O Educador e a Literatura - Por Fernanda Baroni

O pior crime que um educador pode cometer é desprezar a inteligência de seus alunos. Deixar de propor atividades desafiadoras por achar que a turma não tem interesse é o mesmo que desistir do magistério. Uma forma prazerosa  e estimulante de trabalhar o lado cognitivo e a criatividade é através da Literatura. Um texto criativo provoca reflexões, ajuda a criança a romper com os estereótipos do dia-a-dia.

Alguns educadores podem argumentar que, mesmo conscientes do papel importante da Literatura, mesmo tendo apresentado livros, exigido que fossem lidos, discutidos e trabalhados em sala de aula, depois de uma certa idade, são os próprios estudantes que demonstram desinteresse pela leitura.

Ao ouvir de um aluno que ele destesta ler, o professor deve agir com sabedoria e sutileza. A aprendizagem não tem a ver só com a memorização do conteúdo dos livros. Para que o estudante desenvolva o hábito da leitura e o gosto pelo estudo é preciso que todo o ambiente que o cerca seja favorável.

A relação com o professor deve ser de confiança, pois só assim pode surgir a segurança necessária para trilhar novos caminhos. É comum encontrar professores que pautam as atividades em função apenas da leitura de obras clássicas, constantes na ementa da série.

Num mundo globalizado, em que as crianças estão expostas cada vez mais às mídias e à tecnologia e menos à leitura, fazer um estudante que não tem o hábito da ler começar sua aventura no mundo das palavras por textos mais rebuscados pode ser desestimulante e acabar de vez por solidificar o conceito de que ler é muito chato.

Por outro lado, a leitura deste gênero por leitores mais familiarizados com o ato de ler e com o objeto livro pode ser uma grande descoberta.Livros bons não faltam no mercado. E não é preciso que tenham uma linguagem rebuscada.

A arte é justamente escolher títulos em que o autor soube trabalhar as palavras de forma autêntica, simples, sim, sem no entanto ser pobre. Bons autores conseguem manter um vínculo com os leitores na medida em que preenchem as linhas e entrelinhas de suas histórias com vários significados e conceitos  que dão asas  à imaginação e ajudam a compreender a realidade.

A questão toda passa pelo respeito à criança e às suas limitações. Para formar leitores é preciso que também o professor seja um deles. Mas não basta conhecer bons títulos e autores competentes. O professor precisa, acima de tudo, ser um conhecedor de seus alunos. Daí a dificuldade de seguir um plano de aula preparado com antecedência, normalmente no período de férias, em que ainda não teve contato com a turma.

Um ótimo livro pode funcionar muito bem com um grupo e não com outro. As histórias são ferramentas poderosas quando o professor consegue aproveitar o momento da turma, os questionamentos surgidos em sala de aula e, a partir daí, utilizar bons textos para que estes assuntos sejam aprofundados e discutidos.

Outro agravante, no que diz respeito às atividades que são sugeridas aos alunos a partir da leitura de livros obrigatórios, é a maneira com que o professor avalia a compreensão que cada um teve da obra. Querer que todos os alunos tenham a mesma opinião é absurdo.

Exigir um padrão de resposta àquela famosa pergunta O que o autor quis dizer com a frase... é assassinato da criatividade. Cada leitor interage com a história de uma forma diferente, diferente, inclusive, do autor.

Para ilustrar essa situação há um caso famoso, ocorrido no final da década de 70. Na ocasião, foi pedido a Carlos Drummond de Andrade que respondesse às questões de interpretação de um texto de sua autoria, aplicadas em uma prova de vestibular. De acordo com o gabarito, o poeta, quem diria, não teria alcançado uma nota satisfatória para passar.  

O conteúdo de  um livro pode ser trabalhado de diversas maneiras. Interpretação de textos não deve ser tarefa enfadonha e sim, prazerosa. Principalmente no caso de leitores iniciantes - sejam eles novos de idade ou de experiência -, oferecer histórias e propor atividades ligadas a textos é ótimo, mas associar essa leitura a testagens pode ser totalmente contraprodutivo.

Provas sobre livros acabam sendo a melhor maneira de afastar o estudante da leitura e da Literatura. Não é preciso pedir nada em troca quando se propõe a leitura de um livro à classe. Nem obrigar a criança  a dizer o que achou. Muito menos criticar seus sentimentos, sua relação com o texto, dizendo qual interpretação é certa e qual não é. Cada história é o que lemos, o que escutamos e, principalmente, o que sentimos.

FERNANDA Baroni

É uma jornalista apaixonada por Literatura Infantil. O trabalho como repórter, assessora de imprensa, profissional de comunicação de um modo geral, é gratificante, mas não tira o gostinho de um dia dedicar seu tempo à Literatura. Seja para falar sobre esse assunto tão especialmente inesgotável ou para encontrar sua linguagem e seu espaço nessas esquinas de palavras.

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