Coisas Engraçadas de Não se Rir III: O Bloco da Literatura Carnaval
O Povo - Deu-se o fantástico, o inopinado, o irreal: os escritores, quem o diria, decidiram se unir! É certo que o motivo nem não era tão literário assim. Queriam porque queriam apenas criar um bloco de carnaval, acredita? Pois senta aí, Cláudia. Na busca da visibilidade, da contemporização (égua!) de costumes e da divulgação de uma imagem moderna do escritor perante o seu público, este desconhecido, decidiram-no como “estratégia de enfrentamento”.
Lançamento de livro: Desvios / Vânia Vasconcelos

Desvios, de Vânia Vasconcelos, dividido em três blocos de seis contos cada, tem certa unidade de concepção literária: O universo feminino. As mulheres da contista são mães, avós, trabalhadoras. Os homens são seus maridos, amantes, filhos, pais, avós, amigos, colegas de trabalho. Em alguns, até protagonistas, como o bibliotecário Antônio, os personagens principais de “Di profundis” e “O último verso” e Inácio, de “Domingo maior”. Há mulheres do morro, da favela, gente sofrida às voltas com roubos, violência e drogas.

Há uma velhinha do interior, que se perde na cidade grande e vira mendiga. Há uma menina cândida que sofre pela mãe, trocada pelo pai por outra mulher. Há mulheres da classe média. Enfim, um mundo de mulheres. Mas nada de descrições e narrações naturalistas. Mesmo nas histórias de enredo tradicional (homem, mulher, outra ou outro), a escritora consegue “enganar” o leitor, como no desfecho de “Di profundis” ou no obscuro “Um jardim feito de madrugadas” e também em “Conexões”, com seu final inusitado.

Lançamento de livro II - Omissão / Raymundo Netto

O POVO - O escritor Raymundo Netto volta a abordar os caminhos de um escritor às voltas com as gráficas e o lançamento do livro. 

Nos dias atuais, concordemos, é muito fácil se publicar um livro; não publicá-lo, porém, diante do apelo irresistível da vaidade, é que é difícil. Estava até pensando na possibilidade de não publicar essa crônica... mas fracassei! Quando o indivíduo, certo de “querer ser” escritor, — aliás, escritor já é “ex” até pelo próprio nome — decide mostrar sua obra a um editor, descobre que no Ceará não se tem disso não. Dá até para se concluir: editora não é bom negócio, caso contrário, os americanos já estariam por cá.

No entanto, quando o escritor consegue juntar uma michariazinha, ou a pede emprestada ao emergente cunhado, a fundo perdido, é claro, acaba se entregando nas mãos de donos de gráficas (com nomes de editora) que batem-lhe às costas e cobram-no o serviço em troca de um “iessebeênizinho” de nada, o que para ele, o sujeito mais solitário e incompreendido do mundo, é motivo de lavar-se em lágrimas.

Vida & Arte - CRÔNICA - Lançamento de Livros / Raymundo Netto

O Povo - A sina incansável dos autores cearenses desconhecidos (quase todos os são) na ávida busca de seu público leitor para o lançamento de suas obras.

Quando o autor e/ou sua obra são bastante aplaudidos pela crítica e público, das duas, uma: ou eles são muito bons ou são, realmente, muito ruins! Esse paradoxo que, à primeira vista, parece não significar coisa alguma, também transita em outras linguagens artísticas ou mesmo em outros aspectos menos importantes da vida, como a política, por exemplo.

Não está entendendo? Pois veja só pelo que passei dia desses:

Um desconhecido autor cearense, quase todos os são, ligou para convidar-me para o lançamento de seu livro. Disse ter sabido o número de meu telefone por meio de um “colega”... Assim como aquele outro autor — não menos cearense; não mais conhecido — que contou ter convidado Deus e o mundo para um de seus lançamentos (dizem que faz lançamentos até em paradas de ônibus e banquinhas de feira), e destes, só Deus comparecera, também esse jovem relatou que num primeiro lançamento desse mesmo livro não havia aparecido ninguém. “Ninguém”, achei, era modo de dizer...

A peleja de Dom José Alcides e o dragão de Sobral / Raymundo Netto

O Povo - 16.06.2008 - Raymundo Netto - Dados os últimos acontecimentos fenomenológicos e sísmicos que vêm, literalmente, abalando o Ceará, ouço, todas as manhãs, falas sobre “vórtice ciclônico de ar superior”, “diminuição da temperatura no oceano Pacífico”, “zona de convergência intertropical” entre outros palavrórios pouco convincentes, principalmente após a famigerada noite pirotécnica de relâmpagos que despertou a cidade de Fortaleza. Digo despertou, para os outros, pois eu mesmo nem dormia, e descobri in loco a razão de tudo isso.

Era tarde. Vinha passando ao lado da catedral que, à solidão da noite, de tão sombria, chegava a dar calafrios. Na barra da saia da Matriz, demônios com unhas maiores que os dedos, entre cusparadas, invadiam as virilhas de meretrizes, sugando a alma das jovens criaturas. À ladeira do Forte, homens e mulheres seminus surgiam embriagados com garrafas na mão e olhos perdidos.

O Cordel em Saudade Enluarada - Raymundo Netto especial para O Povo

A Feira do Sebo do mês de janeiro teve como tema a Literatura de Cordel. "Mas por quê"?, ouvi de algumas pessoas a admiração, e eu, cá, me admirando era com elas.

Ora, bastava ir à praça do Ferreira e descobrir o motivo! E era este, se não outro: os autores dos folhetos, assim como suas obras, estavam espetacularmente pendurados pelos cotovelos, joelhos ou pés, sustentados por pregadores de roupas em pequenos fios parecidos com barbantes de palha. E, mesmo assim, estavam sorridentes, contando as presepadas de um matuto ou outro, arremetendo a mão engarrada na declamação de versos, na contação de causos de onça ou de saudosas pelejas. Se eles não estavam chateados com a posição incomodante? Qual nada! Cordelista sempre dá um jeitinho de "desatar nós". Ainda mais em meio de praça... Estavam, bem dizer, em casa!

Laranja Seleta - Poesia Escolhida 1977-2007)

Em comemoração aos 30 anos de lançamento de Iogurte com Farinha, seu primeiro livro mimeografado (8.000 exemplares vendido de mão em mão), Nicolas Behr, poeta marginal, ambientalista e integrante da geração mimeógrafo, que já tem mais de 20 livros editados e produzidos por si mesmo (Grande Circular, Caroço de Goiaba, Chá com Porrada e outros), pela primeira vez lança uma obra através de uma editora: Laranja Seleta - poesia escolhida (1977-2007), editora Língua Geral, inaugurando a coleção Língua Real.

“Meus poemas são poemas porque a linha não vai até o final da página, volta rapidinho. Não me preocupa a sonoridade, a rima, me interessa a mensagem. Nunca me aventurei por outros estilos literários. E fico por aqui mesmo, neste rami rami da poesia, enganando os incautos”, afirma o autor em entrevista ao Diário de Curitiba.

A Leitura de Um Apagão

No sábado, mal havia chegado de um encontro de discussão sobre o Plano Estadual do Livro e da Leitura, já me sentia cansado só de pensar num monte de coisas atrasadas a resolver. “Problema, não”, decidi, “passarei o domingo trabalhando!” Contudo, que raiva, logo pela manhã fui surpreendido com a falta de energia elétrica. Estava ao computador, digitando e preparando algum texto e, pam, apagou-se tudo! E então, o que fazer? Ora,  há tempos, desde que passei a “digitar”, descanetei a casa inteira e, sinto, me esqueci como se escreve. Nem a minha caligrafia eu reconheço mais.

Desolado, sentei-me à varanda de casa que dá para a calçada da Vila. A vizinhança, assim como eu, estava inquieta. O assunto era um só: o tal do apagão! 

Eu Sou Contra o José de Alencar!

Entendo que o título deste breve artigo pode causar estranheza no leitor, mas não se preocupe que explicarei, rapidamente, a razão de tal rompante. Caso, mesmo após a devida justificativa, não me perdoe, paciência...

Na verdade, eu sou é contra a mudança do nome do bairro Alagadiço Novo para José de Alencar. Ah, você não sabia? Pois sim, li no jornal que a Câmara Municipal, dia 26 de dezembro de 2007, aprovou a mudança, por reivindicação da comunidade (falou-se de 800 assinaturas), da denominação Alagadiço Novo para José de Alencar, alegando ser o bairro de nascimento do escritor, onde ainda hoje se ergue a sua casa.

Uma Crônica de Natal

O POVO - O escritor Raymundo Netto busca inspiração em Charles Dickens e escreve Uma Crônica de Natal. Uma leitura para quem gosta - ou não - da data.

Não sei vocês, mas eu nunca gostei do Natal. Acho uma data muito triste, deprimente, talvez por isso, um dia, decidi que só me casaria se fosse num Natal. Assim o fiz!

Nunca escondi de ninguém esse meu desânimo natalino, a vontade de fugir de festinhas de confraternização, amigos secretos, jingle bells e coisas assim. Penso que, justamente por isso, é que me acontecem coisas como a que revelarei agora para vocês.

Do dia em que choveu poesia - Raymundo Netto Especial para O POVO

Que os leitores não estranhem, mas teve um dia em que choveu mesmo poesia por aqui. Não, talvez eu também nem desse crédito a tal absurdo, se não tivesse visto com meus próprios olhos.

Foi assim: Túlio Monteiro, prosador e boa gente, ligou-me dizendo estar precisando de 100 poesias para fazer “chovê-las” no centro da cidade. Calei ao telefone e pensei: escrever pode não fazer bem à saúde mental! Eu estava enganado... Explicou-me que em 1982, Adriano Espínola, escritor cearense, lançou, literalmente, do alto de um edifício de vinte andares do entorno da praça do Ferreira, o seu livro de poemas O Lote Clandestino. Foi a primeira Chuva de Poesias no Ceará.

No ano seguinte, outros autores, em meio ao processo de anistia e redemocratização do país, jogaram, dos altos dos prédios da mesma praça, 80 mil panfletos — em todos, se lia a divisa: “Poetas pelas DIRETAS” — com poesias de diversos autores da época. Daí, passados vinte e cinco anos, como parte da Feira do Sebo, tiveram a bela idéia de resgatar a história dessas chuvas ainda pouco conhecidas pela cidade que cresce (incha) fria e desmemoriada.

Ganhadores do I Edital de Artes da FUNCET

Lançamento conjunto das obras: Inimigos de Pedro SalgueiroCaos Portátil 5 - Um Almanaque de Contos - (vários autores), dia 08 de novembro de 2007 (quinta-feira) às 19 horas, no Mercado dos Pinhões, Rua Nogueira Acioly, S/N - Fortaleza - CE, vencedores do I Edital de Artes da Funcet. 

A Canção do Silêncio - Contos de Sérgio Rebouças

“As pessoas são belas no escuro. Apaguei todas as luzes na minha primeira noite de amor, apenas uma fumaça tênue levava a uma ponta de cigarro esquecida, braseando com vagar  suas últimas forças, cinzas invisíveis desfazendo-se no chão. O meu corpo inflamado, o rosto dela desenhando-se no requinte da noite, éramos sós, éramos dois, éramos belos enquanto houvesse a noite e o silêncio...”

"Quem conhece Sérgio Rebouças, tão jovem, não imagina a densidade de seu poder de escrita. Seu estilo se constrói através de uma prosa clássica pela extrema correção lingüística, em contos onde prepondera o naturalismo. O trágico e o escatológico convivem numa atmosfera de solidão e medo — ritmo comum à maioria das histórias."

Moreira Campos está entre nós - Raymundo Netto Especial para O POVO

Moreira Campos está entre nós. Raymundo Netto o reencontrou no bairro do Benfica e nos relata aqui a conversa que teve com o mestre maior do conto entre os cearenses. Pois bem, estava cruzando o Benfica, bairro intelectual e boêmio de nossa Fortaleza, para visitar um amigo que mora próximo à universidade, quando vi um fusquinha verde entrar no estacionamento aberto do shopping.

Como se fossem fogos, despertando a dormência da tarde, explodia-lhe o escapamento, deixando traçar no chão uma trilha de doze parafusos. Os taxistas e pedestres riam daquela “arrumação”.

Desceu do carro um senhor magro — aparentava uns oitenta anos — com o rosto marcado e pálido, testa larga e os fios de cabelos brancos puxados para trás das orelhas. Com as mãos à cintura, e numa delas uma rosa, olhava surpreso para os lados. Leon, um funcionário que trabalha no local há mais tempo, gentilmente tentava explicar-lhe algo. Aproximei e ouvi quando aquele senhor insistiu, impaciente: “Mas, meu filho, você é quem não está me entendendo... Eu moro aqui!”

Contos de Sobral e de Outros Sítios de Lustosa da Costa

A leitura de Contos de Sobral e de Outros Sítios é envolvente. Uma coletânea de 19 contos distribuídos em 101 páginas de prosa ficcional urdida por uma linguagem coloquial, própria de um bom contador de histórias.

A estrutura da narrativa é tradicional, seu texto depurado (o autor gosta de dizer “desataviado”) e um estilo fluente. Textos e personagens (em primeiro plano) construídos e caracterizados a partir da memória e do olhar de cronista: “Quando você publica um fato, ele é sempre carregado de sua visão de mundo. Não existe isenção total.”

Longe de ser um livro local, Contos de Sobral... é uma denúncia das mazelas comportamentais humanas, semelhantes em qualquer parte do mundo, apesar das características bem regionalistas e/ou provincianas relatadas em alguns dos textos (acredito que a maior parte das histórias acontecem antes dos anos 60), o que poderá ser observado nas seqüências de cada história apresentada.

A Moça do Zepelim Prateado

Numa dessas manhãs chuvosas em que me dá uma vontade doida de sair para o centro da cidade a fotografar prédios antigos, estava num dos locais mais queridos para mim: a praça dos Leões. Digo praça do Leões, por se tratar do nome afetivo, autêntico, o batismo do povo, ao contrário da denominação oficial de praça General Tibúrcio.

Sentei-me num dos seus bancos de madeira, sob as árvores enegrecidas, e pus-me a pensar no tema para a crônica do jornal. Afinal, o que escreveria para vocês?

Ao meu lado, a dona Rachel de Queiroz, que por ali também curtia a fresca na praça, ria-se da minha preocupação que já não lhe estranhava. Ao pescoço, desenhava-lhe apenas um discreto colar de contas. Tinha as pernas cruzadas, os braços de Clotilde levemente pousados sob curtas mangas, as mãos sobrepostas e, com vagar, discorria:

— Divertir um pouco o tédio alheio é tão gratificante... Ah, mas não pense em escrever sobre política... Não fale em política, por favor... azeda tudo! — sorrindo, bateu as pontas dos dedos nos lábios — Cala-te boca, Rachel...

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