cordial” de Sérgio Buarque de Holanda (o líder sindical seria um catalisador ou incendiário?).
A mente voou e não sei por qual razão pensei sobre a origem do Mito grego, como caráter explicativo e simbólico da realidade. Relembrei ainda o canadense Marshall McLuhan com o seu livro, em parceria com Quentin Fiore “ O Meio é a Mensagem”, de 1967. É óbvio que o filme é meio e as mensagens são extraídas não só dos diálogos, efeitos sonoros e cenários, mas do que cada espectador é, ou sente, a partir de suas estórias de vida que possam provocar mudanças de padrão na sociedade. Dizem que o filme é político. E qual filme não é? |
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| A PAZ DO SENHOR / João Soares Neto
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As igrejas sempre abrem as suas portas para todos. Agora, nestes tempos, costumam, quase sempre, fechá-las com fortes trancas. Vivemos num templo de violência, o horror nas páginas dos jornais, das rádios e nos noticiários sangrentos da televisão. As igrejas, quando abertas, por seus padres ou pastores, sempre nos desejam a paz do Senhor. E ao sairmos para a rua, nua e crua, desponta o nosso medo camuflado, arrebatando a fé procurada. Vemos-nos encurralados.
O “flanelinha” pode ser ameaça. O motorista ao lado grita porque não lhes damos passagem na hora da sua buzina estridente. Vendedores de tudo nos abordam ou batem no vidro. Passamos do humor natural para o receio, levados pelos crimes acontecidos, sabidos e comentados dia e noite, de todas as formas. Não vivemos mais em cidades livres, triunfantes em suas alegrias notívagas, etílicas ou futebolísticas, mas entre ameaças nos esgueiramos. |
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| CONCURSOS E VIDA / João Soares Neto |
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É grande o número de jovens que, ao concluir os estudos, seja de nível médio ou superior, se lança na luta para passar em concursos públicos. Não é raro se ouvir: “estou estudando para concursos”. Não importa qual seja. Certamente, a carreira de funcionário público é um dos caminhos para milhões de jovens – e de não jovens - que não conseguem ou perderam a ocupação em empresas privadas ou, simplesmente, optaram por ser “concurseiros”. Acontece que os concursos oferecem milhares de vagas e, todos os anos, milhões de jovens adultos procuram trabalho. Um exemplo: um concurso recente oferece 159 vagas e mais de 6.000 as disputam. Os que não forem aprovados terão sentimentos de frustração e, quase sempre, serão cobrados por suas famílias. Enquanto isso, o tempo passa e mais gente entra ano a ano na disputa por um número menor de vagas. Essas pessoas precisam ter foco. Ter foco é saber o que se deseja na vida. A competição é uma espécie de seleção natural fazendo a sua parte. Por capacidade ou sorte cada um faz sua estrada. Assim, anos da fase mais produtiva são gastos em aulas que consistem em aprender a entender ou decorar matérias e assimilar dicas ou “bizus”. É provável estar cometendo equívocos nesta análise rápida. Acontece que a vida não é um bálsamo. Ela é uma constante e infinda luta entre desejos, capacidade e a realidade que nos cobra atitudes. Há alternativas outras, além dos empregos públicos e privados. |
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| Tempo de felicidade / João Soares Neto |
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O Natal e o Ano Novo ensejam trocas de mensagens, telefonemas e contatos pessoais. Em todos, fica claro o desejo – na maioria, sincero – de felicidades para os familiares, amigos, colegas e afins. Da forma como é posta, parece-nos que ficamos com uma carga benfazeja de desejos de felicidades ou, trocando as letras, com uma compulsão de ser feliz. Essa conclusão é uma dúvida que se impõe. Como um chuveiro em que cada gota é um rastro de felicidade a nos molhar. Será que estamos preparados para esse banho de felicidade? Cada um de nós tem, dentro de si, alguém ignorado, guardado a sete chaves, que nos faz duvidar, criticar ou contrariar a opinião que, quase sempre, externamos. Diz o psicanalista Contardo Calligaris que: “no fundo a palavra felicidade é inadequada para representar o que de fato é o ideal das pessoas.” E conclui: “estou absolutamente convencido de que ninguém quer ser contente e satisfeito. Acho que isso não é um ideal para ninguém, não é um ideal cultural possível”. Não concordo com ele, mas admito que o ser humano é por demais complexo para ser rotulado de feliz ou infeliz. Temos momentos felizes, mas há outros, a maioria, em que questionamos essa ideia burguesa do tudo certo, tudo justo, todos felizes. O que nos move é a capacidade de ter anseios, de viver de forma aberta, clara, mesmo que isso nos faça passar do céu ao inferno em pouco tempo. Não há dúvidas de que algumas pessoas aparentam ser mais felizes que outras. Tampouco há dúvidas de que alguns fingem melhor que outros. Todos, enfim, vivem. |
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| O FUTURO CHEGOU? / João Soares Neto
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Estamos em 2010 e é ano de eleição. O Brasil chegou ao futuro? Explico: Stefan Zeig era um escritor judeu austríaco. Em 1936, veio ter ao Brasil. Viajou pelo país e se maravilhou com o que viu. Veio, foi e voltou em 1940. Resolveu pedir visto de permanência e acenou em troca com um livro que escrevia: "Brasil- Um país do futuro". Diz Alberto Dines, no prefácio da edição de 2006 do referido livro, que:"Zweig efetivamente fez um negócio com o governo brasileiro: em troca do livro, receberia junto com a mulher um visto de residência permanente". Assim, publicado em 1941, era mais um livro ufanista que surgia.
Para o historiador José Murilo de Carvalho: "o título do livro de Zweig transformou-se em ironia". Zweig comparava o Brasil "cordial" com os horrores do nazismo, do qual fugia. Em certo ponto, ele diz: "Tudo que é brutal repugna os brasileiros". Assim, esse livro - pouco lido - servia mais como citação de que nós seríamos o - e não um - país do futuro. O jornalista Marcelo Coelho opina: "Seja como for, se muito do que lemos...parece pouco verdadeiro, não é que Zweig esteja mentindo. |
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| QUE ANO! / João Soares Neto |
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Este é o meu 52º. escrito dominical de 2009. Como escrevo, em média, 385 palavras por texto, calculo ter digitado cerca de 20.000. Que palavras foram essas? Sei que, reunidas, tentam refletir o meu pensamento, sentimento ou o acontecido naquela semana. Pode ter sido artigo, crônica ou até arremedo de mini-ensaio. Falei de pessoas, cidades, cultura, viagens, comportamento, problemas brasileiros, fatos mundiais etc. Quem escreve deseja melhorar o texto, aprimorar linguagem, estabelecer comunicação com o conhecido e, especialmente, o desconhecido leitor. Não sei se o meu texto melhorou, tampouco quantas mil pessoas me lêem. Algumas vezes, encontro pessoas fazendo referência a um texto específico e procurando aproximação para concordar ou discordar. Isso é bom. O leitor deve ter juízo crítico para analisar cada sentença e o sentido geral do texto. Leitores não devem ser seguidores, mas pensadores. Leitores são pessoas que elegem, dentro do jornal, algo para ler. Existe sempre diálogo surdo entre quem escreve e quem o lê. Quem escreve não é, necessariamente, um formador de opinião. Ele dá a sua ideia que pode ou não coincidir com a do leitor. É veleidade admitir que o que se escreve possa mudar- de cara - comportamentos, gerar atitudes ou formar conceitos. |
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| O DONO DA FESTA / João Soares Neto |
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Conta a História que, em Belém de Judá, nasceu um menino. Filho de José, um velho carpinteiro, e de Maria, uma jovem virgem. Ele, Jesus, nasceu em meio a festas pagãs do mundo hebraico. Faziam celebrações para louvar a Saturno, o deus da fartura ou da colheita, e a Mitras, o deus da luz e do sol. Esse menino era de uma pobre família nazarena e nasceu numa manjedoura ou gruta em noite alta em um 25 de dezembro. Consta que uma estrela brilhante desceu dos céus a anunciar a sua vinda. Ele foi crescendo e se descobriu diferente, pois pregava o amor, a fraternidade e a união, em meio a discórdias já existentes em seu tempo. E tornou-se homem. Saiu de Nazaré e foi trabalhar na Galileia com Zebedeu, ajudando-o a construir barcos. Depois, deu início a uma pregação nova. Seria anarquista, sábio ou patriota? O que ficou claro é que pregava o amor ao próximo, o perdão e dizia que para se viver eternamente seria preciso morrer. Falava de ressurreição e de um paraíso comandado por Deus, o senhor supremo. Condenado por blasfêmia, apedrejado e crucificado, aos 33 anos, em meio a dois ladrões comuns, sua morte foi fato restrito a uma província da Judeia, dominada então pelos romanos. |
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| O LIMITE DO BARULHO / João Soares Neto |
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Domingo passado assisti ao filme americano “Passando dos limites”.(Noise). Nele, Tim Robbins protagoniza um cidadão comum, empregado, casado, uma filha, apartamento etc. Ele começa a ficar incomodado com os barulhos noturnos das sirenas dos alarmes dos milhões de carros que, por qualquer razão, são disparados. A partir daí, ele desenvolve um transtorno obsessivo compulsivo que o enfurece ao ouvir o som ensurdecedor de alarmes a qualquer hora do dia ou da noite. Passa, então, de cidadão comum, a ser uma espécie meio paranóide de vigilante desligando cabos das baterias de carros até chegar ao ápice da sua semi-destruição com os pés e marretas, invocando, para si, um “papel social”. Vai preso, reincide, passa 30 dias no xadrez e, ao sair, o casamento é desfeito. Fica, além de obsessivo, desempregado. Procura, então, formar um grande “abaixo-assinado” para coibir a instalação de alarmes em carros. Logo, consegue adeptos para ajudar a mostrar que, em Nova Iorque, ninguém se importa mais quando um alarme soa. Deixemos o filme em suspenso. No dia seguinte, segunda-feira, o professor da FGV, Bresser Pereira, escreveu na Folha de SP, o artigo “Direito ao Silêncio”. Ele reclama dos alto-falantes dos aeroportos brasileiros que incomodam mais que informam. Fala também do que tenho escrito há algum tempo: o zumbido monocórdio dos hélices das torres de energia eólica. |
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| RECEITA MÉDICA / João Soares Neto |
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Todos, crianças, adultos, maduros e idosos, precisamos de remédios. Alguns precisam de forma continuada. Outros, para debelar doenças oportunistas e afins, os tomam apenas por ouvir dizer que alguém se deu bem. A verdade sobre os remédios ou drogas manipuladas por laboratórios farmacêuticos ainda está nublada. Os remédios vêm, na maioria das vezes, das plantas. Há os criados, sintetizados, extraídos de animais etc. Recomendo a médicos, jornalistas e a todos a leitura do livro “A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos”, escrito por Marcia Angell, com a autoridade crítica de médica e ex-editora-chefe do “New England Journal of Medicine”. Traduzido para o português pela Editora Record, esclarece dúvidas e pretende deitar luz sobre como os grandes laboratórios engajam médicos e escolas de medicina imaginando estar participando de pesquisas para o bem da humanidade. Segundo ela, um mito que cai por terra é o dos elevados custos das pesquisas. Ela revela que a maioria das pesquisas tem origem em universidades ou institutos governamentais e são apropriados pelos laboratórios farmacêuticos. Angell fala ainda em vícios de dados para produzir resultados positivos de futuras drogas ou a mera mudança de nomes como se fossem novos produtos. |
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| A VISITA / João Soares Neto |
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Trocamos telefonemas. Tensão constante. Fui apanhá-lo no outro lado da cidade. Manhã alta. Dia de semana, trânsito caótico. Cheguei. Veio de lá com seu jaleco branco bem passado, olhar turvo por trás das lentes espessas, os ralos e gris cabelos da cabeça e bigode mostravam sinais de cuidado. Sabíamos o que iríamos fazer. Falamos do acontecido e o que se poderia tentar. Ouvi dos contatos preliminares, da ambulância e da necessidade de pedir boa assistência. Conseguimos estacionar, entramos no hospital. Direto ao elevador para a UTI, onde ficam os necessitados de tratamento intensivo. Lavamos as mãos, falamos com o médico intensivista, olhamos o quadro clínico no prontuário e nos encaminhamos para o leito. De repente, o homem do jaleco já não era mais médico, o que pastorea almas desesperadas, recomenda moderação, ouve queixumes e medica. Era o filho-menino do pai inerte, mas de face serena, sua cópia em sépia. Quem ali estava deitado, cheio de tubos, cercado de máquinas, era o velho “pairmão” amado e reclamão. O coma e o respirar por instrumentos obrigava a pensar na sua vida de atleta, jogador de futebol que fora, da lida em livraria para sustentar a família e das andanças etílico-sociais nas redondezas. |
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| COPENHAGUE –COP-15 / João Soares Neto |
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O que me chamou a atenção em Copenhague foram duas coisas distintas. Uma: 38% da população da cidade usa bicicleta como transporte. E o clima é frio, até na primavera. Há muitas e bem cuidadas ciclovias com raros cruzamentos. A outra: local de resistência à modernidade, a Christiania, comunidade baseada na filosofia hippie de “paz e amor”, instalada nos anos setenta em base militar abandonada. Hoje, definha, acreditando ainda que tendas de artesanato, cds alternativos, pinturas e músicas de artistas emergentes e, naturalmente, o consumo e venda de drogas proibidas, são meios naturais de vida para os que não aceitam a competição desenfreada como “leit-motif”. Nessa cidade, neste invernoso início de dezembro, estão reunidas milhares de pessoas, oficial ou voluntariamente para a COP-15. Vão de governos às organizações sociais, de grupos multinacionais às instituições multilaterais, de seguranças aos ativistas. Só do Brasil estão, em Copenhague, cerca de mil pessoas. A maioria representa interesses públicos e privados na discussão sobre a possibilidade de redução dos gases-estufa no clima. Esse mal que, se não cuidado com tecnologia e dinheiro, continuará causando inundações como as do sul do país, as desta semana em São Paulo e os tsunamis, todos de triste memória. A estratégia da reunião oficial é dividida em três partes. |
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| POLITICAMENTE CORRETO / João Soares Neto |
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Está sendo discutida e criticada por muitos a expressão “politicamente correto”. Dizem os agora pragmáticos cientistas políticos, antropólogos, sociólogos e afins que se a ação é política não pode ser correta. A política tem vários componentes, mas nenhum deles prima pela correção. Maquiavel, já no século XVI, dá receita não correta: “Precisando um príncipe saber utilizar bem o animal, deve tomar como exemplo, a raposa e o leão; pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe se defender dos lobos. Deve, portanto, ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para espantar os lobos”. Política seria assim a arte de encantar serpentes e não desprezar variáveis desencontradas e antagônicas para ganhar e manter o poder que se quer ou tem. Acreditam os acadêmicos na mudança necessária para socialmente correto. Um fato pode ser socialmente correto, independente da política de qualquer natureza e dos que gerem a coisa pública. E por falar em coisa pública, lembrei da morte de Celso Pitta, ocorrida há duas semanas. Não se deve julgar os mortos, tampouco tripudiar sobre quem não pode mais se defender. Assim, relembro apenas que Celso Pitta, embora carioca, foi prefeito eleito com milhões de votos em São Paulo. |
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| FÓRUM DE LÍDERES / João Soares Neto |
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Sexta e sábado passados no WTC, em São Paulo, reuniu-se, em 32ª. edição, o Fórum de Líderes Empresariais. Trata-se de entidade nacional sem fins lucrativos com clara definição de propósitos, dirigida por Osires Silva, cidadão exemplar, ex-ministro e fundador da Embraer. O presidente da Conselho é Luiz Fernando Levy, antigo controlador da Gazeta Mercantil. Esse Fórum elege de forma idônea, anualmente, empresários de todos os estados. A edição deste ano durou dois dias. Começou com palestra do presidente do Banco Central, Henrique Meireles, sobre a situação do Brasil na retomada de crescimento mundial em 2010 e a preocupação da “administração do custo do sucesso”. Merece relevo a preocupação do Fórum com o desenvolvimento sustentável do país, que deixa a desejar. Governo e empresários foram alertados do perigo de suas possíveis ações predatórias e da urgência de revisão de conceitos e objetivos de todos. Exemplo: os filmes catastróficos “O Dia em que a Terra parou”, já antigo; e “2012”, em exibição, antes de serem apelos comerciais como ‘blockbusters’, independente qualidade de suas direções e argumento, mas os focos no desastre ecológico, seriam, quiçá, alertas piegas do nosso planeta contra a ausência da preocupação dos que o habitam: uso abusivo da água, descaso com a limpeza das cidades pelos habitantes, a ocupação predatória de áreas ribeirinhas e a destruição de florestas. Sabe-se, entretanto, que 50% das moradas não têm esgotos sanitários. Falta conscientização de entidades, empresas e governos que falam, mas não praticam a sustentabilidade. |
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| ALMOÇO, DE PASSAGEM / João Soares Neto |
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Aconteceu longe daqui. Na terra do nunca. Ou na terra da incomunicabilidade. Foi assim: era um almoço de confraternização ou não era? Frater é irmão e isso já havia sido dito até altas horas entre todas. Vamos dizer que sim, era uma confraternização. Lato senso, todos são irmãos. Estavam ali com toda a tropa, casais, filhos, empregadas e até uma solitária cadela branca. Foram para ver um senhor, não o Deus, mas o que as havia ajudado a gerar com a energia do seu corpo. Fora há tempos, lustros atrás e tudo havia sido desfeito. Até a casa virará pó. Sobraram cobres, distribuídos, mas isso é outra história. Chegaram uns, outros vieram depois com sentimento de preguiça, e o senhor, como se tivesse fazendo uma paródia de si mesmo, veio conduzindo o peso de maletas portáteis, com rodízios, portando, cada uma, em seu exterior a foto e o nome do Superman. Era o que ele não era, pois se o fosse, ali não estaria mais, tantas as vezes que havia cedido por ausências, gestos, críticas e dores que só lhe diziam respeito. Mas, invocando, quem sabe,o amor definitivo e a força dos super-homens que conduzia com carinho, trouxera cartões individuais e afetivos para cada um dos vários pares que a vida unira. E juntou quinquilharias nessas bolsas de super-homem, somou atenções, brincadeiras e um pouco da veia espirituosa, como a dizer que não havia mudado. Era e seria o de sempre. Elas, sim, haviam mudado. Até o olhar. Ele juntara tudo, sem saber fazer as escolhas certas, pois todas eram refinadas e ele um senhor atrapalhado. Até repetira presentes anteriores e não obedecera a recomendações de só trazer o que fosse certificado pelo Inmetro, o órgão do governo que dá muito emprego e faz de conta que verifica pesos, medidas e qualidade. |
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| OUTROS MUNDOS / João Soares Neto |
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Entre as minhas múltiplas tarefas, há a de ser uma espécie de galerista. Não a de gestor ou curador de galeria de arte tradicional, mas a que abriga, em seu espaço simples, agradável e receptivo, a arte em todas as suas manifestações, sem pensar em pecúnia. Penso apenas estar sendo intuitivo e incentivador de quantos têm, ao longo dos últimos dez anos, procurado esse espaço gratuito -com público crescente - para expor seus quadros, instalações, esculturas, livros raros, poemas, mensagens de denúncia etc. Em cada exposição é deixado - sobre um púlpito - um livro em que todos podem se expressar livremente, assinar, fazer garatujas e exercer a crítica. Seria longo e cansativo falar dos dez anos. Foram muitas exposições, misturando principiantes, lutadores e consagrados. Atenho-me, aos dois últimos meses, como uma amostra aleatória. Começo com uma exposição de pinturas e objetos feitos por jovens infratores, apenados, e em processo de recuperação. É claro que não se descobriu nenhum gênio, mas permitiu-se a expressão artística e, quem sabe, primal de jovens na luta diária entre o delito e a arte, entre o caminho do trabalho difícil ou da droga fácil. A exposição foi aprovada e prorrogada. Depois, mudando de tom, foram expostos móveis franceses dos últimos séculos, e o público aderiu àquela vaga e aproveitou para fazer observações no tal livro, inclusive com brincadeiras e sonhos de aquisição. |
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| Vida e Morte / João Soares Neto |
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Um rio separa a morte da vida. Estão ligadas por pontes. Do lado da vida estão majestosos edifícios, em rigorosa linha imaginária, tendo como referência de vitória um obelisco granítico. Acreditam os habitantes transitórios dessa linha da vida estar defendendo princípios, definindo missões, estabelecendo padrões de valores, mas convivem, a um relance da vista, com a morte. Dizia o poeta cego John Milton, em certa parte do “Paraíso Perdido”, o maior poema épico da língua inglesa: “Ele jaz estendido então na terra/ na terra fria: ali entre ais amiúde/a sua criação amaldiçoa/e amiúde a morte de tardia acusa/porque não vinha já, sendo presente/para o dia da ofensa perpretada. ”O rio Potomac corre lento em margens amareladas pelas folhas do outuno deste novembro de 2009. Por escolha, fiquei na mesma avenida em que mora, por tempo definido, o afro-descendente que prometeu esperança e o bordão “sim, nós podemos.” Nestes poucos dias em que estive por lá, revi o visto antes, especialmente a colina dos mortos, abrigando os que, enviados por decisões germinadas no grande “mall” atravessaram mares e espaços e morreram lutando pelo que bem não sabiam. Estão lá na terra fria, cobertos por relva, lápides e o respeito mudo de quem os visita por laços de família, comiseração ou curiosidade. |
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| JOÃO SANTOS E DIX-HUIT / João Soares Neto |
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Já confessei ser leitor compulsivo. Caiu-me ontem às mãos um folheto de uma fábrica de cimento. Depois de lê-lo, parei e fiquei pensando em um dia no princípio dos anos setenta. Começara a vida real, a da luta pela sobrevivência, e estava em Mossoró, Rio Grande do Norte, dirigindo uma equipe e elaborando o Plano Diretor da cidade. Havia ganhado o serviço em concorrência do Ministério do Interior e o trabalho era árduo. Um dia, detalhando para o prefeito Dix-Huit Rosado, uma mudança urbana necessária, ele levou a mão a cabeça, como se lembrasse de algo, e disse “vamos ao aeroporto que já estou atrasado”. Lá, um pequeno avião taxiava, e dele desceu um homem de jeito e compleição nordestina, “slacks” branco, chapéu e testa larga. Era João Santos, o dono de fábricas de cimento que chegava. De lá, fomos almoçar. Dix-Huit disse para ele que eu estava mexendo em toda a cidade. João Santos olhou para mim, perguntou quais as minhas ideias, ouviu calado. Ao fim do almoço, nos despedíamos. Ele, João, olhou para mim, chamou-me a um canto, e perguntou de chofre: quer largar isso e vir trabalhar comigo? Engoli seco e respondi que não, queria ser dono do meu tempo e do meu destino. Agora, mais de trinta anos passados, lendo o tal folheto das primeiras linhas referidas, revejo que aquele homem simples, já falecido, construtor um império a partir do nada. Era um menino do interior de Pernambuco, igual a tantos outros. |
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| A CÂMARA E A ACADEMIA / João Soares Neto |
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A História sempre nos ensina. Ela nos diz, por exemplo, que as Câmaras de Vereadores no Brasil são mais antigas que o Congresso Nacional e as Assembléias Legislativas. No Brasil, elas vieram com as Capitanias Hereditárias. A primeira Câmara instalada foi em SP, em São Vicente, que havia sido elevada à categoria de vila pelo donatário Martim Afonso de Souza. Essa 1ª. Câmara ficou conhecida como a “Câmara Vicentina”. Em todo o período colonial as câmaras municipais possuíam número considerável de atribuições. Eram elas que regiam as cobranças de tributos, definiam o exercício profissional, indicavam as atividades do comércio e ofícios, zelavam pelo patrimônio público e até administravam as prisões. Em suma, tinham funções executivas, legislativas e judiciárias. Após a Independência, veio a Constituição de 1824, quando o império centralizou a maior parte da administração pública e fixou em quatro anos a duração da legislatura. O vereador mais votado exercia a presidência da Câmara. Em 1889, com o advento da República, os vereadores passaram a ter exclusivamente papel legislativo e de fiscalização. Agora,com a Constituição de 1988, os papéis dos vereadores são os de legislar, fiscalizar, representar e sugerir/requerer. É exato nesse papel da sugestão que o Vereador Paulo Facó apresentou requerimento à Câmara Municipal de Fortaleza sugerindo a realização de uma sessão especial para homenagear a Academia Fortalezense de Letras. A Casa aprovou, unanimemente, o requerimento e ontem aconteceu a solenidade. Essa sessão, ontem realizada, se fez, acredito, como reconhecimento ao trabalho cultural de cada acadêmico da Fortalezense, bem como o esforço das gestões de Cid Carvalho, Cybele Pontes e Ednilo Soárez que deram uma feição contemporânea à nossa Academia Fortalezense de Letras. Ela é simples, mas diligente, atuante, diferenciada ao incentivar academias de estudantes. De forma inovadora desempenha o seu papel de regente, com empenho, de nomes qualificados. Agora, por exemplo, criou um blog, ao qual todos poderão acessar e incluir seus poemas, contos, ensaios e romances. Possui, em seus quadros, expoentes da cultura de Fortaleza. O seu presidente de honra é o Príncipe dos poetas cearenses, Artur Eduardo Benevides. Figuras políticas como os ex-vereadores Barros Pinho, Juarez Leitão e Ubiratan Aguiar. Barros Pinho também foi Deputado Estadual e Prefeito de Fortaleza e acaba de ganhar o Prêmio Osmundo Pontes de Literatura. |
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| 05 DE NOVEMBRO / João Soares Neto |
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Voltei. Passei oito anos relutando em ver “in loco”. Todos lembram daquela manhã de terça, 11 de setembro. Vimos tudo pela TV, até a exaustão. Atônito, minha reação imediata foi escrever onze contos e enfeixá-los em livro. Nesse livro (Sobre a Gênese e o Caos), tento explicar, na gênese, as razões motivadoras do atentado, as lições não aprendidas e até ouso escrever uma carta para Bush e Bin Laden. Na segunda parte, ficção absoluta, falo do drama pessoal de uma cleptomaníaca; do menino afegão treinado para o terrorismo; de um casal que se separa enquanto tudo explode; de um velho e cansado vigilante; do amor carnal entre zeladora e segurança; de sessão espírita; do primeiro dia de trabalho de um jovem executivo negro; do vôo de um Boeing 767; dos sonhos da viúva de um bombeiro morto; do imigrante judeu e sua família; e dos terroristas em ação. Em minha imaginação, tudo parecia um filme e criei os detalhes de cada conto. Faltou, quem sabe, Spielberg ou um Fernando Meireles para a direção. O fato é: voltei lá na quinta-feira, 05, deste novembro. O “Ground Zero” estava cercado por tapumes. Era hora do almoço, os trabalhadores saíam com suas marmitas para a grade acolhedora do jardim fronteiriço da capela de St. Paul, ilesa no ataque. Aproveitei, meti a cabeça, e vi o grande vazio em que as duas gêmeas se transformaram. Ao fundo, a construção do memorial Torre da Liberdade e gruas espanando os céus. Naquele mesmo dia 05 e hora, em Fort Hood, Texas, eclodia atentado dentro de base militar. 13 pessoas morreram e outras ficaram feridas. |
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| SANTOS E MORTOS / João Soares Neto |
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Hoje é o dia de Todos os Santos, data festejada há dezoito séculos pela Igreja Católica. Acredita ela que pessoas virtuosas, após suas mortes, tendo realizado milagres, apresentadas formalmente em processo burocrático, envolvendo pesquisa, análises, depoimentos, obedecendo a rito próprio, podem ser canonizadas. Esses santos são cultuados por uma premissa de fé e seriam intercessores junto à Cristo, Maria e Deus por todos os pecadores vivos ou mortos.. Aqui no Brasil, maior país católico do mundo, temos apenas dois santos. A primeira foi Santa Paulina, italiana de nascimento, mas com missão cristã em São Paulo. O segundo é Frei Galvão, paulista. Alguns dizem, por essa razão, que só temos um santo. A Igreja, em Roma, em palácios, museus e templos, expõe estátuas de centenas de santos italianos e outros tantos dos demais países europeus. Hoje, mais abrangente e informatizada, embora dogmática,a Cúria Romana tem procurado, estudar as mazelas do continente africano. Esta semana, duzentos bispos africanos repudiaram, em manifesto, a corrupção dos seus políticos dirigentes. Tenta ainda permear as culturas e religiões milenares da Ásia e Oriente. Por outro lado, se sente ameaçada com a onda crescente de igrejas evangélicas a prometer, pragmática e objetivamente, em templos e na mídia, a troca de orações e dízimos por promessas de trabalho, crescimento pessoal, felicidade e bem estar. |
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| MARGARIDA / João Soares Neto |
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O nome margarida provém do Latim e significa pérola. Em geral, a pessoa com esse nome é especial, fora do comum. Apresenta preocupação com os outros, é fiel no amor e não se intromete com a vida pessoal ou amorosa de ninguém. Margarida é ainda: nome de flor, santa, mulher e mãe. Hoje é dia de uma Margarida especial. Ela nasceu exato neste dia 30 de outubro, em 1919, há 90 anos. Nasceu bonita, inteligente, espirituosa e forte como ainda o é. Filha do Farmacêutico João Caminha Monteiro e D. Luiza Saraiva Leão, ex-aluna do Colégio da Imaculada Conceição. Seu pai morreu de câncer com 41 anos e deixou, como herança, uma grande família de 13 filhos em fase de crescimento. A vida foi dura para D. Luiza e seus filhos. Uma delas, Margarida, afilhada de batismo de Dionísio Torres, trabalhava em seu Laboratório no Joaquim Távora. Jovem, conheceu Francisco Bezerra de Oliveira, filho de João Soares de Oliveira e Joana Bezerra de Oliveira, seu único e definitivo amor. Quem sabe, pelos mistérios do insondável, ele parecia conhecera a letra da música Margarida, posteriormente, musicada por Gutemberg Guarabyra: “E retirando uma pedra, olé, olé, olá. Mais uma pedra não faz falta, olé seus cavaleiros. Que ainda correm pelo mundo. Ouçam só por um segundo que eu acabo de vencer: retirei pedras de orgulhos, majestades. Deixei todas de humildades, de amores sem remédio. Ela então se me rendeu. Eu já fui rei, já fui cantor, já fui guerreiro. |
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| JUVENTUDE E FUTURO / João Soares Neto |
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Foi Simone de Beauvoir quem citou o jovem príncipe Sidarta, o futuro Buda, em livro escrito sobre a velhice. O fato: Sidarta saiu de seu palácio e viu, entre outras duas, uma figura alquebrada e sem rumo. Perguntou: quem é? Responderam-lhe: Um velho. Sidarta, ainda não Buda, voltou ao seu palácio. E teria cunhado a frase: “eu sou a morada da futura velhice”. Assim, o óbvio não é entendido pelos mais jovens a não admitir a velhice como futuro. Acreditam e pensam: esse tempo não chegará, e se chegar, os encontrará ativos, ocupando mentes com trabalho, família e cuidando dos corpos em academias, corridas e afins. Hoje, já se fala nos “novos velhos”. Novos velhos? Seriam eles os desafiadores do tempo como fator determinante, indo buscar em suas próprias vidas a energia para manter o alento de ser ativo e útil? Seriam os descobridores, por suas leituras e práticas pessoais, de caminhos definidos do bom uso do tempo extra conferido pela longevidade? Poderia ser uma nova geração de pessoas a admitir a possibilidade de diálogo com os dos olhares da indiferença? Seriam, talvez, os cheios de saúde, corpos hígidos, apesar das cãs? Ou o que seria essa safra de novos velhos? Seriam as mulheres a disfarçar o tempo com cirurgias reparadoras ou estéticas? Ou homens unidos a mulheres com a metade de suas idades? Ou vice-versa? |
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| FORTALEZENSE FAZENDO HISTÓRIA / João Soares Neto |
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Uma academia de letras tem vida. Acontece, cria, edita, reúne, sofre e motiva seus membros a materializar pensamentos em forma de livros de poemas, ensaios, discursos, crônicas, contos, romances etc. Este tem sido o dia-a-dia da Academia Fortalezense de Letras. Começou com Cid Saboya de Carvalho, figura ímpar do magistério, advocacia, política, jornalismo e literatura. Sua gestão contava com a experiência de Matusahila Santiago, advogada, funcionária pública e dirigente da Casa de Juvenal Galeno e o ímpeto de José Luís Lira, então jovem advogado, que passou a escrever biografias de poetas, escritores renomados e santos, transformando-se em hagiologista, professor e hoje está na UVA –Universidade Estadual do Vale do Acaraú. Depois, veio Cybele Valente Pontes com leveza, talento e tirocínio de gestão na Sociedade Amigas do Livro e na Coordenação do Prêmio Osmundo Pontes que realiza, anualmente, em parceria com a Academia Cearense de Letras. Cybele, com o suporte de Beatriz Alcântara e Regina Fiúza e a colaboração de alguns, instituiu e publicou a revista Panorama e a bi-anual Acta Literária. Além disso, reformou os estatutos e o regimento interno da entidade. Em seguida, veio a argúcia, cavalheirismo e inteligência de Ednilo Gomes de Soárez a dar nova forma ao Boletim mensal, incluindo fotos em cores dos acontecimentos e publicando mais um número da revista Panorama e outro da Acta Literária. |
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| MULHERES PENSANDO / João Soares Neto. |
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Nós, homens nascidos no século passado, casados ou descasados, temos que rever conceitos sobre mulheres. Ouvia-se nas rádios de então que a “Amélia é que é mulher de verdade”. Ataulfo Alves pode ter vivido esse tempo. Não há mais “amélias” em 2009. Dizia o poeta latino Virgílio que ”Inconstante e mutável é a mulher”. E olhe que Virgílio viveu antes de Cristo. Pulemos para a francesa Simone de Beauvoir, no século XX. Ela disse: “Nenhuma mulher nasce mulher: torna-se”. E assim foi. As mulheres viraram mulheres e como tais estão alterando a cabeça dos homens. Não para olhá-las, admirá-las e amá-las. A história é outra. As mulheres já chegaram, em menos de cem anos, ao ponto em que os homens levaram milênios para alcançar. Se você olhar a nação alemã verá o pulso forte de Ângela Merkel. Se mirar os cílios postiços e adereços nada sutís de Cristina Kirchner encontrará a Presidente da Argentina. Se notar o equilíbrio de Michelle Bachelet, saberá que ela dirige, com aprumo, o Chile. Há três mulheres candidatas a presidente no Brasil. Paremos por aqui. Abramos o jornal. Vejam a notícia: mulheres são maioria no Nobel de 2009. Como vocês sabem, o prêmio Nobel foi criado pelo sueco Alfred Nobel, inventor da dinamite, por influência de sua amiga Bertha Kinsky. Armou uma fundação que, desde 1901, premia luminares da Física, Química, Medicina, Literatura e da Paz. Em 1968 foi introduzida a Economia. |
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| ADMINISTRADOR – REFERÊNCIA / João Soares Neto |
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Quarta, 14, foi realizada a abertura do XI Fórum Internacional de Administração, evento que reúne administradores de vários países. A importância era tal que havia mais de 3.000 participantes. Nessa ocasião, tive a alegria de ser homenageado com o título de Administrador-Referência. É claro que fiquei contente e repasso o que por lá. Falei a todos os administradores, especialmente aos jovens que compareceram a esse XI Fórum Internacional, o primeiro realizado no Ceará. A eles, afirmei que o sucesso profissional está ligado ao seu projeto pessoal de vida. Não basta títulos de bacharelado, mba, mestrado ou doutorado. É preciso ter, acima de tudo, atestado de cidadania, coragem de ser diferente, sem ser petulante. Possuir humildade para aprender, sempre. É praticar a leitura continuada que se transforma em informação e esta em conhecimento. E daí em atos e fatos concretos. É preciso ter ambição sem ter inveja. Exercer liderança sem privilegiar o comando. Saber que a velocidade do planeta Terra corre contra o a nossa percepção do tempo e o seu uso. Assim, é preciso estabelecer degraus de competência, padrões de referência e capacidade estratégica para a convergência adequada ao nosso propósito pessoal e o da sociedade. |
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| MÉXICO-CEARÁ / João Soares Neto |
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A visita ao Ceará, nesta semana, do Embaixador do México no Brasil, o diplomata de carreira Andrés Valencia, acompanhado do Adido Cultural Carlos Ortega e do Adido Naval, o Contra-Almirante German Ruiz, foi um ato claro de aproximação internacional benfazeja. Sabe o México, por ser parceiro comercial do Brasil, da importância emergente do Estado do Ceará, em face do seu posicionamento geográfico e, especialmente, em razão do potencial turístico de toda a orla. E sabe dos projetos estruturantes do governo cearense, como os que serão implantados no complexo do Porto de Pecém, a partir de uma refinaria de petróleo e das demais indústrias derivadas da sua existência. O México, por sua história e posicionamento estratégico, é o maior, o mais forte e culto país de língua hispânica da América Latina. Embora, geograficamente, se situe na América do Norte. Desde a administração do ex-presidente Vicente Fox houve real aproximação e pactos com Brasil. Agora, recentemente, os presidentes Lula e Felipe Calderón, fizeram visitas recíprocas, demonstrando podermos ser mais próximos, não só através de acordos bilaterais, mas na identificação de objetivos comuns a ambos países. Uma notícia alvissareira e simpática que trouxe o Embaixador Andrés Valencia é que o Navio Escola Cuauhtémoc, um veleiro clássico e bonito com tripulação mexicana, mas também com jovens de outros países das Américas, deverá aportar no dia 18 Janeiro em Fortaleza, para dar início ao ano de 2010, muito caro ao México, por ser o do Bi-Centenário da Independência Mexicana e dos 100 anos da sua Revolução, liderada, inicialmente por Francisco Madero. |
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| RIO,RISO E CHORO / João Soares Neto |
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Estamos alegres com a vitória da cidade do Rio de Janeiro para sede das Olimpíadas de 2016. O Rio é o espírito coletivo do Brasil. Mas poucos sabem que até o dia da nossa escolha já havia sido gasta a razoável quantia de 100 milhões de dólares com a preparação geral da campanha. Além da ação decisiva de Lula, muitos não sabem também que foi um americano, Scott Givens, antigo dirigente da Disney Entretenimentos, o coordenador oficioso dos projetos brasileiros de filmes, vídeos e afins mostrando as nossas vantagens competitivas sobre Chicago, Tókio e Madri para os olhares do COI, o Comitê Olímpico Internacional. Assim, além de Lula, seus ministros, atletas e convidados, o diretor de cinema Fernando Meirelles, dono da empresa 02, contratada para a produção dos filmes e vídeos, teve a seu lado a experiência do citado Scott Givens que até diretrizes deu para os discursos de dirigentes do nosso Comitê Olímpico e as “marcações cênicas” de centenas de atletas e autoridades convidados. Pelé, por exemplo, apareceu, mas não falou. Pesava o argumento que já havíamos ganhado a Copa de 2014 ou que cometeria gafes. Houve aprumo no trajar e até o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse lá para os 106 membros do COI: ”Yes, we can. We have money and conditions”(Sim, nós podemos. Nós temos dinheiro e condições). Afinal, o Rio foi escolhida por ser uma cidade maravilhosa. Todos se confraternizavam. Abraçavam-se, choravam, riram, mas, como ninguém é de ferro, contrataram parte do Hotel SKT Petri para a celebração noturna em Copenhague regada com vinho espanhol (seria o sangue dos madrilenos?). Como não poderia faltar, lá estava na festa, entre tantas figuras, uma cearense (os do Ceará estão em todas), a dançarina Márcia Lemos, 27, com um grupo de amigas, que aproveitou para guardar na bolsa vários pins(escudos) da campanha brasileira. A comida e a bebida foram livres e até o Ministro do Esporte, Orlando Silva, cantou, no palco, música de Ary Barroso. |
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| MARCO CÉSAR / João Soares Neto |
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Corriam os anos 70. Os da minha geração começavam a singrar os mares profissionais. Amigos, embora distintos, entravamos nos trinta: Antonio dos Santos, Artur Silva, Alfredo Couto, Giordano Loureiro, Gerardo Santos, Lauro Chaves, Marco Antônio, Marco César, Nisabro Fujita e Paulo Cruz. Antônio e Artur, deputados; Alfredo Couto advogava; Giordano e Gerardo, calculistas; Lauro Chaves, administrador; Nisabro, Paulo Cruz, Marco Antônio e Marco César, engenheiros civis. Todos casados. Filhos nascendo, estudando e crescendo. Vivíamos nas casas uns dos outros. E, particularmente, nos fins de semanas, na nossa casa na praia da desconhecida Tabuba. Falemos de Marco César, filho do general e ex-deputado federal Josias Ferreira Gomes. Foi engenheiro da Cenorte e, posteriormente, da Telebrás. Foi chamado para presidir a Coelce, a Companhia de Eletrificação do Ceará. Nela passou anos. Depois, compôs a diretoria da Teleceará. A roda do mundo gira e o que era público - com pouco dinheiro e fartos empréstimos do BNDES - passa a privado. Um dia, convidei Marco César para trabalhar comigo. Sabia ser difícil o processo de sua adaptação na vida empresarial. Os, sem padrinhos e conchavos, da empresa privada, somos catadores de conchas, pescadores de raras oportunidades, tratadores e vendedores de nossos peixes, miúdos, disputados em mercado sempre hostil. |
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| A GERAÇÀO PERDIDA E HEMINGWAY / João Soares Neto |
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Terá sido mesmo, como intitulou a escritora americana Gerrude Stein, uma geração perdida, a que, vinda de países diversos, resolveu ocupar Paris nos anos 20 do século passado?. A cidade de Paris, então o centro cultural do mundo, virou o exílio dourado ou o paraíso para imaturos escritores e artistas de todos os continentes, especialmente americanos do norte. Acreditavam eles que a elite cultural do planeta vivia ou acontecia nos arredores do Quartier Latin, na margem esquerda do Rio Sena. Essa área, onde se localiza, a Sorbonne, a universidade referência, gerava um espírito alegre coletivo e os cafés, bares, restaurantes, bibliotecas e museus favoreciam o convívio de gente querendo ser famosa e reconhecida. É esse o cenário que Ernest Hemingway usou em seu livro póstumo “Paris é uma festa”. Foi em 1921 o ano em que o jovem casal americano Elizabeth Hadley e Ernest Hemingway chega a Paris. Ernest participara da 1ª. Grande Guerra pela Itália, tinha estilhaços em uma das pernas e usava isso como diferencial. Nos cinco anos em que sedimentou leituras, fatos, relatos e aguçou sua visão objetiva, encontrou o ambiente que o empurrava para os rumos da então famosa livraria-biblioteca Shakespeare and Co. |
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| LER E ESCREVER / João Soares Neto |
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Ainda parece estranho para alguns poucos o fato de eu escrever há tanto tempo. Parece igualmente esquisito para outros o fato de eu continuar a gostar de ler. Incomodam-se alguns ao saberem que a boa música me enternece. Deveriam estranhar que eu nunca soube cantar. Sou absolutamente desafinado. Tentei ser pianista e desisti com a desculpa de que era canhoto. Seis meses foi o tempo que a pianista Maria Helena Cabral perdeu comigo. Fui um péssimo jogador de futebol, só entrei em time de basquete quando não havia ninguém para completar o quinteto. Meti-me a participar de peladas de vôlei e quebrei o escafódio. Deixei o vôlei, mas descobri que tem um ossinho no punho com esse nome. No Exército, pus-me a atirar com revólver, fuzil e metralhadora e fui um fiasco. Passei por um triz. O que me restava era ler e isso eu fazia em um canto da casa dos meus pais por onde não passava ninguém. Era uma passagem de serviço por trás da garagem. Ninguém me via, nem ouvia, pois o ato de ler merece silêncio. E lia sempre desconfiando de quem escrevia. Será que isto é assim mesmo? E usava um lápis como arma para sublinhar, rabiscar e - pasmem – até discordar do autor que estava lendo. Como não conhecia nenhum escritor vivo, não tinha como imaginar a sua figura. Eu me imaginava um roteirista ou diretor de cinema e ia formando imagens do que estava a ler. Comecei a ler José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo. |
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| CONVERSAS DE DOMINGO / João Soares Neto |
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Última quinta, lancei o meu quinto livro. Ele é um extrato mínimo de centenas de artigos e crônicas publicadas em jornal. Não os reputo peças literárias. São apenas narrativas breves e, aqui e acolá, artigos de opinião. Não os centrei apenas em meu umbigo. O mundo é o seu picadeiro. Tentei estabelecer a dimensão de fatos, sua conexão com a realidade, com a vida e o comportamento humano. Uso, por limitação de espaço, linguagem curta e simples para me aproximar do leitor. Cada leitor é um crítico e por tal razão os escritos são abertos às suas lupas para reflexões. Não fora a indução de amigos, certamente não sairia este livro. “Conversas de Domingo” é um acidental encontro com o outro, com os meus fantasmas, meus amores e sonhos. Quem escreve em jornal e assina o seu nome é alguém disposto a ser julgado a cada semana por sentimentos revelados ou opiniões emitidas. Raras citações usadas não demonstram erudição. Revelam, quem sabe, a procura de validação de alguém, exemplo ou referência, em sua área de conhecimento. Algumas semanas trato de ideias. Em outras, sou anima e cuore, relatando tristezas, emoções e alegrias. Abordo, vez por outra, aspectos de viagens ao redor deste mundo, rico e pobre, e as impressões capturadas pelo obturador da minha retina, acasaladas no meu hardware mental. Não sou guia, sou apenas curioso. |
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| EUCLYDES, O HOMEM / João Soares Neto |
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Tenho procurado ler sobre Euclydes da Cunha(1866-1909). Não falo sobre o livro “Os sertões”, mas seu autor. Euclydes, com y - pois o alfabeto atual da língua brasileira assim o comporta - era tímido, muito tímido. Marco Antonio Villa, professor de História da Universidade Federal de São Carlos, é autor do livro “Canudos – O Povo da Terra”, tendo autoridade para descrever a personalidade do mais famoso representante da família Cunha. Cita o próprio Euclydes ao dizer que: “nunca perdi este traço de filho da roça que me desequilibra intimamente ao tratar com quem quer que seja”. Apesar disso, Villa o considera um homem de Estado, pois “toda a sua reflexão foi dirigida ao poder: em momento nenhum falou para o povo”. Uma semana antes de morrer teria dito para o cunhado: “Vou atravessando esta existência no pior dos piores países possíveis e imagináveis... Tu não imaginas como andam propícios os tempos a todas as mediocridades. Estamos no período hilariante dos grandes homens-pulhas... Nunca se berrou tanta asneira sob o sol... Este país é organicamente instável”. Um amigo seu, Francisco Escobar, tentou sondá-lo para se candidatar a deputado. Euclydes respondeu: “Ser deputado nesta terra é hoje uma profissão qualquer – para a qual não me preparei”. Vejam, tudo isso aconteceu na primeira década do século passado. Há exatos cem anos. |
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| O GRITO DE DOLORES / João Soares Neto |
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A Independência do México, país a que sirvo como Cônsul Honorário, não foi pacata como a do Brasil. Lá, houve um longo conflito. Aliás, a História do México é plena de guerras. Ao contrário, o nosso país até faz revoluções sem grandes perdas humanas. O conflito que levou à Independência do México teve várias nuances. O D. Pedro I do México foi um sacerdote católico, o padre Miguel Hidalgo y Costilla, dito Miguel Hidalgo. No México, como nos outros países hispânicos, o primeiro nome de família - ou sobrenome - é o do pai. O nome da mãe, embora conste do registro de nascimento, não é usado. Assim, Miguel Hidalgo foi o protagonista do “Grito de Dolores”, no dia 16 de setembro de 1810. Esse grito eclodiu dentro de uma simples Paróquia do lugar Dolores Hidalgo, no hoje estado de Guanajuato. Como se vê, no próximo ano de 2010, o México completará 200 anos como país independente e, certamente, terá muito que comemorar, pois hoje é o mais importante e o mais culto país de língua hispânica das Américas. Voltando ao fio da história: não bastou o grito para que o México, então Vice-Reino da Nova Espanha, ficasse independente. Oito anos se passaram para a poeira assentar e terminar com a guerrilha que acontecia nas serras do sul daquela pátria. De 1810 para cá, o México passou por outras tantas lutas, sendo a mais cruenta a que travou (1846-48) com os Estados Unidos quando perdeu metade de seu território. |
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| MATURIDADE / João Soares Neto |
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Hoje, você, e os filhos que tiver, estarão mais velhos que ontem. Amanhã, seus netos - se os tiver - e você terão gastos 24 horas de suas vidas. Não há como parar o tempo, ampulheta eterna a surrupiar parte, mínima ou grande, de nossas existências. O furto é insignificante quando jovens e acreditamos ser o tempo infinito. Não o é. É grande quando amadurecemos e pensamos ser o tempo finito. Também não o é. O tempo é apenas definitivo. Nós somos finitos. Quanto tempo se perde em querer que o outro use a sua vida e experiências, a praticar o que achamos certo? Quem somos para saber do outro? Cada pessoa tem rotação própria e o seu caleidoscópio quase nunca entra em compasso com a nosso. Hoje, você e os seus talvez estejam longínquos. Amanhã, você e eles estarão ocupados com o fazer do dia-a-dia a construir. Todos poderiam estar conectados - embora separados - tecendo um tempo comum, mas... Mas, os filhos não são apenas aqueles que criamos. Eles são o que vivem após deixarem o casulo em que tentamos, por amor ou egoísmo, pajeá-los. Assim, passam a ser pais e têm filhos que nos vêem como os pais de seus pais. |
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| ADMINISTRADORES / João Soares Neto |
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Este artigo é um tributo a todos os administradores profissionais. E o faço em reconhecimento ao Conselho Regional de Administração, na pessoa do seu presidente, Reginaldo Oliveira, e ao Presidente da Assembléia Legislativa do Estado do Ceará, Domingos Aguiar, autores de proposta de uma Sessão Especial em comemoração ao Dia do Administrador. Nela, elegeram cinco nomes como representantes essenciais da classe dos administradores. Os eleitos: Carlos Gualter Lucena, gestor de grupo de empresas de prestação de serviços; Ernesto Sabóia, conselheiro-presidente do Tribunal de Contas dos Municípios; Beto Studart, controlador das muitas empresas que constituem o grupo BS; Sérgio Henrique Forte, superintendente de banco regional e a mim, o escrevinhador deste artigo. De surpresa, fui indicado para falar em nome de todos os homenageados. O fiz, na medida do improviso, louvando a cada um dos eleitos. Quanto à minha escolha, referi que ela se devia ao fato de ser integrante da Turma Pioneira da Escola de Administração do Ceará, a que deu origem a tudo o que veio depois. Estudamos ao tempo da divisão da ciência da administração em clássica e científica. A clássica era a do Fayol e a científica era a do Taylor. Hoje, nestes tempos informáticos e pós-moderno, em que as referências acadêmicas e de gestão são outras pela razão de que existem sistemas gerenciais para tudo, o que pode um administrador fazer? Ainda imagino que um administrador deve ter liderança. Ao mesmo tempo, precisa saber planejar, capacidade para dirigir pessoas, organização, assessoria, informações “up-to-date”, e gerir um orçamento a definir fontes e usos. Não pode deixar de ser criativo, mas não deve ficar só com o que aprendeu na faculdade ou nesses Mbas da vida. É bom saber línguas e ter conhecimento múltiplo. |
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| TRÂNSITO BRASILEIRO / João Soares Neto |
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Estava a rodar, queimando combustível, poluindo o ar, procurando estacionar o carro. Só enxergava cones, correntes e ‘estacionamentos privativos’. Os cones de material plástico são hoje quase como escrituras públicas com registro de recuo usado para regular a parada de veículos. Basta comprar alguns cones e alguém se torna donatário da capitania da área pública, negando tudo o que diz o Código Nacional de Trânsito. É comum vê-los defronte a lojas, restaurantes, bancos e afins, sempre protegidos por seguranças, alguns cordiais, outros truculentos, a informar: não se pode parar, salvo se for cliente de quem lhe paga. Os sem guardiãs de seus cones usam correntes, apoiadas em pequenos postes de ferro - ajustados ao solo - trancados com cadeados e pequenas placas de ‘privativo’. A corrente só é aberta quando do horário comercial e, para os clientes. Ao fim do dia, volta a corrente. |
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| O AEROGERADOR E O RAIO / João Soares Neto |
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Não se prova, tampouco se pode desmentir, a existência de Deus. Mas, a meu juízo primário e precário, Deus e a natureza são forças unidas. Tipo unha e cutícula. Sempre que ocorre uma catástrofe se fala da “ira de Deus”. O homem, por mais ciência que possua, não sabe explicar e tampouco evitar as conseqüências de alguns fenômenos da natureza, tais como ciclones, maremotos, erupções de vulcões, terremotos, raios e outros mais. Recentemente, vi uma manifestação forte da natureza. Um alto, esbelto e esteticamente equilibrado aerogerador parado. Um raio o atingiu, destruiu dois hélices, decepando-os e paralisando definitivamente o movimento. Venho, há algum tempo, lendo e procurando entender a ação dos aerogeradores. Já os vi na Europa, com destaque para a Espanha, na região montanhosa de Castilla, onde o escritor Miguel de Cervantes situou o seu épico D. Quixote. Lá, ainda parecem ser ouvidas, em meio ao vento monocórdio, as conversas havidas entre D.Quixote e o seu leal escudeiro Sancho. |
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| ALÉM DO MAR / João Soares Neto |
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Ana D`Aurea Chaves e Rita Cruz são minhas amigas desde o último terço do século passado. Nesse tempo, elas não eram muito próximas, mas já gostavam de viajar. São curiosas, inteligentes, sabem entrar e sair em qualquer espaço e têm a capacidade incomum de liderar. Ana D`Áurea casou cedo com Lauro Chaves, educou filhos, se fez funcionária de carreira do Banco do Brasil até se aposentar. Rita é formada em direito, optou por ser Defensora Pública, casou com Paulo Cruz, filhos foram criados e também se aposentou. As duas, com os maridos, faziam parte de um querido e instigante grupo de casais amigos. A vida vai passando, pregando peças e circunstâncias distanciam o que era próximo. Vai daí que elas, amigas que são, trocaram ideias e resolveram mostrar ao público a forma e os caminhos por onde andaram. Ana D’Aurea se profissionalizou como turismóloga de batente com a energia herdada de Evandro Ayres de Moura, um ser inquieto, visionário, mas objetivo. Rita resolveu, enfim, mostrar-se, com a inteligência herdada de Hildo Furtado Leite com o filtro da seleção natural. |
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| A CEGUEIRA DE SARAMAGO / João Soares Neto |
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Fiquei feliz quando soube que a língua portuguesa poderia ser agraciada com o Nobel de Literatura em 1998. Pensava em algum autor brasileiro, mas deu José Saramago. É verdade que Portugal fez “lobby” forte para mostrar seu potencial. Eram viagens de Lisboa a Estocolmo e vice-versa. Estocolmo é a sede do Prêmio Nobel e há muita política na concessão desse galardão. Se tiverem tempo, procurem ver os premiados em literatura nos últimos 10 anos. A maioria é desconhecida e as vendas são turbinadas pelo próprio prêmio.O fato é que Saramago ganhou. Depois, participou de uma espécie de Feira do Livro no Parque Eduardo VII, vizinho à Estufa Fria, área predominante da boa hotelaria de Lisboa e até registro fiz desse encontro. Depois do prêmio, Saramago passou a ser muito vendido cá no Brasil. Eu, na verdade, nunca namorei demasiado a sua escrita. Apenas um “flirt”, diria. Sua forma de escrever é límpida, longa, pesada e escorreita, mas o conteúdo parece ter, no caso do “Ensaio sobre a Cegueira”, um pouco da essência temática de George Orwell, na obra “1984”. Há tempo havia ganhado o livro de presente. Só há pouco, o concluí. Confesso: tive uma breve sensação de alivio. Li, na verdade, aos pedaços. O livro é um ensaio metafórico recomendável, quem sabe, para se discutir a essência do que somos. Narra a emergência de repentina cegueira, inexplicável e dita incurável. |
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| DE OLHO NA EXPOSIÇÃO / João Soares Neto |
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José Augusto Lopes é avis rara. Por ter sensibilidade acurada e notar, desde cedo, existir - quem sabe - uma carência no feedback relacional com a maioria das pessoas, tenha optado por entrar na viagem, sem volta, da descoberta do mundo cinematográfico. Esse mundo em que fotogramas em determinada velocidade se transformam em movimento contínuo gerando arte, a partir de uma história ou estória, misturando glamour, amor, mesmo que falso, ciúme, ódio, crime, paz e muito mais. Bem que fez Direito e Comunicação Social, aqui e alhures, mas era preciso mais, descobrir nos livros, revistas, conversas e, principalmente, no interior das salas semi-escurecidas de cinema, a sua essência humana. E aí sentiu a imanência da arte dos irmãos Lumiére. Abro os meus diários de anotações dos anos de 58 e 59, e revejo que Brasil se preparava para as eleições presidenciais do ano seguinte. Cai um avião da Vasp e morrem 42 pessoas. Discute-se a importância de comprar um porta-aviões,o Minas Gerais, o açude Orós está em construção, enquanto a Orquestra Sinfônica Brasileira regida por Eleazar de Carvalho apresenta o pianista Jacques Klein no José de Alencar. Outros tempos. O chique em Fortaleza era: e as badalações no Ideal, Maguary e Náutico, o San Pedro Hotel, os lanches do Tonny’s, a vitrina da Aba Film mostrando fotos das “moças de família”. As conversas eram feitas sem medo em 15.000 telefones pretos de galalite. |
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| LIVRO EM CREPÚSCULO / João Soares Neto |
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Os meses de agosto têm sempre significação especial para mim. Há bons fatos na minha vida que acontecem em agosto. Ontem, por exemplo, foi meu dia de cumprir anos. Nesse tempo que os crentes em horóscopo chamam de inferno astral sempre é desmoralizado pelas ocorrências. O agosto me dá gosto. Gosto de viver, ler, escrever e viajar. Neste agosto andei relendo sobre a vida do cearense de Quixeramobim, Antônio Maciel, o Conselheiro, morto de forma covarde pelo Exército da emergente Republica, em 1897. Ocorre que o narrador oficial da história, Euclydes da Cunha, criaria anos depois “Os Sertões”. Com o aval dessa narrativa, Euclydes foi eleito para o Instituto Histórico e a Academia Brasileira de Letras, em 1903, mas também seria assassinado em 15 de agosto de 1909. Neste 15 de agosto estava mergulhado eu nos escritos dos meus diários de 58 e 59, a catar informações de como enxergava a cidade de Fortaleza, no alto dos seus 384 mil habitantes e 15.000 telefones invioláveis. |
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| E AGORA? / João Soares Neto
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Era uma vez uma procissão de caravelas. Perderam-se por falta de vento de popa e acabaram dando com a proa em terras nunca dantes navegadas. Com vento ou sem vento, desceram pela terra a dentro e viram, estupefatos, “quase-pessoas”. E essas quase-pessoas eram donas de tudo, mas ainda não havia cartório nessa época para registrar as terras e cobrar os emolumentos, depois de muito protocolo. Como tal aconteceu é só ler a carta do Caminha, o escriba. E armaram uma cruz em torno da qual rezaram. E por conta dessa cruz quase-todos ainda estão crucificados.
Quase-todos são os muitos dos que foram gerados nas relações entre as quase-pessoas e os quase-perdidos, pois navegar não sabiam. Se o soubessem cá não teriam chegado. Mas chegaram. E como os quase-perdidos não eram de trabalhar, imitaram os ingleses e trouxeram vozes e corpos de África. Mais corpos que vozes. E todos se embaralharam. Surgiu uma raça nova, essa que é produto de toda a turma. E aí começou a vir ao mundo uma gente peculiar, fruto do usufruto da gandaia geral estabelecida por toda a orla e das picadas pelo interior para escavar metais. E levaram, levaram tudo. O que ficou virou geleia. E essa geleia tem o nome do lugar de origem. Esse lugar com progenitores na cidade-estado quase copiada das ideias de Le Corbusier. |
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| Euclydes, o Ceará, Os Sertões e a tragédia / João Soares Neto |
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Interessará aos raros leitores desta coluna, inserida em caderno social, saber ‘notícias de primeira’ do fim do século XIX e começo do século XX? Direi, em rápidas pinceladas, que amanhã, 15 de agosto, faz cem anos que Euclydes da Cunha morreu. Por enquanto, respondo que Euclydes era carioca e não gostava de cearenses. E conto: o primeiro a quem criticou, por escrito, foi Antonio Maciel, dito Conselheiro, tecendo-lhe uma imagem sombria, preconceituosa e até racista. O que Antônio fez? Mandou-se de Quixeramobim, -onde fazia de tudo, pois ensinava e trabalhava avulso - para os cafundós da Bahia por conta da prima e mulher Brazilina que lhe traíra. Já observará o atento leitor que Euclydes era escritor. Bingo.
Depois, poderá indagar por qual razão ele não gostava do Antônio? Vamos lá: Euclydes fora cadete, tendo sido expulso por suas ideias republicanas, estudou engenharia, reintegrado como tenente e a mando da novíssima República Brasileira foi à Chorrochó, Bahia, às margens do Velho Chico, para cobrir a Guerra ou Campanha de Canudos, morticínio de milhares de indefesos. A guerra, com Exército e tudo, partira da premissa falsa de que um mero povoado fundado e liderado por Antônio - que congregava e aconselhava( daí o nome conselheiro) a todos com fé fanática -, ameaçava a Pátria republicana emergente. Euclydes, tísico que era, passou duas semanas entre tosses, conversas e anotações no local, chegando pouco antes do assassínio do Conselheiro, em 22 de setembro de 1897. |
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| SINGULAR / João Soares Neto |
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Singular é uma palavra com várias significações. Pode ser pertencente ou relativo a um. Pode ser algo que não é vulgar, mas especial, raro, extraordinário, excêntrico, extravagante, esquisito ou bizarro. Mas, pode ter algumas dessas significações e ser uma experiência árdua e vitoriosa que completa dez anos. A escolha do nome, certamente, foi a propósito. Quem o escolheu estava querendo construir algo diferente, embora, para tanto, precisasse da habilidade e capacidade que acumulara em outras dezenas de anos. Fim do mistério: estou falando da revista Singular, formato de bolso, boa apresentação e cuidados gráficos que mostram o amor de seu criador, o jornalista Eliézer Rodrigues, formação em comunicação social, anos de batente nos vários escaninhos que fazem uma redação. Um dia, em 1999, esse número cabalístico que, noves fora, dá um. Isto é, singular, raro.
E é o próprio Eliézer Rodrigues, na edição especial, número 28, quem conta: “A Singular surgiu, não por acaso, e sim por uma necessidade de continuar, alimentando a inquietação pela notícia, após anos no batente de redação”. E cita, com acuidade, o pensamento de Dino Buzatti, jornalista e romancista italiano, através de seu personagem Drogo: “Tenho a impressão que o importante está para começar”. Cada número – e já são vinte e oito – é uma batalha e história. São novos colaboradores, diagramadores, anunciantes a conquistar e tensão até que a revista brote em formas e cores, oferecendo portabilidade ao leitor. |
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| DIA DO PAI / João Soares Neto
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Ninguém é pai sozinho. É preciso a conjunção de um homem e uma mulher, para, por amor, desejo, negligência ou imprudência, haver o contato físico que, dependendo de fatores vários, transforma-se em fecundação e, passado o período da gravidez, dá origem a uma nova criatura. Assim, mesmo parecendo óbvio, somos o produto de vontades, acaso, talvez educações díspares e ambientes com características distintas.
Sob o ponto de vista genético, herdamos o que agradecemos e também o que lamentamos. Desse modo, o pai parece ser apenas o mero detonador de um processo. A mãe é a geradora ou fiel depositária, estabelecendo, por nove meses, laços biológicos, de nutrição e afeição com alguém pulsando em seu interior. Essa elementar conclusão nos leva a crer que o pai possa ser um ente periférico, especialmente se a mãe for alguém a tentar, consciente ou inconscientemente, minimizar o papel do parceiro. É herança dos séculos passados a mistura dos papéis sociais de pai e marido. São coisas absolutamente distintas. |
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| CRIANCAS E LIVROS / João Soares Neto |
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Fiquei feliz em ver na cidade de Paraty, RJ, a Flipinha. Uma folia paralela para crianças em meio à, digamos, Flipona, a festa literária internacional, exclusiva para adultos. Uma das coisas que me chamou a atenção na cidade, foi a ambientação das praças carregada de simbologia infantil, tais como animais feitos de papel ‘marché’, adolescentes seguindo os passantes com pinturas brancas nos rostos e os corpos vestidos de negro. Como a festa era em homenagem ao poeta pernambucano Manuel Bandeira havia os célebres e grandes bonecos que enfeitam os carnavais de Recife e Olinda.
Todos os professores recebiam, gratuitamente, um Manual da Flipinha. Nesse manual, realizado pela Associação Casa Azul, fica claro que ele é um apoio ou ferramenta das salas de aula para provocar o aprimoramento do estudante, através do livro e da conseqüente leitura. A intenção é transformar as crianças nascidas em Paraty em leitores conscientes, dando à cidade um modelo de turismo cultural a dar exemplo a todo o país. Assim, professores foram engajados à Flipinha e o que se via era um salão aberto, com palco, lotado de crianças, ávidas por conhecimento. |
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| Arimatéia Santos / João Soares Neto
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Após luta renhida, José de Arimatéia Santos deixou-se levar aos 81 anos, cercado por sua família nuclear.Partiu com a tranqüilidade dos que sabem ter trilhado o caminho dos justos. Arimatéia foi, em vida, uma pessoa rara. Ele conseguia ser fiel, ao mesmo tempo, ao Grupo Edson Queiroz, ao qual dedicou meio século de trabalho; à família, especialmente, D.Isolete, sua musa em tantos versos compostos, às filhas Mônica e Fernanda, aos genros Otávio e Fernandes, e aos netos. Reunia essa turma e, todos os anos, viajavam pelo mundo afora.
Era também leal ao Lions Jangada, o clube de serviço que integrava; à Saerg, sociedade benemérita por ele criada, que amparava jovens paupérrimos; aos colegas do cooper matutino na Beira-Mar e aos amigos da Turma dos Sábados, fundada na TV- Verdes Mares, ainda quando o Chanceler Edson Queiroz era vivo. Cordial, capaz e simples, Arimatéia era referência na equipe que ajudou a formar um dos mais sólidos e respeitados grupos econômicos do Nordeste. |
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| BIBLIÓFILOS: 25 ANOS DEPOIS / João Soares Neto |
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Bibliófilos são seres estranhos no mundo pós-moderno. Apegam-se a capas e conteúdos de folhas amarelecidas pelo tempo e, pouco a pouco, se tornam cativos dos livros. Bibliófilos não são ruidosos. Por excelência, devem ser aquietados ao trilharem a ainda não bem entendida e definida tarefa de amar e cuidar de livros, especialmente os preciosos, antigos e raros.Mas o que é livro raro? Pergunta difícil. Nem todo livro antigo é raro. Tampouco, quando apenas só existe um exemplar dele.
Ana Virgínia Pinheiro, no “Glossário de Codicologia e documentação” e em “Que é livro raro”, diz: “Antiguidade não é sinônimo de raridade, nem garante o mérito de um livro... A noção de raridade bibliográfica envolve tantos valores e circunstâncias que é necessário formalizar uma metodologia para organizar esse conhecimento. O primeiro passo está em por em confronto os conceitos de raro, único e precioso”. |
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| LUA DESVENDADA / João Soares Neto |
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Terça, 20 de julho, completa quarenta anos da subida da espaçonave americana Apollo 11 à Lua. Nesse tempo eu estava no Rio e as imagens da rede Globo mostravam, com certo atraso(delay) o que a televisão americana, enlouquecida, descrevia. Neil Armstrong e Edwin Aldrin manquejam nos grossos trajes espaciais na branca planície lunar. Deles, só víamos os rostos por trás das lentes dos capacetes. Era tarde da noite friorenta, a sala da televisão repleta de gente. Havia silêncio respeitoso. As expressões dos rostos, lembro bem, demonstravam espanto e admiração pelo feito, mas houve quem dissesse: isso é uma farsa.
Até hoje, passados 40 anos, há livros, teses e audiovisuais que levantam a hipótese de uma encenação para quem, como o americano, seria acostumado a fazer cenários hollywoodianos, quase verdadeiros.Agora mesmo, acabei de ver um vídeo com o dístico "Top Secret", supostamente do Departamento de Estado dos EUA, mostrando um civil, em trajes comuns, ao redor do passeio de Aldrin e Armstrong. A farsa, todavia, pode ser a edição da imagem verdadeira com superposição de outra pessoa. |
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| FLIP, A VOLTA / João Soares Neto |
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Estou vindo da Filp -Festa Literária Internacional de Paraty, Rio. Fui ver para crer. A Flip não é feira de cultura, tampouco de livros. Mas, paradoxalmente, é um pouco disso. O seu ar pós-moderno é a procura de se caracterizar como uma festa múltipla com intelectuais, jornalistas, câmeras de tvs, cantores, acadêmicos, estudantes, "bichos-grilo" e visitantes. Usa o espaço privilegiado e bonito do Centro Histórico (sem veículos) de Paraty, cujo pavimento é caracterizado por lajes ou calhaus assimétricos dando aos pedestres um requebro no desequilíbrio ao andar.
Acima do nível do chão ergue-se o casario branco, tais como o quase-restauro feito em Salvador (Pelourinho), Recife (centro antigo) e Fortaleza (área do Dragão do Mar). As praças e parques são sombreados, cuidados e têm brinquedos. Até na principal igreja houve concerto público de música brasileira (choros, dobrados, emboladas e toadas), cujo regente era um fagotista cearense de Tauá, Francisco Formiga, que incluiu no repertório da noite a Suíte Hermética, do também cearense Liduino Pitombeira. Mas quem ganhou a maioria dos holofotes foi Chico Buarque. |
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| OBSERVAÇÃO / João Soares Neto
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Rio. Estava lá e não se encontrava. Habituara-se a grupos pequenos. Muita gente não fascinava a seus olhos. Torcia o nó da gravata. O vozeio aumentando e o relógio de pé, antigo. marcava o tempo.Tinha o olhar da observação e captava descompassos sociais após cada chegada triunfal e a saudação aos próximos. Luzes havia e o calor das mãos não irmanava pessoas. Elas poderiam sim, enaltecer o momento, descobrindo-se umas para as outras ou procurar o caminho da prosa factual. Mas, eram estranhos, entre si.
Nem o aprumo na decoração e o ambiente iluminado e criativo, análogo a outros, eram admirados. Como deveriam ser por quem estava ali por motivações quaisquer. Apresentações e saudações feitas. Eram muitos os previstos e os inesperados, mas tudo correu no mundo da cortesia e civilidade a presidir encontro entre pessoas de falas e saberes variados, sem faltar o disse-me-disse costumeiro, de soslaio. Uns ficaram próximos, outros distantes, mas isso sempre aconteceu, desde a Grécia antiga. Palavras amáveis foram trocadas, umas com alma, outras por arte. |
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| MOTOTAXISTAS E A LEI / João Soares Neto |
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Já andei de moto. Ainda tenho pequena cicatriz de queda levada. Eram outros tempos. A cidade comportava a convivência entre motos e carros. Hoje, tempos outros. Motos e carros disputam as faixas de pista sobradas das vans de aluguel, ônibus e caminhões. As avenidas e ruas são palcos diários de acidentes. O problema com as motos é que os acidentes são mais freqüentes e o impacto é maior pela pouca proteção.
As motos levam, quase sempre, duas pessoas. Uma é o guiador, dono da moto ou arrendatário. A outra é um passageiro apressado. Falo das mototáxis, produto típico de país ainda subdesenvolvido. Imagina, falar de mototaxistas para um inglês. What? Até os chineses, ainda pobres, já adaptaram os seus riquixás puxados à força humana para motos. Assim, são triciclos. Menos perigosos. |
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| A ROUPA E O MONGE / João Soares Neto |
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Ninguém é obrigado a saber que a palavra “apple” não é apenas maçã, em inglês. Tampouco, lembrar de Nova Iorque, a “big apple”. Acontece existir uma empresa de informática que incorporou esse nome comum de quatro letras. Ela começou pequena, cresceu demais, teve crises e um de seus fundadores, Steve Jobs, já saiu dela. Depois, retornou. Não vamos falar de computadores, negócios, iPhone, hoje o carro chefe dessa empresa. Estamos interessados no detalhe.
Pomos os olhos em uma foto atual da European Press-Photo Agency e vemos Steve Jobs de calça jeans, sem cinto, camiseta preta de mangas compridas e uma caneca (daquelas que o Jô Soares gosta de mostrar em seu programa) de café à mão. Pois bem, esse é o trajo oficial de Jobs, nada de roupas de estilistas, tampouco ternos ou casacos de animais silvestres. Steve poderia, é verdade, comprar tudo o que quisesse vestir, mas optou por essa maneira casual. Nos jornais brasileiros vêem-se empresários e executivos de lustrosos ternos, gravatas com cores fortes e sapatos de cromo. Sempre se disse que “a roupa não faz o monge”. |
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| PARATY E A FLIP / João Soares Neto |
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Devo estar em Paraty, cidade entre Angra dos Reis e Ubatuba, quase à margem da estrada Rio-Santos. São quase quatro horas do Rio de Janeiro para cá. É inverno por aqui. Nada que um agasalho ou um blazer não resolva. Paraty é cidade histórica, com preservação de algumas áreas e prédios. Tem praia, bares, restaurantes e pousadas de todos os tipos. Vive do turismo, férias e pacotes de viagens, especialmente neste início de julho, quando tudo triplica de preço. Vim, curioso que sou, ver a Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP. Há dúvidas sobre a essência literária dessa festa. Vim para conferir.
Neste ano, por exemplo, discute-se a obra do poeta pernambucano Manuel Bandeira, ao mesmo tempo em que, imaginem só, são apresentados cantores (os eternos Francis Hime e Olívia Hime), filmes e até histórias em quadrinhos (HQs). Parte-se daí para agitar o relacionamento amoroso, nas visões do cineasta Domingos de Oliveira, diretor de “Separações” e do escritor Rodrigo Lacerda. Claro que existem atrações internacionais. A primeira atração é o neodarwinista, Richard Dawkins. Depois, Chico Buarque e Milton Hatoun, conversando sobre o que as suas obras ajudam na formação do país. |
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| BRIGAS ENTRE GRUPOS / João Soares Neto |
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Gostaria que essa estorinha que vou contar fosse concluída por você, caro (a) leitor (a). Veja que situações poderá criar. Use o seu talento, descubra-se escrevendo e trace o rumo de sua prosa. Escrever não é difícil, tampouco chato. A dificuldade é começar. Eis a estória: Encontraram-se, não por acaso, a Alegria, a Paz, a Harmonia, a Força e a Coragem. Formavam um grupo coeso, mas tinham adversários. Haviam sido desafiados pelo grupo rival, constituído pela Tristeza, a Guerra, a Desavença, a Fofoca e o Medo. Esse encontro, coletivo, era o primeiro. Um a um, já havia acontecido encontro.
A Alegria quase sempre vencia a Tristeza. A Paz vencia e perdia. A Desavença levava vantagem com a Harmonia. A Força tentava sobrepujar a Fofoca, que era tinhosa. E a Coragem era sempre tentada pelo Medo. Assim, iam vivendo temerosos. Um grupo temendo o outro. Agora estavam, reunidos, tentando agir junto. Decidiram que a Paz seria a líder do grupo, pois sabia conter os ímpetos da Alegria, dar uma mão à desencantada Harmonia e usar a Força e a Coragem contra os inimigos. Por outro lado, os do outro grupo, nomearam a Guerra como seu chefe supremo, apesar das ponderações da Fraqueza e do Medo. |
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| ENTRAR E SAIR / João Soares Neto
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O ser humano tem ambições. Uns, aspiram apenas sobreviver. Outros, vencer. Para a maioria vencer é estudar, conseguir emprego,ter filhos ou ser dono do seu destino. Mas, há os que almejam muito mais. Precisam de fama, sucesso, força, dinheiro ou possuir poder, seja ele qual for. O caso do Senador José Sarney é emblemático.
Conseguiu tudo o que um homem comum ambicionaria ser. Casou, teve filhos, formou-se, tornou-se deputado, senador por dois estados, governador e até Presidente da República. Além disso, é membro da mais prestigiada instituição cultural do Brasil, a Academia Brasileira de Letras.
É um pai à moda antiga, cuida bem dos seus, mas tem a política como ópio. Assim, aos 79 anos, sofre uma série de denúncias de adversários, jornalistas e até de aliados. Não entro no mérito da questão, mas indago-me se não teria sido mais sensato para ele, nesta quadra da vida, escrever sua biografia, criar outro romance como o bom “Saraminda” ou presidir a Academia? |
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| CINCO MILHÕES / João Soares Neto |
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Um apresentador de televisão domingueira acaba de renovar seu contrato com uma rede nacional. Vai ganhar cinco milhões por mês, entre salário e merchandising. Ou seja, a propaganda, disfarçada ou não, em que aparece. Então, alguns poderão perguntar: por que fazer vestibular, cursar cinco anos e depois ralar muito? Para que tanta gente se mata estudando para concursos? Para que muitos ficam pendurados em bancos, financeiras e afins? Dirão ainda: Entenda a razão pela qual médicos, engenheiros e advogados, as profissões antigas, ganham uma insignificância por mês.
Vocês poderão pensar: isso é despeito, talento é assim, ganha milhões. Poderiam pensar ainda: vai lá e veja se faz o que ele faz? Não se trata disso, o que nós, os mortais comuns, os sem talento, não entendemos é como um cristão fica duas ou três horas vendo e ouvindo alguém a dizer uma série interminável de bobagens, entrevistar pessoas que precisam estar no ar para aparecer, ouvir cantores de vozes esganiçadas, fazer um júri com aspirantes ou decadentes artistas e, no final do mês, levar cinco milhões. |
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| DEPOIS DA COPA / João Soares Neto
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Sou brasileiro, fui péssimo peladeiro e gosto de futebol. Torço, porém, de forma diferente. Tenho rasgos de paixão, mas a lucidez aparece, às vezes. Após o anúncio das cidades da Copa/14, comecei a ler a previsão de gastos. São bilhões para cada uma das 12 escolhidas. Boa parte será gasto na adequação ou construção de novos estádios e infra-estruturas de acesso. Fiquemos, por exemplo, com Fortaleza. Já existe o Estádio Castelão, reformado há poucos anos. São previstos novos investimentos de 400 milhões de reais em sua modernização e acessos.
A partir desse fato, lembrei-me do exemplo do Estádio Engenhão(João Havelange), no Rio de Janeiro, construído para o Pan Americano e hoje cedido ao Botafogo, por conta de seu alto custo de manutenção. O público virou privado, sem pagamento. Voltando ao Castelão: poderão serão realizados, acredita-se, até três jogos. Assim, tudo será consumido em 270 minutos, por brasileiros e estrangeiros. Terminada a Copa, o que será feito desse e outros estádios que prevêem até cobertura contra a chuva? Estive ano passado na China e visitei, com vagar, o Estádio Ninho do Pássaro. |
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| O QUE É NAMORAR? / João Soares Neto
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Fique claro ser hoje o namoro aberto a todas as idades, sem essa de ser privilégio de adolescentes. Nada contra os jovens. Muito a favor dos namorantes, independente do registro civil. Para sair da mesmice, resolvi entrevistar algumas pessoas, entre 20 e 60 anos, de ambos os sexos, todas com boa escolaridade, a maioria com nível superior.A todas, entreguei uma caneta e um pedaço de papel - desses blocos de notas - e pedi que respondessem, na hora, colocando idade, profissão e pseudônimo, a seguinte pergunta: O que é namorar.
Aguardei as respostas. Foram entregues, rápido. Mudei os pseudônimos para números. Vamos primeiro às respostas dos homens. Começo pelo mais velho, a quem chamarei de Um: empresário, casado, 53: "é viver momentos felizes". Dois, engenheiro, casado, 31, refere: "é estar feliz todos os momentos". Três, economista, casado, 30: "é compartilhar momentos, alegria, momentos tristes... é poder usufruir da companhia com cumplicidade". Quatro, solteiro, economista, 24: "aproveitar o que há de melhor na vida ao lado de quem amamos. |
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| MADRILENHAS / João Soares Neto
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Dizia o pintor cearense Antônio Bandeira (Fortaleza, 1922. Paris, 1967) sobre exposições: "Antes era preciso somente o ângulo visual para se olhar um quadro. Hoje necessitamos mais que isso. Queremos também o ângulo do sentimento. Buscamos os olhos não somente na cara, mas também no cérebro e no coração". Para ver arte é preciso estar atento a todos os sentidos e emoção. Vando Figueirêdo é pintor inquieto. Não é aprendiz. Sabe e o faz em longo percurso. Teve a coragem de, já maduro, sair do casulo, atravessar mares e aportar na terra-mãe, Portugal.
Depois, por sentimento atávico ou existencial, retornou. Vive procurando faces novas no imaginário de sua arte. Experimentado na lida contínua e árdua de assumir-se artista, vê sempre com olhos púberes (re)buscado em suas lentes intra-oculares. Agora, expõe estas "Madrilhenhas" na cidade. O título é o ponto de vista do autor. É o conjunto de obras que teria exposto em Madri, Espanha, se a saudade ou a vida não empurrasse sua nau pictórica de volta aos mares turbulentos e difíceis do Brasil.
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| VÔO NOTURNO / João Soares Neto |
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Por duas vezes passei situações de risco em vôos. Vou contar uma: foi de Portugal para o Brasil. O avião decolou à noite, serviram o jantar e me acomodei para dormir com máscara sobre os olhos. Cochilei. Depois, recebi um cutucão. Era o vizinho de poltrona, um português de olhos arregalados a dizer sem meias palavras: Tu sabes que vamos morrer? Procurei acordar de todo e ele me apontou o motor parado, ao lado. Já todas as luzes da cabine estavam acesas e havia um corre-corre de comissários a verificar cintos e que tais.
De repente, o comandante do avião se identifica pelo microfone e diz para permanecermos sentados e obedecer instruções dadas a seguir. Aí, o comissário chefe pede para todos tirarem cintos, óculos, sapatos, objetos pontiagudos, mostra coletes salva-vidas etc. Estamos em noite escura sobre o Atlântico. A Europa ficou para trás. Procuro na mente as aulas de geografia e vejo só existir alternativa em África, nas ilhas de Cabo Verde ou Canárias. O resto é oceano profundo. Meia hora se passa e o comandante volta dizendo: vai voar baixo para liberar combustível, ficar mais leve e seguirá para as Ilhas das Canárias. |
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| VILA DAS FLORES / João Soares Neto
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Há algum tempo recebi "Vila das Flores" de presente. Levei-o para casa e, em meio ao caos que são os meus muitos livros ainda não lidos, ele se perdeu. Um dia, Carlos Macêdo, seu autor, pergunta: Já leu? Não havia lido. Agora, com um segundo exemplar, posso dizer, de cara, que Macêdo não é como ele se imagina: "um louco". É alguém capaz de escrever com ternura, misturar gêneros e ter a ousadia de ser um autor independente neste Brasil de tão poucos leitores Todo escritor parece um ser carente, solitário, manejando a palavra como argamassa sem querer fazer tijolo, mas edificar texto que o torne real no conturbado mundo da escrita e da leitura.
A leitura é um exercício de paciência para quem não tem o hábito e é uma opção rica e natural para quem sente prazer em fazê-lo. Ela pode ser até uma forma de demonstrar a capacidade humana, seus devaneios, anseios, medos e afirmações. Na introdução, o próprio Macêdo afirma: "é que Vila das Flores, mais que um lugar no mundo é uma ocorrência curiosa, dessas que não se esquece com facilidade, que permeia o dia a dia sem deixar sequer respirar". Creio ter sido Guimarães Rosa quem disse: "é porque narrar é resistir." Assim, Macêdo em seus dez textos, se mostra um combatente da escrita. |
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| AUGUSTO. PONTES PARA O SABER / João Soares Neto
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Nossa relação com Augusto Pontes remonta aos anos 60. Nessa época, Barros Pinho, Josino Lobo e eu éramos alunos da iniciante Escola de Administração. Por sermos tidos, dentre outros, como líderes, fazíamos política universitária, não só por ideologia, mas para consolidar a difícil institucionalização da Escola de Administração, então agregada ao Estado do Ceará. Pois bem, Augusto era estudante/político ou político/estudante, fazia Filosofia meio sem concluir o curso.
Estava em quase todas as reuniões e assembleias de centros acadêmicos da antiga União Estadual dos Estudantes - que congregava os universitários - e do Diretório Central dos Estudantes, que tinha assento no Conselho Universitário. Descobrimos, desde cedo, que Augusto era um exímio pensador e isso já ficara comprovado na sua relação de trabalho com Barroso Damasceno, na Caba Publicidade. Sabia fazer graça dos infortúnios comuns aos seres humanos, especialmente nossos que lutávamos de forma quixotesca por melhores dias para a Universidade e para o Brasil. Não vou repetir o que já foi dito à exaustão pelos que deram depoimentos quando da sua morte, há duas semanas. Na noite de seu velório, ouvia o lamento sentido de sua filha Natércia ao pé de seu esquife. |
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| FUMO E VIDA / João Soares Neto |
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Hoje é o Dia Internacional Sem Tabaco (fumo). Ser contra é muito fácil. Basta criticar ou discriminar quem fuma. A história é bem mais complexa e merece reflexão coletiva, inclusive das instituições e famílias. Desde 1987 a OMS - Organização Mundial da Saúde, estabeleceu o dia 31 de maio como data anual para, de forma explícita e objetiva, conscientizar a sociedade sobre os males e consequências do fumo. As estatísticas ficam para institutos de pesquisa e órgãos governamentais de saúde, mas sabemos o quanto o cigarro pode abreviar a vida de uma pessoa: doenças e morte evitáveis. Além de abreviar, pode ainda piorar a sua qualidade nos anos derradeiros.
Todos nascemos para morrer, vivemos agora no intervalo entre o nascimento e a morte, mas o que fazemos com o nosso corpo e a mente faz diferença, para mais ou para menos. Um caso concreto: meu pai fumava muito desde a adolescência. Foi obrigado a parar aos 63, por conta dos problemas decorrentes do uso imoderado do cigarro. Viveu mais sete anos, após o fumo, mas ainda foi acometido de infarto fatal por conta das múltiplas sequelas venosas e arteriais. O vício é de tal modo difícil de curar. Vejam, irmãos meus, sabedores das aflições e da causa da morte do nosso pai, ainda fumam. De minha parte, não resisti ao enjôo ao experimentar – na adolescência - o cigarro e tive sorte. |
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| NÓS E AS CHUVAS / João Soares Neto
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Sexta, 22, foi o dia da biodiversidade, aproveito então para dizer o óbvio. Nós todos somos o planeta Terra. Todos sabem – ou deveriam saber - sobre a diversidade biológica, isto é, a heterogeneidade da natureza viva. Sabem, mas não cuidam. Tenho esperanças de mudanças em nossos comportamentos pessoais, os péssimos costumes advindos da origem rural de parte da população urbana. Não respeitamos a fauna, tampouco a flora e somos predadores do ecossistema de nossas cidades. “Jogar no mato” transformou-se em jogar em qualquer lugar.
A rua é a lixeira gerada pela falta de educação. Agora mesmo estamos vivendo uma crise decorrente de um bom inverno – sempre pedido – que chegou e encontrou esgotos entupidos, rios, lagoas, riachos, córregos com margens ocupadas por famílias carentes em permanente situação de risco e uma malha viária mal asfaltada sem calhas de escoamento por gravidade ou por drenagem. As cidades viram caos, acontecem enchentes não só por culpa da pluviometria, mas por despreparo coletivo e falta de ação preventiva dos seus gestores públicos. |
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| Filgueiras Lima: Balada do Centenário / João Soares Neto
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Ontem, 21, Antônio Filgueiras Lima, com a alma certamente genuflexa na eternidade, completou 100 anos. O marido de D. Amazônia, o pai de Ruy, Antônio e José aliava a sensibilidade de poeta à devoção do educador que formava pessoas para a vida. Em 1959, quando Filgueiras Lima completava 50 anos, recebi de suas mãos uma folha de papel, de razoável gramatura, que continha o poema Balada do Cinquentão:
“Fatiguei-me tanto, amada/Viajei cinquenta léguas/por essa sinuosa estrada/ que toda, a pé, percorri/dentro d’alma fatigada/dos tesouros que juntei/ não resta nada? a saudade/ de tudo quanto gozei/de tudo quanto sofri/dos beijos que te ofertei/ dos vento que te devi/de um rio que atravessei/ inda criança e... perdi/claro sino que escutei/na cidade em que nasci/ doces rimas que rimei/quando menino – e esqueci/ das gerações que eduquei/pelas quais tanta lutei/ e das quais tanto aprendi/dos tempos da mocidade/ambiciosa, em que sorri/embalado na esperança/ de um bem que nunca se alcança/de um futuro que... não vi/ oh! futuro! espelho mágico/ montanhas de ouro, brilhantes/ as rosas caem do céu/abre-se o mar em corais/ tudo um sonho evanescente/ hoje só tenho passado/ hoje só tenho presente/ mais passado que presente/ futuro não tenho mais”. |
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| Sobre a Vaidade dos Homens / João Soares Neto |
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Li com atenção um pequeno livro. Escrito em 1752 por Mathias Aires: “Reflexões sobre a vaidade dos homens” é uma excelente leitura. O título parece dizer quase tudo, mas é um ensaio filosófico de fácil absorção. Mathias Aires era brasileiro, nascido em São Paulo, em 1705. Adolescente, acompanhou seus pais a Portugal e lá quase concluiu seus estudos em Coimbra, mas foi na Galícia onde se licenciou em Artes. O livro teve a transcrição e adaptação do Português da época para o do nosso tempo feita por André Campos Mesquita. O autor se baseia, de partida, no trecho bíblico do Eclesiastes, escrito em latim: “Vanitas vanitatem et omnia vanitas”. Traduzindo: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.
É preciso contextualizar a época: a Península Ibérica era essencialmente católica e a Inquisição dominava a fé. Tanto isso é verdade que o livro, como todas as outras produções literárias e artísticas da época, precisou do aval do Santo Ofício. Havia um Qualificador da Fé. No caso, o frei Marcos de Santo Antonio. Ele diz, ao conceder a licença: “Revi por ordem de Vossas Ilustríssimas, o livro intitulado Reflexões sobre a vaidade dos homens, que pretende imprimir seu autor Mathias Aires... parece-me não conter coisa que se oponha à nossa Santa Fé, ou bons costumes, e que merece lhe concedam Vossas ilustríssimas à licença que pede. Esse é o meu parecer”. Como se nota, o escritor era previamente censurado, o que talvez tenha impregnado sua filosofia de “discursos morais”. |
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| MÍDIAS E ESTRANHOS / João Soares Neto
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Não considero salutar o uso de revistas, televisões, rádios, cadernos e suplementos de jornais, sejam de cultura, entretenimento, arte ou sociedade, para enfocar, com destaque exagerado, figuras estranhas ao nosso meio social e à área de influência do veículo. Um exemplo: o simples fato de o cantor e compositor Bob Dylan ter lançado um CD foi objeto de notícias em TV, artigos e páginas de jornal.
Ora, há tanto a divulgar sobre artistas locais, regionais e nacionais. Acho despropósito o verboso incenso ou confete em artista internacional sem nada a ver com a nossa cultura. Nada contra o cantor e compositor Bob Dylan, mas a favor de quem não tem espaço na mídia. “Deu no New York Times” é uma expressão a dizer: o fato – ou a pessoa – é tão importante ou raro a merecer a citação naquele jornal nova-iorquino. Sendo o fato importante ou raro é justo se louvar alguém de fora, mas usar isso como rotina ou como pretensa demonstração de inserção na cultural internacional é bobagem. |
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| História do Dia das mães / João Soares Neto
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Há uma ilação entre o Dia das Mães e a pieguice. Agora, nestes tempos, não há como ser piegas. A mãe não é mais a mulher com 30 dias de resguardo, e se contentando em procriar, fiar e cuidar da casa. A mãe de hoje é alguém preocupada com os filhos colocados no mundo. Ciosa de suas crias trabalha tal qual o companheiro e acompanha o desenvolvimento dos filhos.
Procura entender suas angústias, carências e dificuldades em obter êxito profissional. No tempo restante, cuida de si e de sua vida afetiva. A história do Dia das Mães remonta à mitologia grega e passa por Rhea, mãe dos Deuses, em nome de quem era celebrada festa na entrada da primavera. Séculos se passaram até a Inglaterra, século XVII, antes da Revolução Industrial, quando todos trabalhavam sete dias por semana. Concedia-se, então, às operárias britânicas uma folga dominical, no quarto domingo da Quaresma, para ficarem em casa com suas mães ou seus filhos. |
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| A VOLTA À PRAÇA / João Soares Neto
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Estava ali parado. Sentara na praça de sua infância, mas não era a mesma. Haviam-na mudado. Ficaram o nome e a memória. A propósito de revitalizá-la tinham copiado um projeto estrangeiro e ela era apenas um simulacro de sua arquitetura. Ali não era mais o seu lugar e, paradoxalmente, o era pelas lembranças invocadas. A primeira delas e a mais forte era a da festa popular após a vitória da Copa do Mundo de Futebol em 29 de junho de 1958. Nessa tarde havia feito uma promessa: se o Brasil ganhasse, não vibraria. Iria apenas ver a alegria dos outros.
Chegara à praça com a mão esquerda metida no bolso da calça de brim afagando as contas de um terço aliviando a sua fé dúbia, mas a cobrar respeito à promessa feita. Agora, lustros passados, sentara na mesma posição daquela tarde, mas o banco era outro e os transeuntes, estranhos. Pensava com os seus botões e admitia se encontrar entre a lembrança do passado e o tédio daquele involuntário passeio em procura de sua alma. Agora, está preocupado com o tempo dissipado desde aquela afastada tarde do dia de São Pedro. Em meio ao barulho do ir e vir das pessoas, camelôs em profusão, sua alma se investe de silêncio e faz girar a ampulheta do tempo, grão a grão, a se esvair em sua existência sem grande expressão. |
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| DILMA E O LINFOMA / João Soares Neto |
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“O medo nunca levou ninguém ao topo”. Públio Siro. Lia na Folha o artigo “Debaixo dos cobertores” de Luiz F. Pondé sobre feministas e homens, quando uma frase me lembrou a ministra Dilma Roussef, a quem só vi em solenidades. Ele diz: “Mas a vida real vem à tona, quando sai de cena a militância e entra em cena a cama onde cresce a solidão das mulheres livres”.
Dilma é uma mulher livre. Construiu isso a custo de uma forte militância, casamentos civis desfeitos e a descoberta madura de que poderia ser uma gestora pública ou, na linguagem neoliberal, uma executiva de governo como o são hoje seus parceiros Henrique Meireles e Guido Mantega. A semana está cheia de notícias sobre a saúde de Dilma. Ela tem um linfoma. E daí?
Todos podem ter um linfoma. Não há escolha, a coisa vem quando quer. É o imponderável. Simplesmente, acontece. Depois de conversar com o presidente Lula e com Franklin Martins, das Comunicações, resolveu abrir o jogo, convocou seus médicos e disse, em coletiva, que ia lutar com chances de vitória, pois havia retirado o único gânglio detectado. Pelo nada que sei de medicina, aprendi que o sistema linfático é uma das defesas do organismo. Nos linfomas, as células podem se multiplicar desordenadamente. |
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| AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA E A NOITE / João Soares Neto |
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“Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”. Sócrates.
Havia tempo que uma conversa noturna não fluía com a desenvoltura da que tivemos com o escritor, professor e crítico da arte Affonso Romano de Sant’Anna. Éramos, além de Affonso, Newton Freitas, Paulo Moraes, o curador de artes Luciano Montezuma, e os artistas plásticos Vando Figueiredo, Cláudio César e Fernando França.
Autor de mais de 40 livros, com sedimentação acadêmica em cátedras no Brasil e no exterior, Affonso é um mineiro essencial: saiu de sua terra, viajou mundo afora e assentou, enfim, sua imaginação em Ipanema, esse território mítico que separa a alegria contagiante de Copacabana do olhar meio snob do Leblon. Lá, entre pinturas, livros, lápis, canetas e computadores, divide o espaço com a consagrada escritora Marina Colasanti, sua mulher. Affonso veio a Fortaleza a convite de Newton Freitas para fazer, na Oboé, palestra sobre o que expõe em seu livro “O Enigma Vazio, Impasses da Arte e da Crítica”, ensaios em que discorre sobre a arte no século XX, poupando os artistas brasileiros. |
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| Notícias Mexicanas / João Soares Neto |
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Os noticiários internacionais sempre dão destaque aos problemas de fronteira entre o México e os Estados Unidos. Esses problemas são crônicos e têm relevo por conta da violência com grupos de narcotraficantes dos dois países. O filme “Crossing over”, traduzido erradamente como “Território Restrito” mostra, em parte, o sofrimento dos sem documentos atravessando a fronteira para os Estados Unidos. O filme não trata apenas de “indocumentados” mexicanos, mas de outras nacionalidades e como atuam os policiais de fronteira e os dos setores de imigração. A brasileira Alice Braga faz uma ponta como mexicana e acaba morrendo nas difíceis travessias nas mãos dos coiotes, bandidos que tentam “facilitar” a entrada nas não muito policiadas fronteiras americanas.
Agora, neste 2009, o Comitê de Segurança Interna do Senado dos luta para diminuir o tráfico de drogas na área que só existe porque os Estados Unidos são os maiores consumidores do mundo. Onde há droga há armas e aí entra o Brasil. É provável que vocês não saibam, mas o Brasil é um dos grandes vendedores de armas do ocidente e, diz-se, que há negócios ilegais com os narcotraficantes mexicanos e americanos. Na semana passada o presidente mexicano Felipe Calderón recebeu elogios pessoais de Barack Obama por sua luta contra os traficantes. |
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| A ARMÊNIA E O 24 DE ABRIL / João Soares Neto |
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Há algumas semanas os irmãos Armen e Boghos Boyadjian, descendentes de armênios, receberam, com suas famílias, os membros da Sociedade Consular para uma reunião social. Era tempo de noite escura. Um piano de cauda, aberto, roubava a cena do salão com telas afixadas às paredes. A área iluminada fronteiriça à praia mostrava, aos nossos pés, um trapiche e o mar remansado por diques de pedras. Nós, representantes de múltiplas nacionalidades, escutávamos músicas clássicas internacionais e as nativas da Armênia. Fez-se silêncio.
Ouvimos então um relato dos dramas dos antepassados dos anfitriões quando, exato nesta data de hoje, 24 de abril, no ano de 1915, teve início o genocídio de um milhão e meio de armênios pelo Império Otomano. Para quem não sabe, a Armênia é um pequeno país-com menos de 30.000 km2 - situado entre o fim da Europa e o sudoeste da Ásia, no que se convencionou chamar de Eurásia. Continua vizinho da Turquia, pelo lado leste, fazendo hoje fronteira com o Irã, o Azerbaijão e a Geórgia. Esse país sofreu, em meio à Primeira Guerra Mundial, um grande, desumano e longo ataque do grupo que se convencionou chamar de os Jovens Turcos. |
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| CORÍN TELLADO / João Soares Neto |
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Maria Del Socorro Tellado López era uma mulher comum do interior da Espanha. Casou-se, teve dois filhos e, mesmo acreditando no amor, divorciou-se após 03 anos, aos 36. Virou escritora e nunca parou de escrever sobre os temas que considerava importante: amor e infidelidade. Escrevia sob o nome de Corín (derivado de Socorrín, diminutivo de Socorro) Tellado e sempre teve contra si o preconceito da maioria dos intelectuais da Espanha.
Volto ao passado e lembro que meu pai era seu leitor inveterado. Eu apenas li páginas avulsas. Achava, na minha pseudo-sapiência juvenil, que era uma escritora menor, pois os seus livros, quase sempre, acabavam bem. O amor vencia, após os dramas. Ainda lembro das brochuras lá em casa em que suas pequenas estórias eram escritas. Tinham, quase sempre, figuras de mulher ou de casais na capa e as letras dos títulos eram rebuscadas, como se manuscritas. |
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| BALDAR AS AULAS / João Soares Neto |
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Não sou dos que fazem muita fé no acordo ortográfico entre países de língua portuguesa. Não acredito que trema, hífen, acento etc. sejam a solução para as nossas diferenças no falar e escrever. Somos 190 milhões de brasileiros. Os do sul do país falam com sotaques e vocabulários diferentes dos do nordeste e do norte. Os do centro-oeste têm peculiaridades que os do leste não compreendem. Imaginem os outros países lusofônicos com diferenças nítidas na comunicação.
O Português em África é distinto do falado em Portugal. Essas regras são uma tentativa para dar identidade ortográfica ao Brasil, Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e Timor Leste. Eles somam 30 milhões de pessoas. Fique claro que não sou lingüista (se escreve com trema ou sem trema?), mas leitor compulsivo. |
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| SALVE FORTALEZA, 283 / João Soares Neto
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Nasci em Fortaleza em meio à Segunda Guerra sob o esplendor do sol, mas as noites, conta a minha mãe, eram escuras. Havia blecaute e medo. Fiz a Primeira Comunhão, estudante do Farias Brito, no ano em que o Brasil perdeu a Copa do Mundo, no Maracanã. Participei de desfiles no Dia da Pátria. Palanques em frente à Igreja do Carmo. Reuníamos-nos na Av, Dom Manuel, dobrando à direita na Av. Duque de Caxias.
Íamos com fardas engomadas e pensávamos que as garotas, no cordão de isolamento, estavam olhando só para nós. Depois da dispersão, na Rua General Sampaio, voltava esbaforido para casa, na Rua Major Facundo. Freqüentei a Biblioteca Pública, na Rua Sólon Pinheiro, por anos seguidos. Lia tudo o que encontrava e foi lá onde encadernei os meus diários, em oficina no seu subsolo. Ao lado da biblioteca, assisti, por anos, a aulas de inglês no IBEU e, no mesmo quarteirão, ouvia ensaios de música clássica no conservatório que ali funcionava.
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| PAIXÃO, RESSURREIÇÃO E MORTE / João Soares Neto
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Neste corre-corre de todos nós, a Semana Santa ficou reduzida, para muitos, a um grande feriadão que começa na quinta e vai até o domingo. Para os que creem e professam a fé cristã, especialmente os da Igreja Católica, a de Roma, esta semana é mais que isso. Ela se prende a um ritual litúrgico em que é contada, vivificada e celebrada a paixão de Jesus Cristo, isto é, o seu julgamento sumário pelos judeus, os passos que o levaram até o monte do Gólgota, onde foi crucificado ao lado de outros dois condenados.
A cruz ou a viga transversa em que foi pregado ou amarrado fazia parte do processo macabro pelo qual os condenados deveriam passar, antes da morte, por atos de vergonha e tortura, expiando, por flagelação, as faltas cometidas e não perdoadas pelo Sinédrio. O Sinédrio era um conselho ou assembléia formada por julgadores ou juizes a decidir, em conjunto, os problemas das cidades. |
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| MACHADO JÁ DIZIA / João Soares Neto |
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Estou passando dois anos como presidente de uma academia de letras. A festa de posse foi bonita. Discursos feitos, inclusive promessas. Depois, vem a realidade nua e crua do dia-a-dia. A academia tem despesas a pagar, sessões a cumprir, revistas e livros a publicar, realizar concursos literários oferecendo prêmios, mas falta dinheiro, a vil moeda que não freqüenta as arcas da maioria das academias. A primeira idéia é procurar Mecenas. Alguém que tem dinheiro e pode dar um pouco do que lhe sobra. Hoje, o dinheiro escasseia. Os tempos, parcos.
E os verdadeiros Mecenas, raros. Outra idéia é procurar as leis de incentivo cultural, quer no Município, Estado ou União. Aí entram um cipoal de certidões, documentos, reuniões, estudos, projetos, contador a fazer balanço e demonstrações financeiras. O que era letra vira número. Os projetos demoram a ser feitos, analisados burocraticamente, os agentes públicos que os liberam tem cargos de confiança e, vez por outra, são mudados. Aí tudo recomeça. Por outro lado, como acadêmicos são vitalícios e imortais, alguns não se sentem motivados a comparecer às sessões. |
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| VISÕES EM DOSE DUPLA /João Soares Neto |
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Deixo claro, de saída, que não sou crítico de arte. Sou apenas um escrevinhador e admirador de olho vário que procura ao longo da vida ter sempre contato com o mundo das artes. especialmente a pintura. Por tal razão é que me atrevo a escrever algo sobre o trabalho de Nicolas Nascimento, cearense, e Píer Giorgio Serralunga, italiano. São pintores calejados, conhecidos de galeristas e marchands, participaram de individuais e coletivas, careciam de um público heterogêneo como o de um shopping, onde há muita energia no ar e se misturam crianças, jovens e adultos.
Universitários dividem o espaço com professores, donas de casa com trabalhadores, profissionais liberais com empresários, aposentados com militares, religiosos com ateus etc. É um micro e infinito mundo. Voltando aos dois, Nícolas e Serralunga, deve ser dito que tem formação em escolas e países diversos, artistas deste mundo de hoje em que a pintura não é propriamente um artefato bem acabado, nem se enquadra em uma só característica ou escola, como se fora algo clássico ou industrial, feito em série. Ao contrário, deixa recados nas próprias transgressões e deformações das suas figuras, cores e matizes. |
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| FORMANDO GESTORES / João Soares Neto
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Faço parte, não por mérito, da direção Escola de Formação de Governantes do Ceará. Essa Escola, fruto de uma visão de longo prazo, procura, como o próprio nome o diz, treinar pessoas e qualificá-las para a prestação de serviços na área pública como gestores. Elas não precisam ter, necessariamente, curso superior concluído, mas é importante que estejam vinculadas a uma entidade pública, nas esferas do Executivo, Legislativo e Judiciário, ou a atividades do Terceiro Setor, como ONGs, Institutos etc.
Neste ano de 2009, estamos começando o XIII Curso que envolve aulas e práticas. A intenção é que pessoas, em início de carreira, ou as que queiram se reciclar, possam, com freqüência de apenas dois dias por semana, no horário noturno, ter um ganho de qualidade em suas vidas profissionais. A abrangência do currículo permite que cada integrante possa ter um espectro crítico básico sobre democracia, direito, cultura, política, governabilidade, ética, desenvolvimento humano, teoria da complexidade e educação para a cidadania. |
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| PESSOA E MULTIDÃO / João Soares Neto
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Estive a ler artigo de Maria Rita Kehl, psicanalista, com o nome de “A era das multidões”. Nesse trabalho, ela cita a obra do francês Gustave Le Bon (1842-1931), especialmente o livro “Psicologia das Multidões”, analisando o comportamento de massas formadas por pessoas heterogêneas que, em determinado tempo ou circunstância, passam a ter uma conduta uníssona.
Seria, por exemplo, o caso dos seguidores de líderes, sejam democratas, ditadores, chefes de Estado, religiosos etc., a criar ou praticar determinadas teorias que, lato senso, nos levam até a cogitar não ficarem longe, nem muito diferente do procedimento das torcidas organizadas dos grandes times de futebol brasileiro e do mundo. Na África, na recente visita do Papa Bento XVI, três pessoas foram pisoteadas e mortas pela multidão. Vi, também pela TV, a luta entre a torcida do Santos e a Polícia Militar, ao final do jogo em que o Corinthians ganhou por 1X0. |
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| CHEGAR LÁ / João Soares Neto
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Todos desejam chegar lá, mas poucos admitem quando atingem. O relativismo do tempo dá ímpeto para aceitar um quase, mas com resistência. Uns, fingem. Outros procuram ocultar os sinais com ajustes estéticos e a maioria teima em dizer: não sou. Primeiro, vieram os antibióticos, o saneamento básico melhorou, a engenharia ajudou a ciência médica a fazer sua parte e a consciência social resultou em cuidados que prolongam a existência. Hoje, não é raro se chegar à idade limite para a infância do outono, com energia e integridade física.
Esse fato é comemorado por uns, mas causa perplexidade a outros. É confinante, para a maioria, o tempo da jubilação e, com ela, a inapetência para o ócio e o medo pelo que virá depois. É o tempo de fazer contas, todos tem esse direito, mas só 67% obtém os benefícios da previdência social. E desses, 54% ganham só um salário mínimo. A média de renda dos que se retiram é de 778 reais. Esses dados e, muitos outros, foram fruto de pesquisa Datafolha, em novembro de 2008. 61% já sofreram cirurgias e 82% tomam remédios, sendo, pela ordem, as maiores queixas: dores musculares, pressão alta, reumatismo, colesterol alto, problemas cardiovasculares, osteoporose, diabetes, doenças respiratórias e sinusite. |
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| BRASILULA E OBAMAMERICA / João Soares Neto
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Não houve grande repercussão na mídia americana dessa última ida de Lula aos USA. Na Casa Branca: conversas, risos, apertos de mãos, fotos e promessas adiadas, pelo menos, para 02 de abril, em Londres, na reunião do G-20 (dos 20 países ricos e mais remediados). Primeiro, é preciso dizer que a reunião com Obama foi sábado passado, 14, das 11 às 12 horas. Sem convite para almoço. Estava marcada para 17, terça, mas esse era o dia de São Patrício (o que denunciou a crueldade dos britânicos), celebrado pelos irlandeses-americanos e Obama priorizou o festejo.
Antecipou-se, então, o contato com o ‘Brazil’. Parte da reunião, cerca de 40 minutos, foi de apresentações e discussões entre os grupos de cada país. Depois, Lula e Obama conversaram, a sós, por 20 minutos, com tradutores. O do Lula foi o Embaixador Celso Amorim, deu para ver. Presidentes não estão a sós com a presença de tradutores. Mas é assim que se faz na diplomacia. Todas as conversas do presidente dos Estados Unidos são, de regra, gravadas. Detalhe: nenhum novo interlocutor americano do poderoso Conselho de Segurança Nacional(NSC) ou Embaixador foi ainda designado para a América Latina. Todos do governo Bush permanecem. |
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| ABORTO E EVOLUÇÃO / João Soares Neto
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Convivem, na minha maturidade, o menino que teve formação religiosa católica, o adolescente/universitário duvidando de tudo, enveredando pela leitura da filosofia, lutando por ideais; o homem jovem teoricamente racional que imaginava saber alguma coisa e fazer muito e; agora, nesta fase, senhor do direito de não ser enquadrado em nada e poder tentar ser livre. Discordo da excomunhão da família e dos médicos que livraram uma criança de 09 anos de uma gravidez indesejada.
Nenhum direito, nem o canônico, deve desconhecer a realidade, tampouco acreditar que os seres humanos possam ser punidos por suas coerências existenciais quando não desrespeitam as normas legais do seu país e previnem conseqüências funestas. O que esperar de uma mãe de 10 anos, com duas filhas-irmãs, de uma avó, traída, de 23 anos, e de um padrasto que, mais dia, menos dia, estará livre para voltar a usar e abusar de quem não sabe e nem pode se defender? |
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| O QUE É POESIA? / João Soares Neto |
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Escrevo para lembrar que amanhã, 14 de março, é o Dia Nacional da Poesia, criado em homenagem ao poeta Antônio Frederico de Castro Alves, nascido nesse dia, em 1847, e morto aos 24 anos. Era o poeta da abolição ou dos escravos, por sua indignação contra o comércio de pessoas negras que, no Século XIX, enriqueceu muitas famílias aqui no Brasil. Não sei bem o que é poesia. Como dizia o escritor russo, P.G. Antokolski, “a poesia não responde, questiona”.
Acredito, portanto, que possa fazer um esforço para tentar (in) defini-la. Tem gente que pensa poesia como receita de bolo. Bastaria juntar capacidade de escrever em uma linguagem diferenciada, saber expressar emoção, ritmo e rimar com cadência, métrica, e ter-se-ia um poeta. Poesia, entretanto, é mais que isso. A tessitura de um poema passa por fios estéticos, usando-se ou não recursos formais de estilo. |
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| É DIA DA MULHER? / João Soares Neto
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Há algumas mulheres que consideram estranho e discriminatório este Dia da Mulher, hoje comemorado. Falam que, em tempos de hoje, todos os dias são dos seres, humanos e animais. Há, entretanto, outras que acham pouco um só dia para reverenciar as mulheres. O fato é que hoje é o seu dia e, no meu olhar, não devem ser homenageadas apenas pelo gênero, mas por seus feitos na família, sua inclusão na cultura, no trabalho, na ciência, na história, na política e na certeza que é a incerteza que preside o viver.
No Gênese, livro do Antigo Testamento, I, 27, está escrito: “E Deus criou o homem à sua imagem; fê-lo à imagem de Deus; e criou-os macho e fêmea”. Ainda no Antigo Testamento, II, 18, está dito: “Não é bom que o homem esteja só; façamo-lhe uma ajudante semelhante a ele”. Hoje, a linguagem seria outra. Não seria dito “criou o homem”, mas a espécie humana. Também não seria dito: “uma ajudante”, mas uma companheira. Eu diria mais, homens e mulheres devem ser compartes, isto é, devem compartilhar tudo, direitos e responsabilidades. |
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| COSTA MATOS E O SEU RIO / João Soares Neto
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Não registro intimidade em minha relação com o poeta José Costa Matos, mas não me escuso de dizer que havia uma sutileza bilateral de tratamento, sem que isso fosse supérfluo, mas partida de uma identidade que foi surgindo pouco a pouco. Nascido em Ipueiras, terra que também concebeu Gerardo Melo Mourão, veio ter com os costados em Sobral e, em seguida, Fortaleza. Costa Matos foi ocupando espaços pela vida, tratando de ser gente, e conseguiu o feito profissional de integrar o Ministério da Fazenda e ser professor da Universidade Federal do Ceará.
Para mim, como presidente da Academia Fortalezense de Letras, da qual ele era, com justiça, Sócio Honorário, o que resplandece para a posteridade é a sua vida literária, conquistando uma dezena de prêmios em concursos culturais em vários estados brasileiros. Para o poeta Francisco Carvalho: “Costa Matos é nome bastante conhecido nos meios literários de nossa terra, onde desfruta do maior prestígio entre as figuras do primeiro plano da intelectualidade cearense. No campo da poesia, tem-se distinguido pela publicação de algumas obras que lhe valeram o reconhecimento da crítica. |
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| SAM, MARLBORO E... / João Soares Neto |
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Estou voltando da terra que foi do Tio Sam, depois virou de Marlboro e, agora, é do Obama. Fui neste fevereiro de inverno de frio e inferno de crise. Andei por cidades diferentes. Conversei com gente, os do povo, alguns que se acham importantes, estrangeiros de passagem e os que ficaram como imigrantes para obter o Green Card ou a Cidadania. Depois da euforia da posse, veio a ressaca da realidade, essa que passa pelos bolsos, invade casas, mexe com o dia-a-dia das empresas que reduzem pessoal e faz ficar no ar a dualidade cruel entre a esperança e o medo.
Estava lá quando o pacotão do Obama foi aprovado, mas não escassearam críticas por conta da “falta de objetividade”. A Bolsa de Nova Iorque reagiu com queda alta. Obama, sem se importar com a “marola”, fez sua primeira viagem ao exterior. Foi ao vizinho Canadá, uma espécie de Estados Unidos passado a limpo, onde frustrou crianças de uma escola que se prepararam para recebê-lo. Tempo e segurança. Deu entrevistas, desconversou sobre protecionismo e voltou com o termômetro político ligado. |
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| Cinema e Cultura / João Soares Neto
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A Academia Fortalezense de Letras está tentando levantar a discussão sobre a relação da cinema com o cultura. Não há nada de novo sobre o tema, mas apostaremos em uma abordagem diferente e atualizada. Não será preciso enumerar a quantidade de clássicos da literatura nacional e internacional que foram adaptados para o cinema. Uns, com êxitos de bilheteria. Outros, nem tanto. Não importa.
O que vale é a revisita às obras e aos autores que serão apresentados. Escolhemos ouvir, para iniciar a discussão na noite de ontem, a opinião do professor universitário e crítico de cinema Luiz Geraldo Bezerra de Miranda Leão, uma das autoridades no assunto no Brasil, com livros publicados. Ele tem cultura lingüística e longo conhecimento de cinéfilo para abrir essa série que, acreditamos, constará da apresentação - aberta ao público - de filmes, precedidos ou seguidos de debates. |
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| GLÓRIA EFÊMERA / João Soares Neto |
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Foi Andy Warhol, americano filho de eslovacos, nascido em 1928, e que se destacou na Pop Art ou arte popular usando a linguagem da publicidade e métodos de serigrafia para fazer suas obras, que incluiam retratos de famosos e reproduções distorcidas da embalagem da sopa Campbell e da garrafa de Coca-Cola, quem disse a frase: “no futuro, qualquer um, será célebre por 15 minutos”.
Esse mesmo Warhol foi famoso por pouco tempo, criticado em vida, até atentado sofreu, e morreu um dia após ser operado de uma mera vesícula biliar, exato na data de hoje, 22 de fevereiro, em 1987. Para comprovar que a glória dele era efêmera, basta ouvir o que disse, em 2007, Robert Hughes, crítico de arte da revista Time: “Warhol foi uma das pessoas mais chatas que já conheci, pois era do tipo que não tinha nada a dizer...Mas, no geral, não tenho dúvidas de que é a reputação mais ridiculamente superestimada do Século XX”. |
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| ROBINHO E OUTROS / João Soares Neto
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A revista Veja, edição de 04 de fevereiro de 2009, trouxe uma longa reportagem sobre o comportamento de atletas que, nascidos pobres, alcançam sucesso e fortuna no começo da sua vintena de anos. A partir daí, suas cabeças entram em parafuso e começam a aprontar. Não são só os que alcançam sucesso e fortuna que se metem em enrascadas. Todos os dias, em emissoras de rádios e de televisão do Brasil, são inúmeros os programas policiais que contam casos de estupros, brigas em festas, mortes de cônjuges, assaltos, sequestros, assassinatos, roubos etc.
O que há, no caso dos atletas, é a sua superexposição à mídia e a voracidade de certa imprensa e de pessoas ávidas por fama, dinheiro e sensacionalismo. Os mostrados em programas policiais são os delinqüentes ou são pessoas do povo, todos tratados sem muito escrúpulo para um público cativo, sequioso por desgraças, escândalos e lágrimas. Vale lembrar ainda que há muitos cantores, atletas e artistas brasileiros que têm filhos pelo Brasil e mundo afora. Após os shows e jogos, caíam na gandaia e transavam com as fãs. Não havia ainda a preocupação com preservativos, pois a Aids não existia. |
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| O CARNAVAL CHEGOU / João Soares Neto
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Não é preciso mais dizer que o carnaval é uma festa pagã. O que muitos não prestam atenção é que ele é atrelado a eventos católicos e, por conta disso, é uma festa móvel. Nesta sexta-feira há os que fogem do barulho e vão se enfurnar em suas casas e apartamentos. Há os que, podendo, viajam para onde possam descansar ou participar da folia. Há, ainda, os que participam de retiros espirituais. Por outro lado, em todo o Brasil, milhares de pessoas passarão dias a trabalhar em áreas vitais como saúde, transportes, segurança, comunicações etc.
São os bravos de um país que, literalmente, para as suas indústrias, comércio e repartições, dando lugar ao extravasamento do povo, independente de sua classe social. O Brasil pratica diferentes carnavais. O Amazonas tem o seu jeito peculiar em que o folclore indígena é realçado por escolas de samba. O Maranhão mostra a grande influência da cultura africana, com seus ritmos sincopados em blocos de rua. |
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| CONFIANÇA / João Soares Neto
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Todos nós confiamos. Confiamos no pão, no leite, no cozinheiro, no táxi, ônibus, no avião, em pessoas e instituições. Confiamos demais, até. Um dia, sem mais nem menos, nos pregam peças e passamos a desconfiar. Passado algum tempo, voltamos a confiar e nos pregam outras peças e ficamos tristes por pensarem que somos tolos. Na verdade, são sempre os mais falantes, os que dizem ter mais amigos, os que estão à frente de grupos, partidos e entidades, os que se vangloriam de ter bons relacionamentos, os que nos pregam tais peças.
São tão falsos como notas de 15 reais. A propósito de nota de 15 reais, o que distingue uma nota de cinco reais de uma de cem reais? Apenas os números e as imagens da impressão. As notas são do mesmo material, as mesmas tintas e, segundo cremos, mesmo critério estabelecido pelo governo que as faz. Desse modo, há uma confiança nossa de que está havendo controle do governo em fazer (emitir) esses papéis que tem o nome de dinheiro. |
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| AMOR EM ALEMÃO / João Soares Neto |
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Há mais de duas décadas, em meio ao espanto de sua família, uma jovem socióloga resolvia abandonar seu emprego certo e ir para a Alemanha. Iria fazer uma complementação de estudos, um mestrado, coisas assim. Quis a vida que ela conhecesse um também jovem médico alemão que aqui concluía uma das fases de seu curso. Conheceram-se, encantaram-se, mas cada um tinha uma vida a cumprir em continentes diferentes.
E foi aí que ela consolidou seus planos e teve a coragem de dizer: eu vou. E foi. Em lá chegando, tudo era estranho, diferente e o pouco do alemão que sabia não dava para quase nada. Resolveu, antes de qualquer curso profissional, melhorar sua conversação e escrita na língua de Goethe que já dissera o óbvio, em ‘As Afinidades Eletivas’: “Toda atração é recíproca”. Enquanto isso, o amor urdia e a atração crescia. Ela foi pedida em casamento com a presença da família do candidato. Comunicou o fato, com alegria, aos pais que lhes responderam que isso não valia para eles: pedido de casamento e casamento, só aqui, debaixo dos seus olhos e na lei brasileira. E, além dos pais, havia uma tia que dela cuidara por toda a vida e se sentia abandonada e triste. |
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| A GALINHA E O TRIGO / João Soares Neto
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Reconto, com adaptação minha, estória atribuída a George Orwell que corre há décadas. Ela mostra a diferença entre os que não plantam e os que cuidam de plantar. Consta que existia uma galinha vermelha. Ela achou alguns grãos de trigo e perguntou a seus colegas de fazenda: vocês me ajudam a plantar? A vaca disse: não. O pato: nem eu. Eu também não, falou o porco. Eu, muito menos, completou o ganso. Então, eu mesma planto, falou.
E o trigo foi plantado, cresceu e amadureceu em grãos dourados, Da mesma forma, na colheita, perguntou: quem me ajuda a colher o trigo? O pato disse um não, seco. Não faz parte das minhas funções, disse o porco. Não, estou só contando o tempo de serviço para me aposentar, disse a vaca. Vou nada, posso perder o seguro-desemprego, respondeu o ganso. Então eu mesma vou colher o trigo, disse a galinha. |
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| COISAS SIMPLES / João Soares Neto |
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Agora que o Obama está em paz com a Hillary e a Dilma fez a sua bioplastia, vamos falar de coisas simples. E uma das coisas que incomoda a muitos é a falta de zelo e cortesia de alguns com a cidade. Semana passada, esperando o semáforo abrir, vi o motorista do carro ao lado jogar o conteúdo de um saco plástico pela janela. Ele usava o saco plástico para coletar o que não lhe servia, e a rua, como lixeira. Baixei o vidro e disse: isso não se faz! Ele, com cara de menino pegado no flagra, disse: “foi bobeira”.
Não, não foi bobeira. Foi falta de educação, civilidade e respeito pela cidade. Não importa que ela esteja suja ou limpa, isso não nos dá o direito de ser mais um sugismundo. Situações como essa vivemos em outras ocasiões. Certa vez, um grupo de jovens em um “buggy” jogou um saco de lixo na rua. Parei, apanhei, emparelhei e disse que o saco pertencia a eles e não à cidade e devolvi. |
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| PEDRO, POETA, PRESIDENTE / João Soares Neto |
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O advogado e conselheiro-fundador do Tribunal de Contas dos Municípios do Ceará, Manuel Pio Saraiva Leão, era irmão de minha avó Luiza. O novo presidente da Academia Cearense de Letras, ontem empossado, é o seu filho único, Pedro Henrique Saraiva Leão. Foi ele quem, em 1962, ao viajar para o exterior, me convidou a assumir a coluna “Informes Acadêmicos”, da qual era redator, no jornal Correio do Ceará, Diários Associados, onde permaneci até 1968. Esse preâmbulo é feito apenas para dizer da minha alegria ao vê-lo na presidência da mais antiga academia de letras do Brasil, fundada em 1894, no mesmo lugar onde pontificaram Antonio Martins Filho, Eduardo Campos, Cláudio Martins, Artur Eduardo Benevides e Murilo Martins, para ficar nos mais recentes que, reunidos, somam quase meio século de presidência.
Ele substitui a Murilo Martins, médico, professor e intelectual, figura singular da cultura cearense que agrega amizades, não falta a compromissos e cumpre horários. Pedro Henrique também é médico, cirurgião, professor universitário em duplo grau, poeta, editor e articulista. Curioso, arguto e inteligente, sabe eleger leituras e o faz com o mesmo esmero com que usa o bisturi, identificando o que deve ser extirpado e o que deve ser preservado. Como poeta, Pedro Henrique estabelece, como disse o poeta espanhol Dámaso Alonso, um nexo entre dois mistérios: o do poeta e o do leitor. |
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| As falas de Obama / João Soares Neto |
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Algumas pessoas estão impressionadas com os discursos de Barack Obama, o novo presidente americano que tomou posse nesta semana. Dizem que eles expressam o novo, mas, agora tem tempero moderado ou até conservador. Dizem ainda que as frases são precisas, certeiras e que ele fala o que povo precisa ouvir. Por trás de todos os últimos discursos do senador, do candidato a presidente e o da posse, no dia 20, nesta terça, está alguém vinte anos mais jovem que Obama. Ele se chama Jon Favreau e não deve ser confundido com o ator e cineasta americano de mesmo nome que dirigiu o filme Iron Man.
Favreau, o escritor, tem 27 anos e cara de estudante, embora tenha concluído Ciências Políticas na Holy Cross, em Worcester, Massachussets, uma escola sem grande notoriedade. Favreau, com um currículo mínimo, conheceu Obama em 2005, pois havia sido um dos elaboradores de discursos de John Kerry, o último candidato democrata derrotado por George W. Bush. A partir de então, Favreau - já seu assessor no Senado- e Obama, criaram uma estratégia de trabalho comum. Sempre discutem o tema do próximo discurso, Obama diz as suas linhas de pensamento sobre o assunto e Favreau faz a montagem que, ao contrário de outros políticos, é rediscutida e até revista por Obama, um vaidoso harvadiano. |
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| BUSHOBAMA / João Soares Neto
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A palavra bush significa arbusto. George W. Bush acaba de ser substituído por Barack Hussein Obama, deixando o poder com a pior popularidade de um governante nos últimos 50 anos. O que terá ocorrido de tão grave para a maioria da América pensar assim? Terá sido ele um arbusto a encobrir soldados americanos batalhando e morrendo em guerras sem sentido? Bush é Republicano e representa uma espécie de fundamentalismo político, acreditando serem os EUA o centro protetor do mundo, com a capacidade de intervir onde achar por bem para assegurar a liberdade.
Essa ação, ao procurar vingar o país dos ataques de setembro de 2001, o ano de sua posse, incorreu no erro de usar mentiras para justificar o ataque ao Iraque. Essa guerra, entre outras, foi deixada de herança. Por outro lado, o fim da prosperidade com a bolha das ações de tecnologia, os maus tratos em presos em Guantanamo e no Iraque e a inadimplência das hipotecas de imóveis deu origem à atual crise mundial, quebrando bancos, criando medo e demissões de milhares na indústria. |
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| FAIXA DE GAZA / João Soares Neto |
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Imaginem que a cidade de Fortaleza é vizinha de Sergipe. Fortaleza tem a mesma área da Faixa de Gaza. Sergipe, o mesmo tamanho de Israel. A Faixa de Gaza é uma estreita extensão de terra, onde foram alocados parte dos palestinos que ocupavam, até 1948, a área onde hoje fica Israel. Ela tem jurisdição especial, sem ser Estado, possui, junto com a Cisjordânia, parlamento, Presidente e dois partidos políticos: Hamas e Fatah. O Hamas parece uma mistura do antigo PT e do atual PSOL, com tendência sunita e tem o apoio do Irã. O Fatah seria um cruzamento do DEM com o PSDB.
Perdeu as eleições, em 2006, e saiu de cena. Em Gaza, a cidade da faixa, moram 1,5 milhões de pessoas, com renda média mensal de 210 reais e um poderio militar comparável a de qualquer pequeno país da África. De cada 100 palestinos adultos de Gaza, 45 estão desempregados, face ao bloqueio econômico de Israel, com o apoio americano e da Europa. Esses desempregados, famintos e revoltados, são a base do terrorismo. |
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| Fórum de Literatura / João Soares Neto |
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Há alguns anos, Murilo Martins e eu, fomos a Recife para um congresso de academias de letras do nordeste. Acorreu gente de diversos estados. Achei estranho que na noite da abertura à mesa diretiva só tivesse pernambucanos. Comentei com o Murilo. No dia seguinte, observei a mesma coisa. Só pernambucanos na direção das mesas e grupos de estudos e todos os demais nordestinos na platéia. Levantei-me e reclamei.
Foi um escarcéu. Conto este fato para dizer que, nesta semana, por iniciativa da Secretaria de Cultura do Ceará, houve uma reunião, previamente agendada, para se criar um Fórum de Literatura Cearense. A conversa foi aberta, franca e todos tiveram vez. Não se agiu à moda pernambucana. Auto Filho parece ter auscultado o seu espírito gramsciano e agiu como um democrata. A pauta foi discutida por todos, desde as secretarias de cultura do Ceará, de Fortaleza e de Maracanaú, academias Cearense e Fortalezense, grupos que publicam jornais culturais, autores, intelectuais, curiosos e até por membros do Clube do Bode, essa desinstituição - desinstituição mesmo – que comete cultura, vez por outra. |
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| CONSTRUÇÃO / João Soares Neto |
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Meus queridos, foi linda a cerimônia. Ela teve a marca de vocês. A hora, o local, as músicas, as lágrimas, os risos, as crianças, as famílias e poucos amigos. Ela foi tal como vocês queriam e a fizeram. Ainda bem. É preciso saber querer, mesmo sendo diferente do usual. Cada um tem sua passagem e o vôo do sonho não tem limites. Os seus anseios nunca serão iguais. Somos semelhantes, mas distintos.
Estive, nestes últimos tempos, pensando em vocês dois. Muito mesmo, mas sou esse ser estrangeiro no meu bem querer, sentir e dizer. Queria ter tido com vocês uma conversa sem peias. E, no meu pensar, teria sido à hora do pôr-do-sol, sob a tocha avermelhada assomando lá da Barra. Eu teria dito da minha alegria em vê-los de mãos dadas na construção do seu futuro. De ver, em vocês, o sorriso fácil dos amantes e repassaria, talvez, algumas experiências. Enfim, o século virou e nos mostrou cada um em seu ninho e, agora, de forma ousada, vocês vão construir o seu. |
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| FAIXA DE GAZA / João Soares Neto
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Imaginem que a cidade de Fortaleza é vizinha de Sergipe. Fortaleza tem a mesma área da Faixa de Gaza. Sergipe, o mesmo tamanho de Israel. A Faixa de Gaza é uma estreita extensão de terra, onde foram alocados parte dos palestinos que ocupavam, até 1948, a área onde hoje fica Israel. Ela tem jurisdição especial, sem ser Estado, possui, junto com a Cisjordânia, parlamento, Presidente e dois partidos políticos: Hamas e Fatah.
O Hamas parece uma mistura do antigo PT e do atual PSOL, com tendência sunita e tem o apoio do Irã. O Fatah seria um cruzamento do DEM com o PSDB. Perdeu as eleições, em 2006, e saiu de cena. Em Gaza, a cidade da faixa, moram 1,5 milhões de pessoas, com renda média mensal de 210 reais e um poderio militar comparável a de qualquer pequeno país da África. De cada 100 palestinos adultos de Gaza, 45 estão desempregados, face ao bloqueio econômico de Israel, com o apoio americano e da Europa. Esses desempregados, famintos e revoltados, são a base do terrorismo. |
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| AO TRABALHO OU CADA UM COMO DEUS QUER / João Soares Neto
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Acabaram-se o 2008 e as festas. Estamos na ressaca da preguiça. Aproveite, como faz o Sérgio Braga, para limpar gavetas, rasgar o que não serve mais, e planejar o que deve ser feito nestes muitos dias que faltam para acabar o 2009. Dê uma de Airton Monte e tome a última cerveja da geladeira. Faça como o Carlos Augusto Viana, que cofia os bigodes, enquanto repassa a literatura brasileira.
Curta a vida como o César Montenegro. Seja leal como o Marco Aurélio. Enérgico e suave como o Ubiratan Aguiar que traça metas para o TCU apertar mais, o que pode infernizar relapsos e afins da administração pública. Procure furos como o fazem Moacir Maia, Bezerrinha e Roberto Moreira, que falam com políticos com a mesma desenvoltura do Édison Silva. Poetize como o Barros Pinho.
Seja romântico como o Iranildo. Calado e bom ouvinte como o Lúcio. Obediente como o Ademar Gondim. Persiga objetivos como o Vinícius Castelo. Chegue e saia discreto como o Saraiva. Curta as amigas como o Siqueirinha. Não adoeça, mas se não tiver plano de saúde, converse com o Narcélio. Se for fazer um show ou filme não esqueça do Ricardo Guilherme, Pardal, Fausto Nilo, Falcão, Rodger, com texto sutil do Augusto Pontes, produção do Giordane e direção de Francis Vale. Em casos médicos complicados fale com o Mariano e o Dionísio. Ame filhos e netos como Luiz César Façanha.
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| PASSO A PASSO / João Soares Neto |
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Estou entre o ano acabado e o chegado. Ainda guardo em mim cheiros de ontem, rastreio olfatos esmaecidos e descubro o sem fim do tempo e a finitude das pesoas. Meu pé esquerdo ficou no passado e o direito teima em ser presente. Mexo em ordenadas e abscissas e não encontro o Equador. É preciso estar na linha para encontrá-lo. Mas minha pele sente o seu calor visceral. Não sei bem se venho do passado ou se meus passos fugiram de lá.
Meus caminhos são triviais, há sempre as mesmas pedras, mas, por elas, já passaram outros pés e a areia pisada deixa as minhas solas e cai, grão a grão, entre as fendas. Minha alegria tem dioptrias certas e o meu riso é criança. Nas barricadas da vida luto, muitas vezes, como um infante sem fuzil ou quartel, mas vou quebrando lanças e seguindo, passo a passo. Sonhei com o futuro e ele se fez presente, como presente. |
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| 2009 - NOVES FORA / João Soares Neto |
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Daqui a quatro dias o ano será findo. As previsões feitas pelos economistas não são boas, mas há um consolo: eles não são bons em presciência. Há ameaças de desemprego, por conta do fechamento de fábricas, mas a Igreja proíbe o controle da natalidade, a publicidade custa mais caro que os produtos ou serviços, os impostos comem 1/3 do que ganhamos e o Governo dá seis meses sem trabalho para as mães em curso.
Que nasçam mais crianças. O país procura ter linguagem e ações de potência, mas patina no Índice de Desenvolvimento Humano. Empresas brasileiras viram multinacionais, mas não esquecem de pedir recursos ao BNDES. Os senadores querem aumentar o número de vereadores. Ótimo, esses poderiam ser pagos com parte do que os pais da pátria ganham. O ano foi sacudido com a crise financeira, a eleição de Obama e a sapatada no Bush. |
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| PARA UM ANO NOVO / João Soares Neto
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Não é só a edição desta semana da revista Veja que escreve sobre a morte anunciada de parte da África. Há dezenas de anos, desde o século passado, que sabemos disso e pouco fazemos. Uma vez, faz tempo, vi um filme em que gente africana, tangida pela fome, tentava atravessar o Estreito de Gibraltar. Causava um transtorno grande na Europa. Agora, correu pela internet um raro e-mail sério em que se fala expressamente que toda a fome do mundo seria resolvida com 40 bilhões de dólares.
Milhões de pessoas poderiam entrar na história da civilização como as que sobreviveram da fome e das guerras tribais, graças a uma ação conjunta da humanidade. Digamos que, cessadas essas guerras e a fome dessas pessoas, se investisse mais 40 bilhões de dólares com habitações, infra-estrutura, geração de empregos, alimentação e educação. Total: 80 bilhões de dólares. Pois bem, sabem quanto os Estados Unidos e a União Européia já gastaram para tentar resolver o problema da atual crise financeira do mundo? Dois trilhões de dólares. Não escrevo em numeral, pois são tantos os zeros. |
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| NATAL SEGURO / João Soares Neto |
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Não se preocupe. Não vou falar de preservativos. Tampouco aconselhar que coma, beba ou deixe de fazê-lo. Neste Natal a preocupação é com a violência em geral e contra os que andam de carros, sejam pequenos, financiados, ou carrões. Não vou escrever nada novo. Apenas uma visão pessoal do que li como dicas. Morando em casa ou apartamento, verifique o ambiente ao sair. Não ande -nunca- de vidros abertos, mesmo fumando, não tenha ar e more em lugares muito quentes. Tranque as portas. Não fique ligado ao som, seja notícia ou música. Ponha os retrovisores e os olhos para funcionar. Fique alerta.
Infelizmente, não se pode dar carona. Tampouco, sem piedade, socorrer acidentados no meio da via. Se baterem no seu carro e o prejuízo for pequeno, não pare, mesmo que anotem a placa. Se olhar sempre para os retrovisores verificará se um mesmo carro o segue. Dobre, sem sinalizar. Aumente a velocidade. Cuidado com flanelinhas e motos, não dê chances. Se for o caso, pare enviesado. Se o pneu furar, vá até a um posto de combustível ou pare junto a uma delegacia, quartel ou supermercado. Pneus e aros há aos montes. Sua vida é única. Não cole adesivo ou marcas nos vidros e na lataria do carro com símbolos de profissões, entidades, ou com o seu nome e o da pessoa querida. Se puder, não dirija à noite. Os serviços de tele-táxis são confiáveis e até livram você das multas. |
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| O VESTIBULAR, O CURSO E O TEMPO / João Soares Neto
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Quando fizemos vestibular para direito, o Latim era obrigatório. Exigia-se ainda uma língua estrangeira e bom conhecimento de Português. Havia provas escritas e orais. Não era fácil passar. Só existia uma faculdade, a da Universidade Federal do Ceará. Afinal, passamos. Éramos uma mistura de quase adolescentes com pessoas maduras. Uns, saídos direto do curso secundário. Outros, já casados e trabalhando, reescrevendo suas histórias ou procurando novos caminhos.
Todos, uns e outros, subíamos os degraus dos sonhos que nos levavam ao prédio novo da velha Faculdade de Direito. Uns para o curso diurno, outros para as aulas noturnas. Em todos, esperança e vontade de aprender. Cada um vinha de diferentes caminhos na busca de uma identidade pessoal, de ser alguém. E a sala climatizada parecia nos acolher com certa frieza. Ou seria o “frisson” de estarmos construindo a tarefa de ser gente?O fato é que fomos os últimos daquela faculdade a usar paletós. Foi só um semestre. A crise na cadeira de Introdução à Ciência do Direito, com o Prof. Heribaldo Costa, fez estragos e todos dela saíram com mangas arregaçadas. |
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| TCU - TALENTO CEDRENSE, UBIRATAN / João Soares Neto |
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Brasília- Chego ao TCU faltando cinco minutos para as dez. Subo em elevador apinhado. Assento-me. Vejo o auditório lotado. Cearenses são a maioria. Muitas são as autoridades. As que conhecemos e as que vemos pela televisão. A Ministra Dilma Roussef dá sorrisos comedidos e cumprimenta os próximos. O cerimonialista afirma que o Presidente Lula está na ante-sala e que a sessão deverá ser iniciada em minutos.
O Ministro César Rocha, Presidente do STJ, precede a comitiva. Chega o Presidente Lula e é formada a mesa que inclui o Governador do Ceará, Cid Gomes, na sua extremidade esquerda. No outro extremo da mesa está o Procurador Geral do TCU, Lucas Furtado, também cearense. Ecoa a fala significativa e letrada do Ministro Marcos Vilaça que fala “sem os espartilhos da conveniência”, mas consegue florir com metáforas o ambiente vetusto e o próprio sentido institucional do TCU, citando Ruy Barbosa.
Começa saudando o Presidente Lula como ‘brasileiro de Pernambuco’ e, com a alegria de um pássaro canoro, adentra os mares e os sertões cearenses para resgatar a história pessoal do talentoso cedrense, Ubiratan. Villaça destaca, com graça e modos, os muitos que fizeram e fazem a história política, cultural e social da terra de Alencar. É fala digna de um acadêmico brasileiro. Ele dá ênfase à necessidade de conjugar o combate à corrupção com a eliminação do desperdício e termina na companhia de Patativa do Assaré: “Canto o que minha alma sente, e o meu coração encerra, as coisas de minha terra e a vida de muita gente”. |
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| PROPAGANDA / João Soares Neto |
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Agora que o mundo está em crise, descobre-se que o Brasil responde por 4,7% do mercado de propaganda do mundo. É o sexto país em gastos de propaganda/publicidade: US$ 26,6 bilhões de dólares por ano. Esses dados são da pesquisa World Advertising Trend 2008. O que isso quer dizer? Que a soma do dinheiro consumido anualmente em propaganda no mundo corresponde a US$ 563 bilhões.
Desse total, 34,0% são com mídia impressa; 46,0% com a Tv; 7% com a Internet; e 13% com rádio, cinema e outdoors. Esses números mostram o quanto é agregado a um produto ou serviço para ele ter uma boa aceitação no mercado. Você, certamente, perguntaria: o que tenho a ver com isso? Muito, pois a propaganda não poupa ninguém.
Um torcedor de futebol, que vai ao estádio ver o seu time jogar, estará também, por 90 minutos, sujeito às propagandas das empresas que o estão patrocinando, na camisa, calção e nos meiões dos atletas. Ao ver o noticiário na TV, novela ou filme, estamos sugestionados por marcas de veículos, roupas, utensílios e até locais. Isso é ‘merchandising’, propaganda disfarçada. |
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| A ERA DO NENO / João Soares Neto |
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Tem gente que pensa agradar quando escreve empolado, usa metáforas pessoais e faz do seu mundo o mundo alheio. Tem gente que é previsível, e pouco aprazível de ler. Neno é o contrário de tudo isso. Escreve como fala, diz o que pensa na hora e não pondera entre o fato jornalístico e a conveniência.
Sua irreverência é desmedida e caminha, lado a lado, com o seu quixotismo onde muitos são os sanchos, suburbanos ou não, que lhes indicam motes para destruir os moinhos de vento da impunidade, do descalabro administrativo, da falsa virtude de arautos do nada, da jactância de políticos que usam os repórteres de aeroporto como porta-vozes de suas não-falas em plenário federal.
Neno é aquele que fala pelos cidadãos do Alto do Bode, é o eco da torcida indignada do Ceará, o espadachim que mexe suas mãos sobre o computador e registra, com sarcasmo e humor, as desditas de uma cidade sitiada pela marginalidade e pelo descaso de políticos encamisados com as gomas das benesses recebidas. |
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| ELA MUDOU / João Soares Neto
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Resisti o quanto pude. Ela veio e foi ficando. Não entendia a capacidade que ela tinha de ser múltipla. Zangava-me por saber que ela era o futuro e que deveria me ajustar ao seu charme, aos seus modos sutis, sua linguagem cifrada, sua velocidade, cada dia maior. Tinha que aprender a lidar com ela, o que não era fácil. Não dependia só de mim, mas de terceiros. De princípio, o telefone nos ligava e depois caía. Comecei brincando.
Testava e ela fazia. Mudava o jeito e ela se ajustava, como se fosse tão maleável quanto alguém de boas maneiras. Tudo começou no meio da década passada. Precisamente, em 1996. A minha curiosidade era um meio de ir apagando saudades abertas. O jeito foi ir me apegando a ela que, nesse tempo, tinha que ser via Embratel. Primeiro, foi a mera comunicação. Precisava de um canal de comunicação e ela abriu, pouco a pouco, as portas do futuro para mim. A abertura era diretamente proporcional à minha capacidade de ver o novo, entender que o ontem havia passado e que o hoje era só mudança. |
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| EXPLICANDO O QUE NÃO SEI / João Soares Neto |
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Alguns perguntam o que é a crise. Já ouvimos isso de pessoas tomando uísque doze anos. De empresários, com ou sem empresa, de caloteiros contumazes, de jornalistas econômicos, ex-ministros da fazenda, economistas, ex-dirigentes do Banco Central, políticos que mudam de partido, mas não saem do governo, e até de pessoas sérias que trabalham duro e estão meio tontas. Não é para menos.
Há um bombardeio da mídia nacional e internacional falando sobre a crise, da quebradeira de empresas e bancos que alavancavam. Alavancar é termo usado pelos economistas para dizer que determinada empresa ou banco trabalha com muito capital (dinheiro) de terceiros. Aliás, os economistas passaram longe do faro para descobrir essa crise. Sabem explicar o antes no depois. Mas, ninguém previu nada. Era uma euforia geral, até quando as hipotecas americanas deixaram de ser pagas, a crise de confiança aconteceu e as pessoas começaram a tirar dinheiro dos bancos, das bolsas e colocaram debaixo dos colchões.
Aí os governos tiveram que correr para salvar o possível. O problema de muitos economistas, especialmente dos econometristas e dos que tratam da macro economia, é que procuram soluções matemáticas para problemas sociais. Os Estados Unidos têm vivido em crise desde 2000, quando as ações das empresas de tecnologia caíram assustadoramente, pelo simples fato de serem uma bolha financeira. |
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| MAUÁ E UNIFOR / João Soares Neto |
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Com o zelo, a plasticidade e a classe costumeira, a Universidade de Fortaleza, com o apoio da Braspetro, está apresentando exposição sobre Irineu Evangelista de Souza, o empreendedor do século XIX, quando essa palavra ainda não existia. Sou fã dos empreendedores que aliam seu trabalho à criação diferenciada para a humanidade. Assim é que descobri há muito Monteiro Lobato, não apenas o grande escritor, mas o nacionalista e sofrido empresário, que até preso foi pela ditadura.
Seu livro, “A Barca de Gleyre”, é o meu preferido. Ele previu até em “O presidente negro”, a eleição de um negro nos EUA, isso na década de 30. Voltando ao fio, a própria UNIFOR é fruto de um visionário. Edson Queiroz criou, do zero, uma universidade diferenciada que irrompeu com um magnífico campus, simplicidade, paisagismo exuberante, estratégia acadêmica, gestão eficaz e alcançou o reconhecimento público. A dedicação do Chanceler Airton Queiroz alia ao seu “hardcore” de ensino o declarado amor às artes e fez brotar ali um teatro com diferencial de qualidade pela escolha de peças, autores e atores de nível. |
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| MUSSA DEMES / João Soares Neto
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Ao longo da vida vamos conhecendo pessoas. Algumas passam. Outras ficam. Poucas se tornam amigas. Tenho uma concepção de amizade um pouco estranha. Para mim, ela é não uma experiência de troca de favores, tampouco é junção de interesses. Não é a identidade de costumes, vontades e gostos. Nem passa a ser amizade o encontro acidental ou até rotineiro. Amizade é aquela relação que vai brotando como um fio de água entre as pedras e não para de jorrar.
O amigo não é o que fala ao seu corpo, ao bolso, mas o que toca a sua alma e lhe dá o direito de arengar em voz alta. . Foi assim com Mussa de Jesus Demes. Conhecemo-nos ao final da década de 60. Estávamos engatinhando na vida profissional. Cada um do seu jeito, no seu mundo, sem interesse ou favores pelo meio. De repente, éramos amigos de conversar horas, sem ver nem pra que. No começo dos 80 ele foi escolhido Secretário da Fazenda do Ceará e exultei por seu sucesso. Ele lá e eu na minha vidinha. |
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| COISA PÚBLICA / João Soares Neto
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Não sei bem a razão porque insisto em falar neste assunto. Há um entendimento errado de que coisa pública não tem dono. A coisa ou bem público pertence a todos e está sob a guarda de administrações, sejam prefeituras, estados e a União e merecem o olhar atento de cada pessoa. Não sei se é assunto bom para hoje, mas amanhã não será um mero feriado, mas o dia da Proclamação da República, ocorrida no Rio de Janeiro na manhã de 15 de novembro de 1889.
Consta que, embora com falta de ar, o Marechal Deodoro da Fonseca saiu de sua casa, forçado por partidários e camaradas. Reuniu a tropa militar que comandava e montado em um cavalo na Praça da Aclamação, disse a frase: “Viva a República.” Desceu do cavalo, voltou para casa e cuidar da dispnéia que o combalia. O império já estava podre e caiu de maduro. Todos torciam contra, até os próximos do Imperador D. Pedro II. Voltemos ao hoje.
Em qualquer cidade brasileira há bens e prédios públicos abandonados, sem uso, ensejando saques e invasões. Na maioria das repartições públicas há sinais evidentes de ausência de comando, atendimento ineficaz, mesas e cadeiras vazias, energia elétrica gasta em profusão, amontoados de funcionários em conversas hilariantes tomando cafezinhos e, quase sempre, faixas reivindicatórias por melhores salários e condições de trabalho. |
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| MESTIÇAGEM E FUENTES / João Soares Neto |
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A 8ª. Bienal Internacional do Livro do Ceará usa como tema a Aventura Cultural da Mestiçagem, tal a força do convencimento vivenciado em suas andanças latino-americanas por Floriano Martins, curador geral e, pelo suporte recebido de Jorge Pieiro e Karine David, curadores, todos chancelados por Auto Filho, Secretário de Cultura. É provável que alguns intelectuais ainda não tenham atentado para a sutileza da iniciativa que procura introduzir o Ceará e Fortaleza no imaginário dos autores latinos que nos visitam e no mapa cultural dos países de língua hispânica.
É importante lembrar também que nesta terça, dia 11, o maior escritor mexicano vivo, Carlos Fuentes, completou 80 anos. Ele está sendo alvo de manifestações culturais em todo o México. Não é oba-oba, mas uma sucessão de cursos, palestras, debates e seminários em que intelectuais latinos e de todo o mundo discutem o fazer literário de Fuentes e a sua cognição com o real e o fantástico, ao mesmo tempo em que se debruçam em temas sutis como as artes de narrar, fazer romance, filosofar, historiar, escrever ensaios, informar, editar, ler, olhar e filmar. |
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| CANHOTO E LEONINO / João Soares Neto
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Em 1963 estive nos EUA como bolsista. Esse ano foi o mais importante da história americana do Século XX. Em 28 de agosto, o pastor Luther King pronunciou o decisivo discurso ‘Eu tenho um sonho’(I have a dream) quando a marcha dos negros -de todo o país- chegou a Washington e parou diante do Palácio da Justiça. Robert Kennedy, Secretário da Justiça, os recebeu e a Lei dos Direitos Civis saiu logo 1964, após a morte de John Kennedy, em 22 de novembro daquele 63. Luther e Robert também foram assassinados, respectivamente, em 04 de abril e 06 de junho, mas de 1968.
Essas três mortes são, paradoxalmente, os pilares que ensejaram agora a candidatura de um negro à Presidência. Escravidão e discriminação foram vencidas por uma nova geração de negros e de não brancos que têm Obama como líder. E ele não usa a negritude como diferencial, mas como prova de que todos podem ter um sonho e mudar seu destino.
Esse sonho materializou-se nesta semana. E eu brincava com amigos que torcia para um canhoto ganhar a eleição (Barack e McCain são canhotos) Torcia para que quem ganhasse não tivesse nascido entre os estados que constituíam a base física dos Estados Unidos em 1900 (McCain nasceu no Panamá e Obama no Havaí) Torcia para que gostasse de ouvir músicas de Miles Davis, John Coltrane, Stevie Wonder e conhecesse algum compositor clássico. |
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| PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA / João Soares Neto
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Bem que, há tempos, eu desconfiava. Já havia até falado para um amigo letrado e leitor de Saramago sobre este assunto. Agora, realmente, comprovei. A escolha dos agraciados com o Prêmio Nobel de Literatura é uma ação entre amigos suecos e demais europeus. Se não tiver nenhum bom nome europeu, os 18 da comissão podem até fazer uma concessão a autores de outros países.
A comprovação é fruto das minhas leituras desataviadas que foram bater os olhos em reportagem de Eduardo Simões e Sylvia Colombo, para a Folha. Vi que Horace Engdalh é o porta-voz e secretário da Academia Sueca, a que concede os prêmios Nobel. Engdalh, ao falar para o jornal sueco Dagens Nyheter, afirmou, sem meias palavras, que “há autores de peso em todas as grandes culturas, mas você não pode descartar o fato de que a Europa ainda está no centro do mundo literário”.
Não contente com as besteiras ditas, arrematou: “Os EUA são muito isolados, não traduzem o suficiente e não participam do diálogo de literaturas. Esta ignorância os limita. Eles também não se distanciam da cultura de massa que prevalece no país.” Os gringos ficaram com raiva e a resposta certeira veio do editor David Remnick, da consagrada revista New Yorker. Ele disse: “A análise de Engdalh é banal e presunçosa. |
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| Sobre a morte de jovens / João Soares Neto
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O que fazer quando a morte bate à porta de pessoas queridas? O que dizer então para os pais quando perdem filhos jovens e em plena efervescência da vida? Na dor, todos estão sós. Cada um sofre na sua forma pessoal, não há como comparar dores. Você pode ser mais forte ou contido, mas isso não quer dizer de sua dor, mas da forma como a expressa ou não. Você pode chorar rios de lágrimas, maldizer o Senhor e duvidar de sua fé, mas esse é o seu jeito. Talvez seja até o caminho da possível cura ou da conformação.
A morte é uma trilha desconhecida pela qual todos passarão. Ela vem silenciosa, pungente e não poupa ninguém. Tem seus próprios tempos e modos. Escolhe e ceifa, não há como entender esse mistério. Se escolhe, elege. Se elege, deve ter alguma razão insondável.
Mas vá dizer isso para pais inconsoláveis que, abruptamente, recebem a notícia da morte de seus filhos. Creio que devo invocar o filósofo Sócrates: “Pois bem, é hora de ir; eu para morrer, e vós para viver. Quem de nós irá para o melhor é obscuro, menos a Deus”. O que virá depois da morte? Como somos pecadores e não temos onisciência é que nos afligimos pelos que morrem, especialmente se jovens. |
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| TEMPOS CHINESES / João Soares Neto |
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A crise troava embaixo e eu voava de Dubai a Pequim. Sete horas depois, abria-se o novo aeroporto onde a imensidão da terra de Lao Tsé é transposta para a abóbada gigantesca que afirma, em arquitetura, aço e luzes o poder da nova China, a que emerge das Olimpíadas ao mostrar aos visitantes deste 2008 um país forte, com auto-estradas, indústrias, universidades, arranha-céus hi-tec, hotéis, estádios, carros de luxo e um ar de futuro, no presente. Esquadrinhei o que ver, diferente da Ásia que vi em 1991. Olhei até como moradias humildes ficaram atrás de muros. Vi parques, palácios e jardins, lindos.
Depois, fui aos arredores admirar as Grandes Muralhas. Metido a viajado, ousei usar o metrô (Bombardier-canadense), novo, limpo como um lençol branco e ir ao Ninho do Pássaro, estádio das cerimônias olímpicas. Mergulhei. Feliz, voltei à superfície e lá estava ele, majestoso em tom gris. Mas havia barreiras metálicas e me rendi à versão chinesa do moto-táxi brasileiro. O guiador desse riquixá mecanizado, fica no selim do triciclo e há um banco de costas para dois passageiros. Seus guiadores andam por cima de passeios, cruzam faixas de pedestres e não dão bola para nada. Escapei. Milhares de turistas, quase todos asiáticos, abraçavam o Ninho. Obedeciam a ordens de guias com bandeiras coloridas. Eu me desguiava. Comprei o ingresso e entrei. |
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| DESERTO E PROGRESSO / João Soares Neto |
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Voltei de uma viagem profunda, embora breve. Foram milhares de quilômetros em pássaros metálicos novos a mostrar que o futuro chegou com a correção e distinção do atendimento multilíngüe. Desci na primeira parada, aturdido. Era o esplendor do novo em meio a um calor de frigideira de ovos. Apesar disso, pude conversar com gente de todo tipo, raça, credo e cabeça. Não deixei ninguém de fora. Assim, abordei intelectuais, cientistas, autoridades, ricos, remediados, pobres, religiosos, ateus, jovens e velhos.
A todos, fiz a pergunta: o mundo vai acabar? A reação, quase sempre, foi de estranheza. Com exceções, se assustaram, mas disseram que não e, foram mais longe, enfatizaram, cada um a seu modo, que as crises, entre outros fatores, são ainda produtos de vícios do século passado, criadas pela ilusão do lucro fácil, ideologias, dominação político/militar e a simbiose entre as atividades produtivas e a grande especulação financeira. |
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| LÍNGUA MEXIDA / João Soares Neto |
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Diz Mauro Villar, co-autor do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “que a ortografia é uma convenção. As pessoas vão assimilar as mudanças”. Diz também que as crianças não terão dificuldade, pois vão começar a aprender, já da nova forma ortográfica. Estou falando do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado pelo Presidente Lula, no dia 30 de setembro passado, terça-feira.
Por esse Acordo, menos de 1% de nossas palavras terão modificações em sua grafia. Machado de Assis, tão celebrado esta semana, foi até citado por Lula: “Palavra puxa palavra, uma idéia traz outra. E assim se faz um livro, um governo ou uma revolução”. Não entendi bem o encaixe da citação de Lula, mas admito que ele tenha querido dizer que o seu dom da palavra fez o governo atingir os elevados índices de popularidade. |
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| SEU VOTO / João Soares Neto |
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Não sei a que horas você vai abrir esta página de jornal, tampouco se vai ler o óbvio que escrevo, de forma simples. Admitamos que seja cedo e ainda não tenha votado. Hoje é dia de eleição municipal. A Constituição de 1988 entendeu que os brasileiros precisam votar de dois em dois anos. Neste ano, você votará duas vezes. Em alguém para ocupar a prefeitura de sua cidade e escolher um vereador.
Vamos ficar, por enquanto, no vereador. Você sabe que o vereador é que ajuda a fazer e rever as leis do município? Saiba que ele é uma espécie de preposto seu, procurador ou representante, que decidirá como a cidade cresce através de um plano diretor, cobrados mais ou menos tributos, as ruas sejam bem assistidas pelos serviços essenciais e que haja uma estrutura básica de saúde e educação públicas para os que não têm planos de saúde e não podem pagar a escola para os filhos. |
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| MACHADO DE ASSIS / João Soares Neto
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Amanhã (29.09.2008), Machado de Assis completará 100 anos de morto. E, paradoxalmente, está vivo. Centro de discussão no Brasil e mundo afora. Não custa lembrar que Machado é, ao juízo geral, o maior escritor brasileiro. Vale dizer também que a Academia Brasileira de Letras, fundada por ele em 1897, está vivíssima, até aceitando Paulo Coelho em seus quadros. Mas, isso é outro assunto.
Machado escrevia poesias, canções, peças de teatro, contos, crônicas e romances. Hélio de Seixas Guimarães, estudioso de Machado, refere que ele é “o maior contista e romancista do século 19, não só profundamente interessado pelas questões de seu tempo e lugar, mas talvez o mais agudo e radical crítico das instituições sociais e políticas do Segundo Reinado.” Autor consagrado pelos romances - para ficar nos principais: A Mão e a Luva, Quincas Borba, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Este, pela trama insolúvel, envolvendo os personagens Bentinho, Capitu e Escobar, consegue ser objeto eterno de controvérsias entre críticos, psicanalistas e acadêmicos. Divagam sobre adultério, dissimulação, remorso, afabilidade e hipocrisia.
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| SEMANA DIFERENTE / João Soares Neto
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Esta semana está sendo diferente. A Bolívia vive em estado de guerra civil.O 4º. Maior banco americano quebrou, as bolsas de todo o mundo caem e Lula tem o maior índice de popularidade da República. E é porque agosto era o mês tido como aziago. Estamos em setembro, na véspera da primavera, faltando dois dias para o Dia da Árvore ( plante uma, por favor) e ouvindo o tempo marcar hora para as eleições municipais do próximo dia 05 de outubro.
Em janeiro, teremos novos ou reeleitos prefeitos, novos ou reeleitos vereadores. Milhares de funcionários públicos estarão lutando para manter ou obter um cargo comissionado, enquanto estranhos a esse quadro querem nele entrar como recompensa ao trabalho que dizem ter feito. Receberam promessas e cobrarão, certamente. Quem perder, vai limpar gavetas, apagar registros em computadores, reclamar da família, amigos, colegas, apoiadores e deixar dívidas que não serão quitadas, pois a desgraça só se completa com o abandono do barco pelos que já acenam para outras naus. |
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| LISBOA REVISITADA / João Soares Neto
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Era 1965, outono, tal qual agora, e o sopro da aventura me fez chegar a Portugal. Tempo de Oliveira Salazar. Políticos e intelectuais se sentiam amordaçados pela PID, a polícia política. Eu era um fedelho no início dos vinte e tinha sede de conhecer o mundo. O velho, principalmente. Lisboa foi e será sempre a minha entrada – e saída- para tudo o que tenho visto por este lado da terra. Escorado no parapeito da varanda do Hotel Mundial, oásis de cordialidade na Baixa, vejo que estou ao pegado do Rossio, Chiado, Restauradores e da Praça do Comércio.
E saio a esmo singrando praças, avenidas, ruas e vielas e dou conta de que os nomes das ruas (dos Sapateiros, da Prata, do Ouro) têm a ver com o que as pessoas fazem. É a tradição e história dessa cidade que sofreu brutal terremoto e foi reerguida, graças à lucidez urbanística do Marquês de Pombal, após 1755. Está linda, mesmo na pureza conspurcada pelo progresso. |
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| ARRIBA MEXICO! / João Soares Neto |
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Conta a tradição nacional que foi preciso o Grito do Ipiranga para acontecer a Independência do Brasil em 1822. No México, doze anos antes, em 1810, no mesmo mês de setembro, exato no dia 16, terça, aconteceu o Grito de Dolores. Há quase três séculos os espanhóis colonizavam o México, mas, tal qual ao Brasil, existiam divergências políticas com a Corte, Madrid.
O fato é que o Padre Miguel Hidalgo, na paróquia de Dolores, em Guanajuato, na madrugada de 16 de setembro de 1810, fez uma Declaração considerando o país como Império Mexicano, uma monarquia independente da Espanha. A semelhança entre as independências brasileira e mexicana para por aqui. No Brasil, houve o rápido aceite de Lisboa, pois D. Pedro I era português, a monarquia lusitana acabava e acreditava-se que tudo continuaria na mesma. No México, a história foi diferente. |
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| MEIO AMBIENTE / João Soares Neto |
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Meio ambiente e sustentabilidade são temas novos, sem literatura considerável. Muitas instituições, entidades, empresas e pessoas que não leram nada de significativo sobre esses temas - e tampouco as praticam em suas vivências como cidadãos ou como gestores - se arvoram em arautos e defensores pífios do que não conhecem. Já faz algum tempo, desde o ano de 1988, tenho procurado ler, conversar e participar de seminários, eventos e congressos que incluam o meio ambiente como foco.
A maioria não sabe o que diz, afora os chavões da moda, as frases de efeito e o olhar sedento pelo aplauso ou pelo `reconhecimento’ do que acreditam praticar. Frases tipo “cuidar da casa, da vida, do planeta” podem soar vazias se não tiverem embasamento, justificação legal e compromisso. Um exemplo real? A Petrobrás vende diesel com alto teor de enxofre desde 2002 e agora pede mais quatro anos ao Conselho Nacional do Meio Ambiente para um cronograma de adaptação. |
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| Ecos e Reflexos / João Soares Neto |
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Todos os poetas são loucos. Quem disse essa frase foi R. Burton, erudito inglês, nascido em 1577. Horácio, em “A Arte Poética”, escrita antes de Cristo nascer, já dizia que “aos poetas não permitem ser medíocres/ nem os homens, nem os deuses, nem as lojas de livreiros”. Ortega y Gasset, filósofo espanhol tão citado e pouco lido pelos brasileiros, assevera que “Não se pode dizer que o poeta persiga a verdade, visto que a cria”. Linda de Cássia Sá Araújo transpõe a soleira da Casa de Juvenal Galeno, essa veneranda e esperançosa entidade de cultura, fundada há 89 anos por Henriqueta e Juliana Galeno em honra de seu pai, Juvenal Galeno, o poeta dos simples e pequenos. Vem, por motivação e benquerença de Matushaila Santiago, uma integrante e baluarte daquela Casa. Linda faz o lançamento de seu livro Ecos e Reflexos no Benficarte, único detentor, por quatro anos consecutivos, do Prêmio de Responsabilidade Cultural do Governo do Estado do Ceará. |
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| Isabella e a Independência / João Soares Neto |
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Isabella é alemã, mas tem sangue brasileiro. Nasceu em um sete de setembro. Agora, jovem, culta, curiosa e minha afilhada, precisa saber mais sobre esta data. Digo primeiro que Napoleão Bonaparte deu um golpe, em 1799, e tomou o poder na França e queria a Europa toda. Contra Napoleão se insurgiram a Inglaterra, Prússia, Áustria e a Rússia. Por outro lado, é preciso falar que a Inglaterra mandava no mundo de então. Mandava até lá longe, em Portugal, onde o Marechal inglês Beresford tutelava a Corte lisboeta. Em 1808, a França invade Portugal. Prevenida, toda a realeza, D. João VI à frente, foge para o Brasil. Trouxeram móveis, artes e ouro. Tinham a segurança do oceano Atlântico a dividir os dois continentes. Aqui chegando, amedrontados e pragmáticos, resolveram abrir os portos às nações amigas. Quer dizer, à poderosa Inglaterra, sua tutora-aliada. Nesse mesmo tempo, o Brasil, então colônia - apenas produzia o permitido e mandava tudo para Portugal - já havia dado passos para ser livre. Tiradentes, um alferes mineiro, fora morto por suas idéias e surgiam conjurações/conspirações por toda a parte. |
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| SEGURANÇA NO BRASIL / João Soares Neto |
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| Será chatice escrever sobre segurança pública e privada? Não bastarão os programas policiais de rádio e televisão? Não valerão os pronunciamentos de políticos eleitos por programas policiais? E as páginas de revistas e alguns jornais que mostram, com crueza, o problema?. Por saber - como todo brasileiro - de casos de violência contra pessoas indefesas, é que resolvi pesquisar o assunto e passar a vocês que saem de casa com medo da insegurança das ruas e, ao voltar, trancam portas e janelas como se estivéssemos em guerra. Imagine uma cidade qualquer de 100 mil habitantes. |
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| VALIDAÇÃO / João Soares Neto |
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A palavra validação tem significado interessante. Vem do latim “validare” e é usada no sentido de dar validade a algo ou pessoa. É usada para deixar claro, por exemplo, que acreditamos em alguém. Mas, e sempre tem um mas, essa validação sempre vem, não por nós mesmos, e sim por termos conhecimento de um fato na TV, rádio, jornal ou em papos. O “validador” é alguém confiável e, por conta disso, o que fala tem sentido e se dá fé.
No último 30 de abril, o Brasil recebeu de uma agência internacional de análises de risco a sua validação como “Grau de Investimento” (investment grade). Passa a ser agora um país confiável onde os estrangeiros podem investir sem medo. Outro exemplo de validação: existia em São Paulo, até meses atrás, uma brasileira de 43 anos, com filhos, formada em teatro e que nunca teve vez na televisão nacional. |
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| Palavras Singulares / João Soares Neto |
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Márcio Catunda é um duplo, sempre. Advogado e diplomata. Cearense e cidadão do mundo. Poeta e ensaísta. Prefere o Catunda, que adotou desde sempre, ao Ferreira Gomes, que omite e não se vale da notoriedade de outros para acoplá-lo, de fato, pois de direito já o é. Formado pela velha Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, optou, logo em seguida, pela carreira diplomática e o fez com êxito. Ao mesmo tempo em que tirava de letra o curso de bacharel em ciências jurídicas e sociais dava curso à sua nau poética aportando em grupos culturais e fazia-se presente aos “points” que a cidade abrigava sem medo de, àquela época, ser contracultura ao ouvir vozes roufenhas de poetas e cantantes. |
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| Aos Partidos e Candidatos / João Soares Neto |
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Ficaria feliz se partidos, coligações e candidatos a prefeito(a) e a vereador(a) lessem o que tento mostrar de pesquisa recente divulgada pelo IBGE. Trata-se do diagnóstico Indicadores de Desenvolvimento Sustentável 2008(IDS 2008). Recortem e mostrem a seus candidatos. Ouça as suas explicações. A pesquisa baseou-se em 60 indicadores e demonstra desigualdades sociais, a errada distribuição de renda e os graves entraves em face de infra-estrutura deficiente, péssimo atendimento ou carência nas áreas de saúde, educação e moradias nas 200 maiores cidades do Brasil. |
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| O Coelho e o Maraes / João Soares Neto |
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Existe, há algum tempo, um filão na literatura brasileira. Descobriu-se que boas biografias são ótimas, financeiramente, para seus autores. Não estou falando de autobiografia ou das biografias feitas para familiares e amigos, mas as encomendadas por pessoas públicas que estão no imaginário coletivo dos que lêem livros no Brasil. No momento, há dois autores de biografias em voga: Ruy Castro e Fernando Morais. Eles trabalham como em linha de montagem, tais como os autores de best-sellers internacionais. |
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| Nós e as eleições / João Soares Neto |
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| Imagino que você tem mais de 16 anos. Se é esse o caso, tem um compromisso no dia 05 de outubro. Escolherá - entre muitos candidatos - dois nomes: um para prefeito, outro para vereador. Imagino ainda que não seja filiado a nenhum partido e que não acredite em político. Vota porque é obrigado, mas não está nem aí. Se é esse o seu perfil, reflita. Sabe o que é um prefeito? O que faz um vereador? Se não, procure saber. Mas não será nos programas políticos, no rádio e TV, que terão início em 19 de agosto, o local ideal para aprender. Tente formar um grupo. Seja de família, trabalho, amigos, igreja ou clube. Consiga material para ler. |
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| Entrevista com ANA MIRANDA por João Soares Neto |
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Considero Ana Miranda uma das maiores escritoras brasileiras. Singularmente, Ana é cearense. Mas é uma cearense que saiu daqui muito cedo, só voltava como visita, mas resolveu procurar seu umbigo na Prainha, no Aquiraz. Não tem mais intimidade com a Praia de Iracema, onde nasceu. Mudaram ambas. Ana é patrimônio nacional e a Praia de Iracema é, hoje, patrimônio da prostituição internacional. Ana Miranda é autora, entre outros, de Anjos e Demônios e Celebração do Outro, ambos de poesia e dos romances Boca do Inferno, Amrik, Desmundo, A Última Quimera e Dias e Dias, além de artigos, ensaios etc.
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| A Culpa é Nossa / João Soares Neto |
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Quando acontecem acidentes que comovem a Nação ou atingem familiares e amigos nossos, ficamos perplexos e cobramos atitudes, reclamamos e, momentaneamente, nos indignamos.
Nós, brasileiros, temos o hábito de reclamar dos políticos em quem votamos. Isso é produto da cultura e do comportamento nacional de não escolher com atenção dirigentes, amizades e parceiros. De vez em quando ou muitas vezes, somos surpreendidos com decepções e até desonestidades. Por qual razão isso acontece? Por que não temos o cuidado de examinar quase nada, de nos aprofundarmos em reflexões e análises e nos deixamos levar pela empolgação, a conversa fiada e a falsa aparência de gente boa. |
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| A Herança / João Soares Neto |
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| As pessoas nascem, crescem, estudam, e lutam. Umas apenas conseguem o mínimo para sobreviver. Outras alcançam êxito profissional, acertam ou não na escolha do parceiro conjugal, têm projetos comuns e uma vida longeva. Incerto dia, pela lei natural, um se vai e fica o outro, geralmente só. Filhos, se existirem, estarão casados, cuidando de suas vidas. Essas observações alinhavadas, decorrem da leitura acidental de notícia do jornal Folha de São Paulo com a manchete: "Por temer briga pela sua herança, Lily Marinho leva a leilão R$ 30 milhões em bens". |
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| Falsas Ditaduras / João Soares Neto |
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Estamos todos vivendo falsas ditaduras: a dos que se dizem politicamente corretos, a dos metidos a ambientalistas sem saber sequer o que é meio ambiente e a dos que resolveram, de uma hora para outra, posar disso ou daquilo quando nunca foram nada além de seus sapatos. Todos somos pressionados ainda pelos laços de ternura que nos cobram tudo e pouco dão, pela dureza do trabalho, dos muitos impostos que pagamos e pela incerteza que nos propicia a falta de segurança pública.
Compramos boas fechaduras para as casas, trancamos os carros, colocamos alarmes, levamos pouco dinheiro vivo no bolso e não nos sentimos seguros em lugar nenhum. Um dia desses, em das esquinas da vida, ouvi uma batida forte no vidro do meu carro. Olhei, distraído que estava, abri um pouco vidro e ouvi de um homem feito e maltrapilho: “vai me dar um dinheirinho ou quer que eu assalte”.
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| Vestibular - A Primeira Maratona / João Soares Neto |
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A imagem que me ocorre no momento é a de que a vida é uma espécie de longa maratona. Você sabe como os atletas se preparam para uma maratona? Fazem exames médicos, usam roupas e sapatos adequados, estudam as regras da corrida, formam um pequeno grupo para treinar junto, contratam um treinador, passam anos e anos a acordar cedo e a aprender a correr.
A vida real, não a ideal, é mais ou menos assim. Sempre – e para tudo – é preciso ter boa saúde.Imagine que você consegue ser empregado(a) de uma farmácia. Aí a coisa complica, pois além de passar o dia todo de pé, o que exige um bom preparo físico, ainda terá que sorrir para os clientes, decorar nomes de remédios, saber para quais doenças servem e entregar uma ficha com o seu nome na hora da venda. Se, ao final do mês, a quantidade de fichas e os valores dos remédios forem compatíveis com o que determina a gerência, você fica. Caso contrário, será despedido(a). |
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| Amor Falado / João Soares Neto |
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Não gosto de amor cantado aos ventos ou mirado pelos próximos. Próximos, mas não tanto que possam saber ou sentir a intensidade - ou não - dos que procuram amar ou têm o desejo de, juntos, acertar o passo da afetividade sem interferências, palpites ou fofocas.
Contardo Calligaris, cidadão do mundo, psicanalista, escritor e maduro, refere que as declarações de amor são “constatativas” ou “performativas”. As constatativas seriam, como se diz hoje, tipo assim: “digo que amo porque constato que amo”. As performativas seriam quando “acabo amando à força de dizer que amo”.
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| A Bossa do João / João Soares Neto |
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Imagine uma pequena cidade baiana na margem direita do Rio São Francisco no ano de 1931. Tinha curso o governo provisório de Vargas e Juazeiro, isolada, energia precária, olhava para Petrolina, Pernambuco, na outra margem do rio. Ainda não havia sido feita a ponte que as ligaria, no Governo Dutra.
Ali, em 10 de junho de 1931, nos braços de uma parteira, nasceu João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira, menino comum. Aos 14 anos ganha um violão e a vida muda. A cidade fica pequena e se larga aos 18 para Salvador onde conhece Dorival Caymmi. Agitado, dali vai para o Rio, participa da banda ‘Garotos da Lua’, é excluído por desobediência e por não gostar dos ritmos tocados. |
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| Violência e Segurança / João Soares Neto |
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Estamos estarrecidos com a incapacidade dos órgãos policiais de coibir ações e atentados à segurança das pessoas. Assistimos acuados e impotentes a crimes cada vez mais ousados. As cidades brasileiras estão loteadas pela marginalidade. E é pena se misturar marginalidade com pobreza. A pobreza é uma situação de risco, que não leva, necessariamente, à marginalidade.
O próprio Presidente da República é exemplo disso. Filho de retirante, mãe abandonada pelo marido, muitos irmãos e deu certo. Trabalhou, tornou-se sindicalista e é hoje quem é. |
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