Ansa Latina - 30.11.2007 - PARIS
O fundo secreto da Biblioteca Nacional da França, em Paris, será aberto pela primeira vez ao público na próxima terça-feira. No catálogo inédito, estão livros considerados "contrários aos bons costumes" e "obscenos", dado o erotismo da coleção, de volumes libertinos ou mesmo pornográficos.
O apelido da sala secreta dá uma boa idéia do que se trata: "Inferno". No dia da abertura, inaugura-se também a mostra "L'Enfer de la Bibliotheque, Eros au secret" (O Inferno da Biblioteca, Erotismo secreto), que contará com 350 exemplares em exposição, entre livros e ilustrações. A mostra será rigorosamente proibida a menores de 16 anos, pelo conteúdo das obras expostas, consideradas de teor "adulto".
Um exemplo é a edição colorida do "Histoire de Dom Bougre, portier des Chartreux", datado de 1741 e um dos clássicos da literatura libertina francesa, em que dois anjos testemunham jogos eróticos de um casal.
Ou então as ilustrações de Hans Bellmer para a edição de 1947 do "Histoire de l'oeil di Georges Bataille" (escritor francês). Em uma pequena foto anônima do Segundo Império, uma jovem cortesã vestida somente de cintas-liga e com olhar ausente, leva a mão ao sexo de modo provocante, tirando a atenção de um cavalheiro soberbo.
"Com 'Inferno', entraremos na literatura que não nos é ensinada", prometem os curadores da mostra, Marie-Francoise Quignard e Raymond-Josué Seckel. "Do [escritor Pietro] Aretino aos romances libertinos do século XVIII, vamos nos aventurar em um mundo imaginário onde os personagens obedecem a todas as fantasias do desejo", afirmam.
Além do italiano Aretino (autor de "Diálogo das Prostitutas"), constam no catálogo nomes de outros escritores conhecidos, como Marquês de Sade, Apollinaire, Louys, Bataille, e ainda, Gautier, Mirabeau, Maupassant e Dumas.
Há também outros tantos autores anônimos nesta celebração do sexo e do erotismo que percorre um vasto período, do século XVI ao século XX. Fotografias eróticas e publicações japonesas que pertenceram a colecionadores privados são outros exemplos do que estará no "Inferno" parisiense.
Aliás, a alcunha 'enfer' ('inferno', em francês) aparece pela primeira vez em 1844, quando eram catalogadas todas as obras "infames", confiscadas, censuradas. Em 1897, o administrador da Biblioteca falava de uma "coleção de livros obscenos, reunidos em um armário especial".
Já estavam guardados muitos panfletos e publicações confiscados dos revolucionários franceses, obras voltadas contra a rainha Maria Antonieta de Habsburgo (filha dos imperadores austríacos e casada com Luís XVI), símbolo de toda a corrupção da França absolutista.
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