O ensino da língua materna: conflitos e sugestões - por Marcos Henrique Meireles Lima

Desde a colonização, a imposição de uma língua e a forma da sua verbalização e posterior escrita, tem sido uma cruel realidade em nossa sociedade e conseqüentemente, no ensino em nossas escolas. Muito se tem estudado sobre este assunto e é louvável a busca por uma superação dessa realidade, principalmente, pelos os quais chamarei de “translingüistas”.

São estudiosos da linguagem que, insistentemente, estudam, pesquisam, discutem e escrevem sobre paradigmas, variações e preconceitos lingüísticos, e outras discussões que dizem respeito ao universo da fala e da escrita, buscando transgredir a formalização imposta, bem como, os ditames gramaticais normativos, superando para uma visão ampliada, em detrimento de uma visão focada sobre o estudo da linguagem. Posso citar: Marcos Bagno e Magda Soares, os quais pude ter um contato recente, através de alguns de seus escritos.

No que se refere a língua materna (entendo como a língua que é falada e praticada pelo sujeito, pelo fato de ser a língua também falada e praticada pela sociedade onde ele nasceu), e seu processo de ensino/aprendizagem, percebo uma maior discussão sobre as possibilidades de como colocar em prática este processo, embasadas por influências de estudiosos  que comungam características mencionadas anteriormente. 

Apesar de que, muito tem se ensinado Português como língua materna, não entendo que o mesmo possa ser definido como tal, tamanha as influências culturais e sociais, em um país multifacetado como o Brasil. Compreendo que temos um caso no Brasil de “Português-brasileiros”, mesmo respeitando a defesa do Português como ainda sendo a nossa língua materna, tamanha a presença de sua estrutura nas leituras e escritas praticadas.

A relação entre o ensino do Português e a consideração em representar a(s) língua(s) em diferentes modos, diante das suas variações, me permite tentar superar a definição deste ensino, acreditando ser um paradigma em esgotamento, mesmo não podendo ser considerado um perito no assunto, mas um “ousado” praticante do ato de ler e escrever.  

Ainda é muito presente a preocupação em “formatar” leitores e escritores, que devam basear-se exclusivamente nas normas e regras gramaticais, sem que sejam, ao menos,  respeitadas as variações de um país multilíngüe como o nosso, mesmo relativizando as discussões que permeiam a contemporaneidade.

Acredito que as formações dos educadores (principalmente os licenciados para o ensino de Língua Portuguesa) têm um papel marcante na história e no trabalho com o ensino da linguagem e suas multiformas. Se outrora estas formações, fundamentada no formalismo gramatical, influenciava na perpetuação desta prática, atualmente, em um movimento de (trans)formações, onde se discute muito sobre as variações sofridas pela linguagem, certamente teremos educadores preocupados em levar tais discussões para suas salas de aulas, procurando ouvir e respeitar a língua materna onde ele e os sujeitos envolvidos no aprendizado em sala de aula são praticantes/aprendentes/ensinantes.

Ao invés de cobrar uma prática de leitura e escrita, alicerçada apenas do ler e escrever corretamente, segundo as normas instituídas pelas gramáticas normativas, deve começar a se trabalhar medidas que privilegiem a compreensão e conseqüente construção de textos variados, respeitando todo arcabouço lingüístico trazido pelo educando/educador (prefiro me referir assim a quem era apenas chamado de educando, tamanha a sua influência no processo educativo); trabalhar a leitura e escrita de textos mais comuns às suas realidades (inerentes da sua língua materna), acrescentando e possibilitando gradativamente (respeitando o tempo de cada sujeito) um maior contato com textos diferentes dessa realidade, considerados como mais sofisticados; e, buscar, consequentemente, despertar o prazer (o que chamo de lúdico) que pode existir em aprender a ler e escrever.

Tais medidas não podem deixar de respeitar exigências que se referem à escrita de textos considerados como oficiais, além de não deixar de expor ao educando/educador, as variedades e possibilidades em que se podem desenvolver seus textos, pois acredito que em qualquer situação - seja limitando a escrita a regras impostas pela gramática normativa e/ou pela norma culta, ou creditando uma visão onde, sustentada nas variações lingüísticas, poderá ser utilizada uma escrita aonde “pode-se de tudo” em qualquer situação - o extremismo será sempre algo doentio.

Enfim, mesmo se tratando em ensinar o Português (língua oficial) ou Português-brasileiros (o que considero como língua materna), a consciência da infinita possibilidade de progressivas variações da linguagem, deve ser preocupação de todos os envolvidos neste ensino, demonstrando o quanto diversa pode ser uma língua ou várias línguas, revelando um cuidado com o respeito às diferenças e a seriedade com que se deve ser tratados os estudos sobre este assunto.

Marcos Henrique Meireles Lima
superunebiano@yahoo.com.br

 
 
Voltar Topo Indicar a um amigo Imprimir
 

AMIGOS DO LIVRO - O PORTAL DO LIVRO NO BRASIL
amigosdolivro@amigosdolivro.com.br

ANTES DE PEDIR OU SOLICITAR QUALQUER INFORMAÇÃO AO PORTAL
LEIA PRIMEIRO O "PERGUNTAS FREQUENTES"

 
Nipotech