O MARQUÊS SEM NOBREZA - Por Tarcísio José da Silva

Um dos mais atraentes personagens de Monteiro Lobato é, com toda a certeza, o Marquês de Rabicó do Sítio do Pica-pau Amarelo. Lobato foi um criador de tipos inesquecíveis: Emília, Jeca-tatu, Dona Benta, Narizinho, etc. Exímio caricaturista criticava ou satirizava através das personalidades de seus livros.

Usando como canal a boneca de pano mais irreverente do planeta, ele deu vazão às suas idéias e aos seus planos mais ousados. Há um personagem que pode ser colocado como destaque entre as suas criações: é o porco marquês.

Esse leitão, detentor de um dos mais altos títulos nobiliárquicos, foi uma das primeiras figuras criadas pelo autor para a sua obra infantil; teve um livro dedicado a si com o título: “O Marquês de Rabicó”, publicado no ano de 1922, o qual, posteriormente, incorporou-se à coletânea “Reinações de Narizinho”.

Rabicó é um porco amoral e faminto, cujo único interesse é manter a sua própria barriga cheia. Pouco lhe importa conhecimentos ou responsabilidades, pois não cultiva valores espirituais. É medroso e não merece confiança, pois o estômago é o seu mestre e guia-se mais por ele do que pelo cérebro. Praticamente, não possui idéias ou ideologias como outros animais do Pica-pau Amarelo (Conselheiro ou Quindim).

Para esse esfomeado personagem, Lobato dedicou páginas satíricas e cruéis. Fê-lo trair um seu irmão de espécie para escapar da morte na panela e transformou-o em devorador da raça humana diminuída em “A Chave do Tamanho”: os pobres homens  – glória da natureza – comidos por um suíno guloso...

A sujeição de Rabicó ao apetite aproxima-o, sem dúvida, aos familiares Pantagruel e Gargântua do famoso François Rabelais, francês humanista e um dos primeiros europeus a escrever romances. O porco de Lobato nada fica a dever aos infames rabelaisianos. Todos os três sofrem de uma bulimia incurável, que se sobrepõe a qualquer código ético.
 O marquês representa o lado materialista e baixo da humanidade; o lado instintivo, desprovido de idéias ou sonhos, controlado unicamente pelas necessidades básicas e animalescas.

Desempenha o mesmo papel que o gordo Sancho Pança na novela de Cervantes: enquanto D. Quixote é um fidalgo sonhador e moralista, o seu escudeiro é um incompetente, incapaz de compreender a mentalidade elevada do seu amo. Por isso, Rabicó é depreciado por Pedrinho e, principalmente, Emília – que o julga imprestável -, embora seja querido de Lúcia, a Narizinho.

Malgrado as suas falhas, isso não o impede de ser amigo e colega de aventuras das crianças e da boneca. Inclusive, a ele deve Emília o título de marquesa, pois casou-se com ele (enganada, mas casou-se). Rabicó acompanhou-os ao Reino das Águas Claras e à Grécia Antiga, bem como é o mensageiro por excelência do Pica-pau Amarelo.

De certo a fonte básica da inspiração de Lobato na criança do marquês foi uma pessoa real e próxima do escritor, a quem ele alude com freqüência nas cartas a Godofredo Rangel. É um amigo cômico, que possui idéias estapafúrdias e julga-se grande poeta e gênio como Leonardo da Vinci; é conhecido como Marquês de Beccari – posteriormente uma alusão ao escritor de obras políticas italiano, autor de “Dos Delitos e das Penas”.
 LOBATO refere-se a ele quase sempre de maneira satírica:

“Quanto ao nosso ilustre marquês italiano, afirmo-te que é um grande porco. Imagine isto: a mana foi passar umas férias em Taubaté e deixou a sua casa entregue ao marquês, autorizadamente emitido nas funções de “honorable” guarda-casa, vulgo caseiro. Ele é um gênio, bem sabes. Gaba-se de ser o Leonardo da Vinci do Bom Retiro e adjacências [sic]. Pois apesar disso a casa tão imunda que a mana teve de alugar outra. Incorporou boduns indeléveis [sic] em título lá dentro, paredes, assoalho, móveis [sic]. É um hidrófobo [sic], como o Tito Franco. Não se lava. Nunca se lavou”. (grifo meu) (1959; 159-160).
 
Muito dessa descrição encaixa-se bem no cerdo do Pica-pau Amarelo. O próprio nome “Rabicó” poderia ser um anagrama de “Beccari”. Além disso, o escritor deixa claro a sua intenção de transformar seu amigo exótico em personagem de livro. Disse a Godofredo ter várias idéias novas, sendo “uma delas: explorar literariamente o Beccari. Criar com ele um tremebundo tipo de romance”. (LOBATO, 1959; 136). E em outras ocasiões: “E se puséssemos o nosso da Vinci no Queijo (...)?” (grifos do autor), (LOBATO) 1959; 165) e: “Vamos meter o Beccari no Queijo?” (grifo do autor) (idem, 171). O “Queijo” era o título de uma obra escrita em parceria por Lobato e Rangel.

De fato, o tal Beccari tornou-se um personagem fictício de nomeada da literatura brasileira na pele do porco falante do famoso sítio.

O marquês de Rabicó é uma das prosopopéias mais cômicas dos livros, das revistas em quadrinhos e da televisão. Nas ilustrações da editora Brasiliense foi desenhado de várias formas, ora sobre duas patas, ora sobre quatro, tendo como um dos principais ilustradores Le Blanc. Também integrou e integra a família dos gibis. E com adaptação teatral e televisiva das obras do Pica-pau Amarelo, Rabicó invadiu os palcos e os lares sob a aparência de boneco.

Esse “Pantagruel” brasileiro traz em si a imagem da nulidade dos valores; é o antípoda de tudo o que a Moral e a Religião pregam. Rabicó jamais atingirá o Reino dos Céus ou o Paraíso, seja o de cristãos, judeus, mulçumanos, budistas, hindus ou africanos, pois desconhece a importância das virtudes. É indiferente à aquisição de saber e de princípios; jamais será um filósofo, um “amante da sabedoria”, conquanto lhe possa ser aplicada a sentença de Cohelet como norma de vida: “nenhuma cousa há melhor debaixo do sol do que comer, beber e alegrar-se”. (ALMEIDA, 1960, 684).

O nobre grunhidor e comilão será sempre uma eterna e simpática criatura do fabulário universal, a exemplo dos três porquinhos, do leão e do ratinho, do patinho feio, de Mickey Mouse e do Pica-pau. 

Tarcísio José da Silva
e-mail: tj.silva1975@bol.com.br  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1960.
LOBATO, Monteiro. A Barca de Gleyre. 9ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1 v., 1959.

 
 
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