Poesia deixa de ser o patinho feio, diz pesquisa

JB Online - Bolívar Torres - 07.06.2008

Os resultados da pesquisa Retrato da Leitura no Brasil, feita pelo Instituto Pró-Livro entre 2001 e 2007, divulgada esta semana, com o objetivo de traçar um perfil dos leitores brasileiros, trouxe à tona ao menos uma surpresa.

Tradicionalmente considerada o patinho feio das editoras, por causa da baixa vendagem, a poesia aparece em posição de destaque na enquete, que entrevistou 5.012 pessoas em 311 municípios.

Em determinados Estados, o gênero chega a ultrapassar os livros religiosos e de auto-ajuda. Dos entrevistados, 42% dizem que lêem poesia com freqüência. O número cresce entre os mais jovens, dando a entender que um novo público apreciador pode estar se formando.

Entre os autores mais populares, poetas como Vinicius de Moraes e Cecília Meirelles surpreendem, colocando-se em quinto e sexto lugar. Os números põem em pauta uma velha questão: qual o verdadeiro lugar da poesia no mercado editorial brasileiro?

Ceticismo dos editores


Embora ressaltem a importância da pesquisa, os editores mostram ceticismo em relação ao potencial comercial do gênero.

– Gostaria de saber que editoras são essas que estão se dando tão bem com poesia – brinca Luciana Villas-Boas, da Record.

Para a diretora da editora, a pesquisa encomendada pelo Pró-Livro é necessária, mas não substitui a experiência acumulada no mercado pelas empresas. E os números dessa vivência revelam que não há razões para se entusiasmar.

– Existe certamente um interesse da população por poesia, mas não creio que se traduza em vendas – avalia Luciana. – No panorama atual, uma grande editora até consegue lançar poetas consagrados. Mas é praticamente impossível apostar em novos autores.

Quem confirma a tese de Luciana é o poeta e editor Jorge Viveiros de Castro, da 7Letras, uma das editoras que mais apostam no estilo. A empresa costuma publicar novos poetas, mas as obras dificilmente vendem mais do que 600 exemplares. Por causa do receio dos livreiros, alguns nem chegam às lojas.

– Nas livrarias, meu vendedor chega a ser escorraçado – exagera Castro.

Entre os empecilhos para a publicação da poesia está a facilidade com que o gênero abastece outros veículos, como a internet.

– Atualmente, minha aposta é na venda online – informa Castro. – Assim posso ter um contato mais direto com o leitor.

A inadequação do gênero também passa pelas barreiras impostas pelo mercado editorial, sempre em busca de sucessos instantâneos.

– O negócio do livro passa pelo imediatismo e o nível de comunicação com a poesia se dá num plano mais sutil – diz Castro. – Existe uma exigência para tornar a obra mais comercial e a poesia não atinge isso. Quem compra poesia é só quem escreve ou estuda.

Para Sérgio Cohn, da Azougue, a contradição entre os números do Pró-Livro e os do mercado pode ser explicada por dados de uma outra pesquisa – a que aponta a superação da publicação anual de livros de poesia, em quantidade, sobre sua venda média. O que significaria que os brasileiros gostam mais de escrever poesia do que lê-la. Quando tem a chance de conversar com os autores das centenas de originais de poesia que recebe, Sergio percebe que a maioria não tem referências literárias nem o hábito da leitura. Trata-se de autores mal-informados sobre o assunto.

– O mais impressionante de ter uma editora é descobrir que há sempre alguém cujo parente ou açougueiro ou vizinho escreve poesia – conta. – Acredito que a população valoriza o gênero, mas não cultiva seu estudo. E isso vale para todos os meios sociais.

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