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NOTA SOBRE A AUSÊNCIA DA CRÍTICA / João Scortecci

Há livros que talvez assustem a crítica, talvez pela riqueza do texto, talvez pelo volume das matérias. É o que parece estar acontecendo com a generosa "Antologia Poética" do premiado poeta Izacyl Guimarães Ferreira. Cerca de 140 poemas, quase 300 páginas. E vem até mesmo de antes o silêncio em torno de sua obra. Só ao receber o prêmio de poesia da ABL em 2008  é que obteve o poeta alguma imprensa. E já tinha 16 livros publicados!

Lançada em dezembro, sobre a Antologia só li matéria da própria editora, a Topbooks, em seu site, transcrevendo as abas do livro, texto de Ivan Junqueira. Texto magnífico, tal como o prefácio escrito por Alberto da Costa e Silva.

Creio que a excelência destes dois textos terá talvez inibido outros leitores críticos. Afinal os dois acadêmicos, pois são ambos ilustres membros da ABL, abordaram aspectos tão essenciais da obra que é difícil pensar noutros ângulos. Mas há alguns mais e creio caber à crítica, e não aos dois citados apresentadores tratar deles com mais detença.

O Artesanato de Enfados do Poeta Antonio Mariano - Por Silas Corrêa Leite

A poesia de Antonio Mariano mostra o criador torneando seus incontáveis sentidos no artesanato de seus líricos enfados que são pretéritos, dispersos, desorientações e desjardins. Tenho o feeling das pedras/Ao sabor do mar belamente canta Antonio Mariano, cabendo a ele sim, poeta de rara beleza, mostrar cada poema - a novidade - de estar vivo e respirar pela lâmina goiva de sua sensibilidade. O tear de sua solidão-cangalha, de sua solidão-albatroz?

A faca cega que acorda a palavra? A faca cega que orna dialéticas de próprio punho-prumo-(prisma). Nota-se a sua construção de águas, tocando o intocável, remando - a palo seco - contra uma noite indizível, um de-quê de si trazido à tona, quase navegações - alma nau? - vertentes, vertentos, aquários, chuvas que não se guardam num guarda-chuvas, portanto, o escrever é não esquecer, antes recontemplar-se. Lembrar dói? Existir dói. Aliás, Existir a que será que se destina? Caetano Veloso dava sua pinceladas.

O ATO DE LER – Por Inajá Martins de Almeida

-me uma meada de lã e eu teço um agasalho.
-me uma palavra e eu formulo uma frase.
-me uma frase e eu escrevo um texto.
-me um texto e eu componho um livro”. (1)

Definições, conceitos, significações, frases, textos, livros, são atributos de que nos valemos, quando nos predispomos a fazer uma pesquisa mais acurada de algo que queremos conhecer melhor.

Definimos, conceituamos, buscamos significados, formulamos frases, elaboramos textos, compomos livros, tudo para perpetuar nossa idéia e percebemos que:

"Os livros que em nossa vida entraram, são como a radiação de um corpo negro, apontando pra expansão do Universo, porque a frase, o conceito, o enredo, o verso (e, sem dúvida, sobretudo o verso) é o que pode lançar mundos no mundo". (4)

O BRASILEIRO E O LIVRO / Marcelino Rodriguez

Dentre tantas as constatações que já fiz sobre a deficiência da educação no Brasil, a mais dramática é que o brasileiro não tem noção alguma da essência do livro. Ele sabe apenas que o livro é um objeto. Ele não vê o livro como uma parte do espírito da vida, e uma das mais importantes, sem dúvida.

O homem sem conhecimento e sem uma mínima cultura sabe pouco, ´pensa pouco, produz pouco e desperdiça muito. O livro na verdade é a escova de dente do espírito, se me permitem a metáfora inusitada. Como escritor, evidente que essa ignorância consentida e essa indiferença em relação ao livro, dói mais. Pude sentir na pele o desconhecimento da importância do livro por parte da população.

O CHICO BUARQUE DE BUDAPESTE - Por Urariano Mota

A notícia esteve em todos os jornais nesta última semana de agosto. Concorrendo com mais de 230 livros, o romance Budapeste, de Chico Buarque, recebeu o prêmio de melhor romance em língua portuguesa, ao fim da 11ª Jornada Nacional de Literatura.

Pelo valor em dinheiro, de 100 mil reais, e pelo nível da concorrência, que reunia nomes como José Saramago, Salim Miguel, José Nêumanne e Antonio Torres, o prêmio é de vulto.
Não foi o primeiro, nem certamente será o último.

Já em 2004, Budapeste havia conseguido o Prêmio Jabuti de Livro de Ficção do ano. No exterior, a sua corrida também não é menor. Boas críticas na França, na Itália, e na Inglaterra esteve entre os seis finalistas de melhor ficção estrangeira.

O Educador e a Literatura - Por Fernanda Baroni

O pior crime que um educador pode cometer é desprezar a inteligência de seus alunos. Deixar de propor atividades desafiadoras por achar que a turma não tem interesse é o mesmo que desistir do magistério.

Uma forma prazerosa  e estimulante de trabalhar o lado cognitivo e a criatividade é através da Literatura. Um texto criativo provoca reflexões, ajuda a criança a romper com os estereótipos do dia-a-dia.

Alguns educadores podem argumentar que, mesmo conscientes do papel importante da Literatura, mesmo tendo apresentado livros, exigido que fossem lidos, discutidos e trabalhados em sala de aula, depois de uma certa idade, são os próprios estudantes que demonstram desinteresse pela leitura.

O ensino da língua materna: conflitos e sugestões - por Marcos Henrique Meireles Lima

Desde a colonização, a imposição de uma língua e a forma da sua verbalização e posterior escrita, tem sido uma cruel realidade em nossa sociedade e conseqüentemente, no ensino em nossas escolas. Muito se tem estudado sobre este assunto e é louvável a busca por uma superação dessa realidade, principalmente, pelos os quais chamarei de “translingüistas”.

São estudiosos da linguagem que, insistentemente, estudam, pesquisam, discutem e escrevem sobre paradigmas, variações e preconceitos lingüísticos, e outras discussões que dizem respeito ao universo da fala e da escrita, buscando transgredir a formalização imposta, bem como, os ditames gramaticais normativos, superando para uma visão ampliada, em detrimento de uma visão focada sobre o estudo da linguagem. Posso citar: Marcos Bagno e Magda Soares, os quais pude ter um contato recente, através de alguns de seus escritos.

O LIVRO COMO MERCADORIA - Por Patrícia Ferreira Bianchini Borges

No mercado, o livro participa de uma cadeia bastante diversificada de produtos chamados culturais e, de um tempo para cá, parece ter desistido de competir com os meios eletrônicos e com as linguagens não-verbais, para com eles fazer todo tipo de aliança: temos o livro musical, o livro-jogo, o livro de imagens, o livro brinquedo... disposto, na livraria ou no supermercado, ao lado de fitas de vídeo, de chocolate, de sorvete, etc.

Não há como negar que no grande mercado que está do lado de fora da escola tem havido um conjunto de iniciativas voltadas à educação de um leitor já habituado ao cinema e à televisão. Nessa busca, a estratégia parece ser a da aliança.  

E aos poucos, parece que certo segmento da sociedade, com poder aquisitivo, escolarizado, que já é, por exemplo, leitor de jornais e revistas, está se colocando não só perante a discussão em torno do livro, mas também está participando de forma mais intensa desse mercado. Nos dias de hoje, indo à videolocadora pode-se ganhar este ou aquele livro na locação de "x" fitas.

O LIVRO NO BRASIL por Rafael R. dos Santos

Venho lendo as notícias sobre o livro e muitas são as matérias que chamam a atenção para a falta de leitura do brasileiro. Como leitor ávido que sou, devo expressar meus sentimentos em relação à política que é adotada em relação aos livros no Brasil.

Para começar, deve-se falar do livro em si. A verdade sobre o livro, e principalmente seu preço, deve ser dita rudemente: o preço do livro é alto demais! Como um país espera crescer se, em alguns casos, um livro chega a 33% do salário de um único cidadão, que não irá trocar a comida de casa por livros, muito sabiamente.

Vê-se as editoras do Brasil lançando livros que custam em média R$60,00: é uma total inedequação à realidade brasileira (falta de atenção por parte dos "intelectuais" por detrás das editoras ou "cegueira branca"? Difícil distingüir, porém há sempre o dito popular: "pior é o cego que não quer ver"..). Peguemos alguns exemplos: um livro de autores como Thomas Mann, um símbolo do século XX, chega a custar mais de R$80,00; um livro mais "popular", como o "Senhor dos Anéis" custa cerca de R$75,00 a edição completa; uma lista interminável de exemplos poderia seguir, porém seria incoveniente ao conteúdo do email.

O MARQUÊS SEM NOBREZA - Por Tarcísio José da Silva

Um dos mais atraentes personagens de Monteiro Lobato é, com toda a certeza, o Marquês de Rabicó do Sítio do Pica-pau Amarelo. Lobato foi um criador de tipos inesquecíveis: Emília, Jeca-tatu, Dona Benta, Narizinho, etc. Exímio caricaturista criticava ou satirizava através das personalidades de seus livros.

Usando como canal a boneca de pano mais irreverente do planeta, ele deu vazão às suas idéias e aos seus planos mais ousados. Há um personagem que pode ser colocado como destaque entre as suas criações: é o porco marquês.

Esse leitão, detentor de um dos mais altos títulos nobiliárquicos, foi uma das primeiras figuras criadas pelo autor para a sua obra infantil; teve um livro dedicado a si com o título: “O Marquês de Rabicó”, publicado no ano de 1922, o qual, posteriormente, incorporou-se à coletânea “Reinações de Narizinho”.

O Papel Ampliado do Professor na Sociedade Digital - por Marcos Henrique Meireles Lima

O professor como conhecemos está com os seus dias contados? Será o fim da profissão docente?

Por muito tempo o professor foi reconhecido como o datore de aula, aquele que transmitia o conhecimento aceito pela comunidade científica e validado pela sociedade de um modo em geral, porém, essa postura tradicional, unilateral, individualizada, tende a ser ultrapassada por um profissional reflexivo, interagente, coletivo.

As informações são disseminadas em uma velocidade nunca vista, o acesso aos conhecimentos formulados é facilitado pela efervescência da utilização de uma grande rede de computadores interligados por todo mundo, propiciando com que a história antes marcada pelas “metamorfoses” seculares, seja transformada em milésimos de segundos.

Os Fotogramas Poéticos do Luiz Edmundo Alves - Por Silas Corrêa Leite

O poeta bahiano contemporâneo, Luiz Edmundo Alves, psicólogo radicado em Belo Horizonte, Minas Gerais, em seu novo livro, Fotogramas de Agosto, literalmente revela (...) os fotogramas (objetos literários transparentes) poéticos de recente belíssima safralavra. Muita coisa que interessa/Se configura no inesgotável, poetiza mui belamente ele.

E desconfia, remonta, estilinga, reconta. Uma saudade-sombra aflora ranhuras de si mesmo (que desvela), abismando-se, suspenso às vezes numa espécie de close-captação de sua cítrica sensibilidade ferida, talvez decantação para uma lírica mordaz.

Para ele é fácil revelar silêncio. A poesia é sépia? Apresenta-se bandalheiro como o poeta que precisa do medo de morrer.

OS MANDARINS - Simone de Beauvoir / Por Antonio Carlos Lopes

Diante da estante de livros que pela desordem, seria insensatez chamá-la biblioteca, um livro já lido há alguns anos, me chamou novamente a atenção, naquele momento senti uma certa  nostalgia, o que é muito comum, quando estamos a sós com nossas abstrações.

A obra, Os Mandarins da filósofa e escritora  francesa Simone de Beauvoir, uma publicação de 1954, valeu-lhe o Prêmio Goncourt.

Essa obra tem como  temática a posição dos intelectuais de esquerda no pós-guerra,como alvo também o rompimento do filósofo e escritor Jean-Paul Sartre (O ser e o nada, 1943), com o filósofo e escritor e jornalista Albert Camus (O estrangeiro,1942)  o estremecimento na relação destes expoentes da literatura mundial,  que  a autora estabelecera como intenção em sua narrativa intrínseca.

Paixão Por São Paulo - Uma Antologia Que Pode Dizer o Nome? -Por Silas Corrêa Leite

Sou sempre a favor de antologias por atacado, quaisquer que sejam, porque você, gostando ou não, de uma forma ou de outra, saca que são espécies de varais de produções daqui e dali, sempre aparecem ilustres nomes novos, qualidades raras, só não gosto mesmo - e isso às vezes acontece, infelizmente - daquelas antologias de suspeitos amigos do alheio lítero-cultural (querendo aparecer sem ser), guetos, panelinhas, que acabam mesmo, perdoem o trocadilho, espécies assim de antro-logias. Vai por aí.

-Pois é com esse espírito que recebo cada antologia, como bem recebi o livro Paixão Por São Paulo, antologia editada pela novíssima e competente Editora Terceiro Nome, sob a égide organizacional de Luiz Roberto Guedes. Currículo ele tem. Só isso basta?. Vão sacando. A obra, diga-se de passagem, muito bem editada, é realmente um primor de qualidade técnico-editorial. Um mimo mesmo tê-la em mãos. Babei.

PARA QUE SERVE A LITERATURA por Urariano Mota

Em um dia distante, as letras já foram chamadas de belas letras. E apesar de assim se chamarem, de belas, e para melhor belo belo, terem como objeto a beleza, nem assim defenderam à altura os seus cultivadores. O poeta Geraldino Brasil, que bem conhecia o trato, assim viu como são recebidas as belas letras na boa sociedade:

CLASSE MÉDIA

Um médico. / Ótimo na família.
Um executivo./ Ótimo.
Um engenheiro / Um arquiteto / Um magistrado. / Ótimo.
Um poeta. / Melhor na família dos outros.”

PARA RESPIRAR SARAMAGO / Mantovanni Colares

A concretização da proximidade literária de Saramago custou-me um lapso temporal expressivo. De início, tentei a leitura de "Ensaio sobre a cegueira", abandonando-o em seguida por me sentir sufocado pelo texto retilíneo, sem parágrafos, tabulações ou indicações de pausa. Não insisti, pois de cedo aprendera que a literatura só funciona naquele momento mágico em que o leitor se sente atraído pela obra, hipnotizado a tal ponto de não conseguir se desvencilhar do livro. Por isso, há o tempo certo para cada autor, para cada obra.

Pequena Resenha Crítica: A "Cisterna Poética" do Escritor Donizete Galvão

A poesia no reino da web destila veículos vernaculares, valora letramentos de idéias, às vezes segue pífios cursos sazonais, certamente dita curtumes e feudos culturais também, mas, principalmente leva e traz o que é bom porque, naturalmente, o tempo é o melhor fermento e o melhor juiz.

Assim, quando entre tantas invasões protegidas e deletações imediatistas você conhece um bom poeta contemporâneo, você logo caça sabê-lo ainda mais completo e perene, prover-se bem do conteúdo lítero-cultural emergente, divulgá-lo por gosto de dividir guloseimas, haver-se dele no rol de uma típica amizade virtual, pelo menos de início, nessa global panacéia da internet muito além de movediças areias utópicas e pan-poéticas reais.

Pequena Resenha Crítica: Bellini e o Demônio de Tony Belloto - Por Silas Corrêa Leite

Tony Belloto deve ser mesmo uma excelente pessoa, também bom compositor e ótimo guitarrista, além de ter a posse feliz da musa televisiva de todos nós, a maravilhosa Malu Mader, sempre fina e impecável. E isso não é pouco.

Chico Buarque, aliás, um dos maiores artistas de MPB, aquele cara que, em tese todo homem brasileiro gostaria de ser, como escritor é apenas mais ou menos, para alguns críticos ferozes e acadêmicos de plantão simplesmente uma mera piada fora de contexto, apesar de muito midiático, claro, o que é facilmente explicável.

Por uma política cultural eficaz -por Samuel Pinheiro Guimarães

1. A sociedade brasileira se caracteriza por crônica vulnerabilidade externa com facetas econômica (a mais debatida), política, tecnológica, militar e ideológica. A mais importante, pois influencia todas as políticas e atitudes do Estado e da sociedade brasileira (empresas, associações, partidos, ongs, igrejas, indivíduos etc) que agravam aquelas outras facetas da vulnerabilidade é a de natureza ideológica. É ela que, através de diversos mecanismos, mantém e aprofunda a “consciência colonizada” das elites, dirigentes e até de segmentos das oposições políticas, intelectuais, econômicas, burocráticas.

A consciência colonizada se expressa em uma atitude mental timorata e subserviente, que alimenta sentimentos de impotência na população, ao atribuir as mazelas brasileiras à “escassez de poder” do Brasil, à “incompetência” brasileira, ao nosso “caipirismo”, ao “arcaísmo” social, à “xenofobia” etc. enfim, à nossa inferioridade como sociedade. A vulnerabilidade ideológica está estreitamente relacionada com a crescente hegemonia cultural americana na sociedade brasileira, que se exerce em especial através do produto audiovisual, veiculado pela televisão e pelo cinema, articulado com a imprensa, o disco e o rádio.

Romances de "Luiz Antonio de Assis Brasil" revelam os planos esquecidos da história - Por Maria Helena de Moura Arias

Ao tentar estabelecer diferenças entre a História e a Ficção, pode-se chegar a lugar nenhum ou a todos os lugares ao mesmo tempo. A todos os lugares possíveis e imagináveis e até aos mais remotos,  impossíveis e inimagináveis. Espaço movediço, é a condição geográfica desta literatura. 

Em vista disso, é interessante atentar ao que declara Geysa Silva: “Assim, tratando a História como Narrativa, o escritor contemporâneo realiza a desconstrução dos fatos e dramatiza as circunstâncias, para que se possa usufruir a instantânea experiência da vida” (SILVA, 2000, p. 181) . Servindo-se de parâmetros oficiais e, por uma questão de cientificidade reconhecida, a História ganha terreno no campo da credibilidade e aceitação, enquanto que o Romance deflagra  o espanto e a dúvida.

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