A Leitura de Um Apagão

No sábado, mal havia chegado de um encontro de discussão sobre o Plano Estadual do Livro e da Leitura, já me sentia cansado só de pensar num monte de coisas atrasadas a resolver. “Problema, não”, decidi, “passarei o domingo trabalhando!” Contudo, que raiva, logo pela manhã fui surpreendido com a falta de energia elétrica. Estava ao computador, digitando e preparando algum texto e, pam, apagou-se tudo! E então, o que fazer? Ora,  há tempos, desde que passei a “digitar”, descanetei a casa inteira e, sinto, me esqueci como se escreve. Nem a minha caligrafia eu reconheço mais.

Desolado, sentei-me à varanda de casa que dá para a calçada da Vila. A vizinhança, assim como eu, estava inquieta. O assunto era um só: o tal do apagão! 

Reclamavam, perdidos em observações e perguntas tediosas, escravos que se  tornaram (leia-se: nós) dos eletrodomésticos. A sensação de impotência e de inutilidade tomava conta de todos e a previsão de retorno da energia era de longa, longa espera.

Em minha cadeira de balanço, para esquecer a ansiedade e distrair-me  das  idéias — que já emudeciam —, resolvi ler qualquer coisa: peguei um livro.

Ao portão, uma vizinha debruçou — penso que por falta do que fazer — e perguntou-me que livro era aquele, se era bom, era sobre o quê... Enfim, percebendo que a conversa se ia longa, emprestei-lhe o livro: “Vai, leia, é melhor!”. O vizinho da frente, passando à calçada e vendo a cena, parou e começou a falar sobre um livro que havia lido, adolescente ainda, e que fora o melhor de sua vida (também era o único!). Perguntei-lhe o nome e reconheci que o tinha em casa, além de outro título do mesmo autor. Surpreso, perguntou se eu poderia emprestá-los. O segundo, para levar à esposa — “Ô, mulher ingnorante!” — e o primeiro, para matar saudades. Hesitei. Em minha cabeça, a frase: “Livro não se empresta!” Mas, afinal, eram meus vizinhos... 

A primeira vizinha, rapidamente, voltou toda animada. Cedeu o livro a uma filha e estava lá a pedir-me outro, para ela e o marido que era muito nervoso: “Eu também não achava que ler era uma terapia?” Detesto essa palavra, pelo amor de Deus... — disse-lhe. — Ler, minha senhora, não é só distração não, é necessidade!

De repente, nem precisava pegar os livros na estante. Eles, por si sós, com exceção dos de literatura infantil — estes, não nos deixam nunca —, saltavam e escolhiam seus leitores. Os de poesia, claro, foram os primeiros a me escapar, seguidos pelos de contos e romances. Um, do Cortázar*, riscou com giz a calçada e brincava com as crianças. Os cordéis, como rouxinóis, voaram. Os de artes, rebeldes, cortaram as orelhas...

Fui ficando inquieto e cada vez mais sem livros em casa. Os demais vizinhos, muito à vontade, vinham pegar o restante, pediam sugestões, liam com os filhos e, quando voltei ao portão, percebi que todos estavam nas calçadas. Colocaram as cadeiras, formaram rodas e liam. Até um deles que havia perdido um filho por trás do sofá há um mês, o reencontrou, e logo se puseram a trocar idéias sobre a grande novidade: o livro!

Daí, um fenômeno aconteceu. Diante de tanto assunto,  quem mora em Vila sabe, os vizinhos deixaram de falar uns dos outros. Pensei: Será que as guerras existem porque as pessoas não lêem? 

Nisso, um vizinho muito chato e azedo, com quem não gostava de travar diálogos, postou-se ao portão com um dos meus livros desaparecidos debaixo do braço. Confessou-me: “Quando mais novo, escrevia poemas...” e pôs-se a recitar um dos quais se recordava. Droga, era muito bom! Até perguntei se ele tinha certeza da autoria... Riu-se, satisfeito, e tascou: “Ouvi dizer que você ‘também’ escreve...” Ah, eu mereço?

Soube depois que meus livros já estavam espalhados no bairro inteiro, e depois nos bairros próximos. Um senhor que veio, à tarde, do outro lado da cidade, comentou que por lá, os taxistas, os policiais da ronda, os vendedores e engraxates, os liam. Nas churrascarias, arrancaram os imensos aparelhos de televisão e colocaram mesinhas e prateleiras com livros. As praças, antes feias e abandonadas, passaram a ter movimento, contação de histórias e espaços de artes. Os jovens idealizavam festas temáticas baseadas em obras literárias. As bibliotecas da cidade se tornaram ponto de encontros. Nas comunidades, criaram as Casas do livro (as versões “impressas” das lan-houses).

Já à boca da noite, alguém gritou de uma janela: “A energia voltou, gente!”. As pessoas levantaram a cabeça, se entreolharam, acenderam as luzes das varandas e voltaram a ler, a contar histórias e a conversar uns com os outros. 

Entretanto, pobre de mim, isento de livros, entrei. Sentei no sofá, peguei o controle remoto e liguei a TV onde li, boquiaberto, nos caracteres em meio a uma tela azul, que o Big Brother 8 havia sido cancelado pela simples e absoluta falta de audiência. “Ah, queria tanto ter ainda um único livro para dar uma espiadinha...” 

* Julio Cortázar (1914-1984) - escritor argentino, autor de O Jogo da Amarelinha entre outros. 

Raymundo Netto autor do romance Um Conto no Passado: cadeiras na calçada é um dos editores de CAOS Portátil – um almanaque de contos. Embora nem tenha tantos livros assim na estante, continua  recebendo gentis doações. Contato: raimundo.netto@globo.com

 
 
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