O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: O QUE SE ENSINA? POR QUE SE ENSINA? / Prof. José Breves Filho

Como tratar do ensino de Língua Portuguesa, sem questionar a função e a postura que deve (ou deveria) ter o professor dessa disciplina? E devo começar pelo início da vida escolar, ou seja, pela alfabetização. Vale lembrar que a criança, quando chega à escola, já fala a língua portuguesa. Em vista disso, o professor deveria ensinar-lhe duas modalidades que ela ainda não conhece: ler e escrever. Paralelamente, oportunizar a aquisição de estruturas mais elaboradas e complexas com o desenvolvimento da oralidade. Todavia, não perder de vista o saber lingüístico prévio, isto é, o conhecimento da língua que a criança traz para a escola, porque esse depende da condição socioeconômica.

Convém ressaltar que é necessário vincular uma possibilidade de ascensão social à necessidade de um aprimoramento lingüístico. Dessa forma, ao professor de Língua Portuguesa cabe a função de mostrar que existe um registro prestigiado em nossa cultura letrada, uma vez que os códigos de leis, os textos científicos e literários, utilizam-no como forma de expressão. Portanto, o professor precisa criar situações em que o aprendiz utilize esse registro da escola e os outros que este já conhece, contextualizando o trabalho com os vários níveis de linguagem.

Entretanto, a criança passa anos na escola ouvindo dos seus professores: “não é assim que se fala”; “não é dessa forma que se escreve”. Num processo ineficiente e improdutivo, a ênfase é dada, normalmente, aos aspectos gramaticais: nas classes de palavra, aos substantivos, adjetivos, verbos, advérbios etc.; na sintaxe, ao sujeito, predicado, complementos verbais etc.

Defendemos que o trabalho com os aspectos gramaticais só tem sentido quando se demonstra para que serve estudar esses conteúdos. Por exemplo: ao abordar a Fonética e Fonologia, é imprescindível que o aluno seja informado de que esse trabalho o ajudará a: a) pronunciar bem as palavras; b) entender a relação som/grafia no momento da escrita; c) separar corretamente as palavras (quando estiver escrevendo um texto); e d) reconhecer a sílaba forte das palavras (pré-requisito para a aprendizagem da acentuação gráfica).

Durante anos, a criança recebe redações corrigidas, nas quais estão assinalados (certamente, em vermelho) os erros de ortografia, de concordância, de regência e outros. Embora esse processo de castração da linguagem comece nas séries iniciais, ele tem continuidade ao longo da vida escolar. Imagine só os resultados! Ao terminar o Ensino Médio, temos um jovem inseguro no trato com a língua, que não gosta de ler e detesta escrever, o que pode bem explicar o fracasso nas redações do vestibular. Devemos, então, indagar: E as aulas de leitura? Afinal, ele foi à escola para aprender a ler e escrever a língua portuguesa.

Nesse ponto, a questão do ensino de língua materna se complica ainda mais, já que muitos profissionais, que devem ensinar a criança a ler, não lêem e não gostam de ler. Eles devem ensiná-la a escrever, todavia onde estão os textos que produzem? Quem, sem estar convencido de que ler é bom e pode dar prazer, ensina alguém a ler? Quem, sem sequer produzir bilhetes em situações cotidianas, convence a criança de que escrever é uma forma de organizar o pensamento?

Para conquistar a cidadania e ser intérprete do seu próprio texto (a vida), é preciso ter o mais elevado nível de leitura, ou melhor, ter competência para relacionar o texto ao contexto, aos conhecimentos, aos sentimentos, aos valores, às ideologias. Ser também capaz de concatenar as idéias por meio da escrita, compreendendo a função social que perpassa a língua escrita nos ambientes e atividades do dia-a-dia.

José Breves Filho - breves@ifce.edu.br

BREVES FILHO, José de Souza. Mundo Jovem: um jornal de idéias. Porto Alegre: PUCRS, n˚ 353, p. 10, fev. 2005.

 
 
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