Pinda Vale - 01/11/2007 - Ocimar Barbosa
O mestiço, que nasceu no Rio de Janeiro no dia 13 de maio de 1881, deixou seu nome marcado pelo brado forte contra as injustiças sociais. Afonso Henrique de Lima Barreto era filho de mãe escrava e pai português, funcionário da tipografia da Imprensa Nacional. Vem daí, sua iniciação no universo das publicações.
Barreto perdeu a mãe aos sete anos de idade. Tinha um padrinho influente que era o ministro do império, o Visconde de Ouro Preto, que foi quem o encaminhou pelos estudos, desde o ginásio até a Escola Politécnica em 1887 onde estudaria engenharia. Abandonou os estudos, no entanto, para assumir a chefia da família (o pai havia enlouquecido). Em 1902, começa a militar na imprensa estudantil e no ano de 1903, Lima Barreto assumiria um cargo na Secretaria de Guerra.
No ano de 1904 escreveu o romance Clara dos Anjos, em sua primeira versão, e no ano seguinte, o romance Recordações. Seu nome cresce. Suas reportagens passam a fazer sucesso no jornal Correio da Manhã; simultaneamente, colabora com a revista "Fon-Fon e Amigos", enquanto inicia o trabalho de mais um romance: “Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá” que seria publicado apenas em 1919.
Admirável criador
Ainda nos fins de 1907, o jornalista e escritor Lima Barreto consegue chamar a atenção de várias personalidades intelectuais por seus livros e pensamentos onde deixam transparecer suas idéias liberais. Condenava a pobreza e a discriminação e era corajoso contra tudo o que considerava injusto.
Entre seus novos admiradores estava o crítico literário José Veríssimo. Passou se dedicar à leitura na Biblioteca Nacional e teve acesso a escritores do realismo europeu; foi um dos poucos escritores brasileiros a conhecer e ler os romancistas russos. Após o episódio conhecido como “Primavera de Sangue”, quando militares foram envolvidos no assassinato de um estudante, Lima Barreto participou do júri que condenou os envolvidos. Dali pra frente, o escritor passou a ser excluído das promoções e eventos patrocinados pela Secretaria de Guerra.
No ano de 1911, enfrentando ainda mais as dificuldades financeiras, escreveu os primeiros textos daquela que é considerada uma de suas grandes obras: "Triste Fim de Policarpo Quaresma". A obra foi publicada no Jornal do Comércio, onde estava escrevendo, e também no jornal Gazeta da Tarde. Um ano depois, além de dois livretos de humor, Barreto publica dois fascículos das "Aventuras do Dr.Bogoloff".
Talento banhado pela cor
Lima Barreto já se sente quase um abandonado, decepcionado com a sociedade, mesmo assim luta para não cair. O vício da bebida começa a tomar conta e alma, cada vez mais triste, vislumbra muito pouco do que o escritor e jornalista esperava para o seu país e para seu povo.
Mesmo assim, em 1915, sua obra prossegue. O jornal A Noite publica em folhetins seu romance “Numa e a Ninfa”. No mesmo período, Lima Barreto passa a colaborar com a revista Careta, onde publica artigos sobre política, além de outros temas. Em 1916 publicaria “Triste Fim de Policarpo Quaresma” reunindo contos preciosos como “O Homem que sabia javanês” e “A Nova Califórnia”.
Candidata-se à Academia Brasileira de Letras mas seu pedido sequer é considerado, acredita-se por questões racistas. Mesmo assim, continua com suas publicações, como a 2º do Isaias Caminha e o romance “Numa e Ninfa”. Em 1919, parou de escrever para o semanário político A.B.C. por esse ter publicado artigos contra a raça negra. Candidata-se pela segunda vez à Academia, e desta vez é aceito, porém não eleito. Apesar disso, consegue apoio e voto permanente de expoentes da crítica como João Ribeiro e Alceu Amoroso Lima.
Já bastante doente, acomoda-se em uma modesta residência em Todos os Santos. Mas sempre que pode, visita e passeia pelo Rio de Janeiro que tanto ama. Em 1921, pressentindo a chegada da morte, retira sua candidatura à vaga da Academia de Letras.
Morreu esquecido
Em maio de 1922, o romance “Clara dos Anjos” tem o seu primeiro capítulo (O Carteiro) publicado pela revista Mundo Literário. Lima Barreto, no entanto, já estava debilitado pelo reumatismo, bebida e padecimentos.
Faleceu, pobre e esquecido, no dia 1º de novembro de 1922, deixando ainda obras póstumas lindíssimas como Bagatelas, onde mostra uma visão clara e humana das questões sociais do país. Um mês após seu falecimento, a sátira Os Bruzundangas é publicada em 1953, mas só em é que seriam publicadas 17 obras do escritor, entre elas, “Feiras e Mafuás”, Impressões de leitura, Vida urbana, Coisas do Reino de Jambon, Diário íntimo, Marginália, Bagatelas e O Cemitério dos Vivos.
Em 1982, foi homenageado no carnaval carioca pela Unidos da Tijuca. Atualmente suas obras tem sido alvo de estudos, tanto no Brasil como no exterior e traduzidas em inglês, francês, tcheco, alemão, japonês, russo e alemão.
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